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Mostrando passarinho em gaiola, diretor de “Roma” vence Globo de Ouro

Ecio Rodrigues, 13/01/2019

O mexicano Alfonso Cuarón venceu o Globo de Ouro 2019 de Direção pelo longa “Roma” – obra que teve a pretensão de demonstrar (sem êxito, diga-se) que o cinema não precisa ser populista para exercitar uma forte conexão com o povo.

Entre todos os clichês presentes na película (a maioria com viés politicamente correto), destinados a reforçar a identificação do espectador com a história, as frequentes cenas onde aparecem gaiolas com passarinhos chamam a atenção.

Para quem não viu, o roteiro se prende ao cotidiano de uma família de classe média alta, na Cidade do México, entre 1970 e 1971. Por sinal, a ausência de referências à Copa do Mundo de 1970 é uma falha imperdoável: um cartaz atrás da porta do filho adolescente é tudo o que aparece sobre a única vez em que o México sediou o maior evento futebolístico do planeta.

A narrativa se desenrola em torno da dupla de empregadas domésticas que cuida da rotina da casa. Um trabalho árduo para dar conta dos afazeres diários, demoradamente filmados, que incluem limpar, cozinhar, juntar cocô de cachorro, lavar roupas e calçadas e servir de babá aos 4 filhos dos patrões.

Uma delas, Cléo, se envolve com um sujeito imprestável, que se dedica a treinar o que chama de “artes marcais”, e encontra nisso um sentido para sua vida medíocre.

Ao engravidar, Cléo é rejeitada e se vê às voltas com os problemas de uma mãe solteira entregue à própria sorte. Ela é amparada pela patroa (que também acaba de ser abandonada pelo marido), de uma maneira atípica, de tão carinhosa.

Aliás, sendo reflexo da realidade vivenciada pela sociedade mexicana da época, o comportamento exemplar da patroa (ainda que se esquive do populismo) é um tanto anômalo – da mesma forma que a presença constante das gaiolas de passarinho.

Ocorre que, além de pertencerem ao universo masculino – a despeito de as mulheres dominarem o ambiente doméstico retratado, onde não há homens –, as gaiolas destoam da linha politicamente correta assumida pelo filme.

A criação de passarinhos em gaiolas, apesar de muito popular na América do Sul (e decerto no resto do mundo), é prática demonizada pelo movimento ambientalista. No Brasil, é comum que a fiscalização ambiental vasculhe feiras agrícolas em busca de gaiolas de criadores “clandestinos” –, ou seja, que não tenham seus canários e coleiros devidamente registrados.

Cabe ressalvar que esse registro é algo muito difícil, para não dizer impossível, de ser obtido. Uma série de normas, entre as quais a IN nº 10/2011, do Ibama, estabelece um rol de regras abstrusas, discriminatórias e praticamente inexequíveis para a regularização da criação de aves da fauna silvestre brasileira.

Acreditam, os ambientalistas e gestores ambientais, de modo pouco sensato, como de costume, que existe um mercado milionário de passarinhos, e que a população que adora criar essas aves é manipulada por inescrupulosos “contrabandistas”, que enchem os bolsos de dinheiro e maltratam os pássaros.

No caso dos psitacídeos – papagaios, periquitos e araras, para ficar nos exemplares mais visados –, chega-se ao equívoco de supor que a (necessária) legalização da comercialização dessas espécies encobertaria o mercado marginal da caça predatória realizada no interior da floresta.

Mostrar as gaiolas é politicamente incorreto para os ambientalistas, mas esse nem é o problema, em “Roma”. O que incomoda mesmo é que as gaiolas são gratuitas, parecem artificiais, um recurso forçado – um clichê, enfim.

E embora muito filme seja gasto com o serviço das empregadas, em nenhuma cena – nenhuma! – aparece alguém alimentando os passarinhos.

 

Países são ricos ou pobres, de acordo com suas próprias decisões

17/02/2019

Países, estados, municípios ou regiões são ricos ou pobres, dependendo das decisões de sua população. Ao optarem por assentar sua economia no agronegócio e na produção estatal de petróleo, os brasileiros se tornaram a 9ª economia do planeta. Quando a população da Amazônia prefere a criação de boi ao uso econômico da biodiversidade florestal (o que seria sua vocação natural), está decidindo conviver com taxas anuais e permanentes de desmatamento. Não existe uma conspiração para manter nações, regiões ou estados – como o Acre, por exemplo – na linha da pobreza. O que existe são decisões assumidas, de forma explícita ou não, pela sociedade, que, em função dessas decisões, vai viver sob determinado IDH. Simples assim.

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Extrativistas florestais da Amazônia e o espaço político perdido

10/02/2019

Durante o final da década de 1980 e toda a década de 1990, os extrativistas florestais da Amazônia gozaram de grande reconhecimento, em face de seu papel crucial para a conservação da floresta. Representados pelo sindicalista Chico Mendes, alcançaram expressivo espaço político na região. Nos anos 2000, todavia, depois de ser incorporado ao conceito genérico de agricultura familiar, o extrativismo viu sua importância se diluir. Um erro que os amazônidas vão custar a superar. É preciso resgatar a importância do produtor florestal, na condição de ator social decisivo para a conquista da sustentabilidade na Amazônia. A hora é essa.

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Lama que não é tóxica e imprensa que intoxica

03/02/2019

Em 2015, os jornalistas se divertiram acompanhando a lama que se movimentava rumo ao litoral capixaba, e noticiando o rastro de destruição causado por seu “alto grau de toxidade”. E ainda que a lama fosse apenas lama, sem resíduos minerais tóxicos, nenhum órgão público de controle ambiental se deu ao trabalho de contestar a imprensa – que, com esse tipo de atitude, apenas desinforma, não contribuindo para discutir e solucionar o problema. Agora, em Brumadinho, a demonização da Vale e a histeria são a regra. Enquanto os gestores públicos não enfrentarem os jornalistas com altivez e determinação, a informação precária e, por óbvio, o problema persistirão.

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Enfim, Serviço Florestal sai do Ministério do Meio Ambiente

27/01/2019

Entre o repertório de distrações, trapalhadas e recuos que marcaram o início do novo governo federal, a transferência do Serviço Florestal Brasileiro (órgão originalmente vinculado ao Ministério do Meio Ambiente) para o Ministério da Agricultura se destaca como medida oportuna e acertada, tendo sido recebida com festa pelo setor produtivo. De agora em diante, a exploração de madeira e de outros produtos florestais certamente receberá o enfoque adequado, na condição de importante atividade produtiva que deve ser fomentada – diferente da visão preservacionista predominante na pasta do Meio Ambiente, impregnada de preconceito contra o aproveitamento econômico dos recursos florestais.

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Participação popular não garantiu o zoneamento na Amazônia

20/01/2019

Muito embora uma vultosa soma de recursos públicos tenha sido investida na realização de Zoneamento Ecológico-Econômico na Amazônia, o retorno obtido foi pífio. Pensado para planejar a ocupação do meio rural, o zoneamento tinha como pressuposto zerar a taxa de desmatamento legalizado. Isso está longe de acontecer, todavia. A discrepância entre as deliberações técnicas e as decisões políticas foi uma das causas desse fracasso, e a participação popular não ajudou a resolver o problema.

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Caso do Ibama comprova que juntar órgãos públicos nem sempre funciona

06/01/2019

Desconcentração e descentralização são conceitos que poucos dominam, contudo, são cruciais para a gestão estatal das políticas públicas. Nem sempre a existência de 30 ou 20 ministérios representa aumento ou redução de custos. Nada é tão simples para ser solucionado sob um raciocínio tão singelo. O que importa é a relação custo/benefício do retorno dado à sociedade pelo imposto pago. Isso, sim, é simples de entender, mas exige uma equipe técnica de excelência para executar. Governos de sucesso são os que conseguem. Os outros saem pelos fundos.

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