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Lama que não é tóxica e imprensa que intoxica

Ecio Rodrigues, 03/02/2019

Antes de falar da lama em si, que não é tóxica, cabe ressaltar que o incidente ocorrido na cidade de Mariana, em 2015, a despeito do significativo impacto causado ao meio ambiente, não chegou a ser uma tragédia ambiental – quanto mais “a maior do país”. O detentor desse lamentável título, tanto em termos de dimensão quanto de prejuízos econômicos e ecológicos, é o desmatamento que há 40 anos destrói a floresta na Amazônia.

Para essa tragédia, todavia, os meios de comunicação não dão a mínima – e apesar de ser quantificada com precisão científica desde 1988 pelo reconhecido Inpe, a taxa anual de desmatamento continua a persistir em níveis inadmissíveis.

Voltando à lama que não é tóxica (importante repetir), surpreende o modo inusitado com que a mídia se portou em relação a essa informação – que é fundamental para entender a dimensão das tragédias de Mariana e Brumadinho.

Ainda mais surpreendente foi a forma como os órgãos estatais de monitoramento e controle, instituições mantidas com custos elevados para a sociedade, reagiram, tanto em 2015 como agora, à histeria da imprensa.

Acreditando na máxima de que opinião publicada é o mesmo que opinião pública, negou-se às empresas o benefício da dúvida. Na verdade, parece não haver nenhuma dúvida quanto à intenção criminosa dos dirigentes da Samarco e da Vale.

Assim, uma tragédia humanitária – e não ecológica – se transforma em espetáculo sensacionalista, com direito a perseguição ao vivo, apreensão de computadores, divulgação de dados empresariais privados, e mais uma série de atos que evidenciam despreparo institucional para tratar do desastre – e investigar suas causas, obviamente – sob a seriedade e circunspecção necessárias.

Por outro lado, ativistas ambientais, daqueles que pensam que mais vale se jogar na frente do trator do que acreditar na Engenharia e na informação técnica, são alçados à condição de especialistas pelos jornalistas, no propósito de assegurar uma suposta toxidade à lama.

Optar pelo depoimento do abnegado ativista ambiental, muito bem intencionado e pouco informado, sem a devida referência técnica, como prefere a imprensa, além de não contribuir para encontrar uma solução, expõe o país de maneira vexaminosa à opinião pública internacional.

Talvez exista um ódio velado às empresas, ao capital, aos executivos que recebem salários elevados, e assim por diante. Talvez esse ódio seja acalentado pela mídia e ajude a impregnar a percepção da sociedade – fazendo com que, no final das contas, os problemas se perpetuem.

Poucos se lembram, mas a Vale era uma empresa estatal gigantesca, que (ainda bem!) foi privatizada em 1997. Imagine o escândalo se a tragédia fosse recheada por denúncias de corrupção, casos de nepotismo, fisiologismo e outras pragas que costumam vir no encalço das estatais.

Por sinal, a empresa, logo após o incidente, demonstrou presteza para minimizar o sofrimento das famílias atingidas e para resolver o problema das barragens de maneira definitiva. Mas isso, pelo jeito, não agrada a ninguém.

Sim, Vale e Samarco devem ser responsabilizadas, as famílias devem ser indenizadas, as barragens devem ser monitoradas, contudo, no fundo, o que transparece é uma “sede de sangue”, um ânimo hostil, um anseio pelo fim das empresas. Mas isso interessa a alguém?

 

Países são ricos ou pobres, de acordo com suas próprias decisões

17/02/2019

Países, estados, municípios ou regiões são ricos ou pobres, dependendo das decisões de sua população. Ao optarem por assentar sua economia no agronegócio e na produção estatal de petróleo, os brasileiros se tornaram a 9ª economia do planeta. Quando a população da Amazônia prefere a criação de boi ao uso econômico da biodiversidade florestal (o que seria sua vocação natural), está decidindo conviver com taxas anuais e permanentes de desmatamento. Não existe uma conspiração para manter nações, regiões ou estados – como o Acre, por exemplo – na linha da pobreza. O que existe são decisões assumidas, de forma explícita ou não, pela sociedade, que, em função dessas decisões, vai viver sob determinado IDH. Simples assim.

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Extrativistas florestais da Amazônia e o espaço político perdido

10/02/2019

Durante o final da década de 1980 e toda a década de 1990, os extrativistas florestais da Amazônia gozaram de grande reconhecimento, em face de seu papel crucial para a conservação da floresta. Representados pelo sindicalista Chico Mendes, alcançaram expressivo espaço político na região. Nos anos 2000, todavia, depois de ser incorporado ao conceito genérico de agricultura familiar, o extrativismo viu sua importância se diluir. Um erro que os amazônidas vão custar a superar. É preciso resgatar a importância do produtor florestal, na condição de ator social decisivo para a conquista da sustentabilidade na Amazônia. A hora é essa.

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Enfim, Serviço Florestal sai do Ministério do Meio Ambiente

27/01/2019

Entre o repertório de distrações, trapalhadas e recuos que marcaram o início do novo governo federal, a transferência do Serviço Florestal Brasileiro (órgão originalmente vinculado ao Ministério do Meio Ambiente) para o Ministério da Agricultura se destaca como medida oportuna e acertada, tendo sido recebida com festa pelo setor produtivo. De agora em diante, a exploração de madeira e de outros produtos florestais certamente receberá o enfoque adequado, na condição de importante atividade produtiva que deve ser fomentada – diferente da visão preservacionista predominante na pasta do Meio Ambiente, impregnada de preconceito contra o aproveitamento econômico dos recursos florestais.

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Participação popular não garantiu o zoneamento na Amazônia

20/01/2019

Muito embora uma vultosa soma de recursos públicos tenha sido investida na realização de Zoneamento Ecológico-Econômico na Amazônia, o retorno obtido foi pífio. Pensado para planejar a ocupação do meio rural, o zoneamento tinha como pressuposto zerar a taxa de desmatamento legalizado. Isso está longe de acontecer, todavia. A discrepância entre as deliberações técnicas e as decisões políticas foi uma das causas desse fracasso, e a participação popular não ajudou a resolver o problema.

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Mostrando passarinho em gaiola, diretor de “Roma” vence Globo de Ouro

13/01/2019

Enquanto o filme “Bird Box” mostra passarinhos como indicadores biológicos de um ecossistema desequilibrado, a ponto de levar as pessoas ao suicídio, o longa mexicano “Roma” abusa das cenas com passarinhos em gaiolas. Se o primeiro, politicamente correto, mostra os pássaros contribuindo para salvar a humanidade, o segundo, politicamente incorreto, usa as gaiolas como um clichê, na tentativa de forçar a identificação do espectador com a história.

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Caso do Ibama comprova que juntar órgãos públicos nem sempre funciona

06/01/2019

Desconcentração e descentralização são conceitos que poucos dominam, contudo, são cruciais para a gestão estatal das políticas públicas. Nem sempre a existência de 30 ou 20 ministérios representa aumento ou redução de custos. Nada é tão simples para ser solucionado sob um raciocínio tão singelo. O que importa é a relação custo/benefício do retorno dado à sociedade pelo imposto pago. Isso, sim, é simples de entender, mas exige uma equipe técnica de excelência para executar. Governos de sucesso são os que conseguem. Os outros saem pelos fundos.

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