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O Oscar nos tempos do politicamente correto

Ecio Rodrigues & Aurisa Paiva, 03/03/2019

Pelo jeito, o tom politicamente correto dominou as premiações na cerimônia do Oscar em 2019, realizada domingo último, 24 de fevereiro, na capital mundial do cinema, a festejada Los Angeles.

Ao conferir a “Infiltrado na Klan” o Oscar de roteiro adaptado, pareceu evidente a vontade da academia de compensar Spike Lee, diretor e roteirista, que, como se vê da película, quis fazer uma brincadeira com os filmes ingênuos da década de 1970 protagonizados e realizados por atores e diretores negros.

Spike Lee não precisa de apresentação, é um ícone do cinema americano. Mas “Infiltrado na Klan”, embora muito elogiado, tem roteiro sofrível, a ponto de ser mesmo difícil de assistir; não chega perto de outros concorrentes, como “A balada de Buster Scruggs”, dos irmãos Joel e Ethan Coen.

Adaptação cinematográfica do livro de contos homônimo, “A balada…” é uma pequena obra-prima, compondo, em seis histórias autônomas, um retrato profundo e pungente do Velho Oeste americano, e cujo roteiro, bem ao estilo Coen, combina situações tocantes, humor negro e diálogos primorosos.

O prêmio de melhor atriz coadjuvante ficou com Regina King, por sua participação em “Se a rua Beale falasse”. Ainda que se trate de uma atriz reconhecida, e ainda que seu trabalho tenha sido marcante, chama a atenção o fato de Rachel Weisz, indicada por seu desempenho em “A favorita”, ter sido preterida.

Encarnando uma duquesa inglesa do século XVIII que é amante da rainha, ao tempo em que faz as vezes de chefe de governo e trava uma disputa pessoal com uma carreirista disposta a tudo, inclusive a dormir com a monarca, a atriz representou o papel de sua vida. Entregou uma atuação magistral, algo de extrema originalidade, raras vezes presenciado no cinema.

Por fim, o vistoso “Pantera Negra” chegou aonde nenhum filme da Marvel jamais sonhou. Além de ter recebido uma indicação totalmente descabida para melhor filme (perdão, mas até como filme de ação o longa é ruim), “Pantera Negra” levou 3 estatuetas, inclusive por figurino e direção de arte.

Tudo bem, o filme é esteticamente bonito, vibrante, abusa das referências africanas e dos tons contrastantes de vermelho. Contudo, tratando-se da adaptação de uma história em quadrinhos – que por sua vez aborda uma civilização fictícia e futurista –, reproduz um universo já graficamente retratado, não exibindo nada de extraordinário que justificasse ganhar o Oscar naquelas duas categorias.

Ademais, deve haver, decerto, uma distinção entre figurino e fantasia.

O figurino de um filme identifica o período histórico e o ambiente nos quais a trama se desenvolve. Serve como referência para contextualizar a realidade social e econômica descortinada pela obra cinematográfica. O figurinista deve ser original, porém preciso, ao refletir uma época e um lugar por meio da indumentária.

A fantasia, por outro lado, e como bem o sabem os carnavalescos, só presta contas à imaginação: é um traje alegórico, um paramento que, no caso dos personagens de “Pantera Negra”, os caracteriza mitologicamente como deslumbrantes habitantes de Wakanda, o país afrofuturista do universo Marvel.

Sim, alguns filmes não receberam o crédito que mereciam, mas nada se compara à indiferença dispensada ao excepcional “A Favorita”. A produção de Yorgos Lantinos foi, sem dúvida, a maior injustiçada.

Assumindo muitos riscos e contando com todos os ingredientes para vencer o prêmio de melhor filme, “A Favorita” é original, vanguardista, sarcástico, surpreendente e bizarramente belo – além de ter sido quase todo rodado em luz natural, de velas e de lareiras.

Ainda por cima, traz o ponto de vista feminino, apresentando um reino dominado por mulheres poderosas (ou “empoderadas”, para usar um termo em voga, apesar de muito feio), onde os homens exercem função secundária e são estúpidos de doer.

Ao que parece, todavia, as mulheres ainda não integram as minorias favorecidas nesses tempos politicamente corretos do Oscar.

 

STF decide: Procurador do Município exerce função essencial à Justiça

17/03/2019

Em decisão histórica, o STF consagrou a tese de que a função de procurador municipal, quando instituída por lei e organizada em carreira, é essencial à Justiça. Significa dizer que os procuradores – a despeito do governo que temporariamente ocupe o poder em âmbito municipal – possuem independência funcional, posto que sua atuação é indispensável à realização da Justiça e, por conseguinte, ao funcionamento do sistema institucional que dá suporte à subsistência do Estado Democrático de Direito. Trata-se de um passo significativo para a consolidação da autonomia municipal estabelecida pela Constituição de 1988 e, em última análise, para o fortalecimento da democracia brasileira.

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O Carnaval nos tempos do politicamente correto

10/03/2019

Nos tempos do politicamente correto, nota-se um recorrente patrulhamento, no sentido de que só está certo quem brande bandeiras em favor dos oprimidos e protesta contra a corrupção. Sob tal premissa, os que se recusam a reiterar o discurso apelativo na defesa ou condenação do óbvio são racistas ou corruptos. No fundo, há uma perigosa dose de populismo nessa pregação da moralidade e da defesa de alguma causa que para os outros é questão de bom senso. Ora, ninguém é contra combater a corrupção e decerto as minorias devem ser protegidas, mas os excessos, além de comumente importar em cerceamento da liberdade de expressão, levam a uma lógica maniqueísta, a um comportamento inquisitorial – e, por conseguinte, à prática de injustiças. O carnaval deveria passar longe disso, mas a retórica do politicamente correto impregnou a avenida.

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Zoneamento não baniu desmatamento e queimadas no Acre

24/02/2019

O mais importante retorno para o dinheiro investido pela sociedade na caríssima realização do ZEE no Acre teria sido, num primeiro momento, a redução drástica das taxas de desmatamento, e num segundo, o fim do desmatamento legalizado. Todavia, a expectativa não foi atendida, e o desmatamento se mantém em patamares inaceitáveis. O pior, gestores públicos discutem a revisão da Lei do Zoneamento, para permitir desmatar mais. Resta saber até onde vai a condescendência dos acreanos e do mundo com a destruição florestal no Acre.

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Países são ricos ou pobres, de acordo com suas próprias decisões

17/02/2019

Países, estados, municípios ou regiões são ricos ou pobres, dependendo das decisões de sua população. Ao optarem por assentar sua economia no agronegócio e na produção estatal de petróleo, os brasileiros se tornaram a 9ª economia do planeta. Quando a população da Amazônia prefere a criação de boi ao uso econômico da biodiversidade florestal (o que seria sua vocação natural), está decidindo conviver com taxas anuais e permanentes de desmatamento. Não existe uma conspiração para manter nações, regiões ou estados – como o Acre, por exemplo – na linha da pobreza. O que existe são decisões assumidas, de forma explícita ou não, pela sociedade, que, em função dessas decisões, vai viver sob determinado IDH. Simples assim.

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Extrativistas florestais da Amazônia e o espaço político perdido

10/02/2019

Durante o final da década de 1980 e toda a década de 1990, os extrativistas florestais da Amazônia gozaram de grande reconhecimento, em face de seu papel crucial para a conservação da floresta. Representados pelo sindicalista Chico Mendes, alcançaram expressivo espaço político na região. Nos anos 2000, todavia, depois de ser incorporado ao conceito genérico de agricultura familiar, o extrativismo viu sua importância se diluir. Um erro que os amazônidas vão custar a superar. É preciso resgatar a importância do produtor florestal, na condição de ator social decisivo para a conquista da sustentabilidade na Amazônia. A hora é essa.

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Lama que não é tóxica e imprensa que intoxica

03/02/2019

Em 2015, os jornalistas se divertiram acompanhando a lama que se movimentava rumo ao litoral capixaba, e noticiando o rastro de destruição causado por seu “alto grau de toxidade”. E ainda que a lama fosse apenas lama, sem resíduos minerais tóxicos, nenhum órgão público de controle ambiental se deu ao trabalho de contestar a imprensa – que, com esse tipo de atitude, apenas desinforma, não contribuindo para discutir e solucionar o problema. Agora, em Brumadinho, a demonização da Vale e a histeria são a regra. Enquanto os gestores públicos não enfrentarem os jornalistas com altivez e determinação, a informação precária e, por óbvio, o problema persistirão.

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Enfim, Serviço Florestal sai do Ministério do Meio Ambiente

27/01/2019

Entre o repertório de distrações, trapalhadas e recuos que marcaram o início do novo governo federal, a transferência do Serviço Florestal Brasileiro (órgão originalmente vinculado ao Ministério do Meio Ambiente) para o Ministério da Agricultura se destaca como medida oportuna e acertada, tendo sido recebida com festa pelo setor produtivo. De agora em diante, a exploração de madeira e de outros produtos florestais certamente receberá o enfoque adequado, na condição de importante atividade produtiva que deve ser fomentada – diferente da visão preservacionista predominante na pasta do Meio Ambiente, impregnada de preconceito contra o aproveitamento econômico dos recursos florestais.

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Participação popular não garantiu o zoneamento na Amazônia

20/01/2019

Muito embora uma vultosa soma de recursos públicos tenha sido investida na realização de Zoneamento Ecológico-Econômico na Amazônia, o retorno obtido foi pífio. Pensado para planejar a ocupação do meio rural, o zoneamento tinha como pressuposto zerar a taxa de desmatamento legalizado. Isso está longe de acontecer, todavia. A discrepância entre as deliberações técnicas e as decisões políticas foi uma das causas desse fracasso, e a participação popular não ajudou a resolver o problema.

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Mostrando passarinho em gaiola, diretor de “Roma” vence Globo de Ouro

13/01/2019

Enquanto o filme “Bird Box” mostra passarinhos como indicadores biológicos de um ecossistema desequilibrado, a ponto de levar as pessoas ao suicídio, o longa mexicano “Roma” abusa das cenas com passarinhos em gaiolas. Se o primeiro, politicamente correto, mostra os pássaros contribuindo para salvar a humanidade, o segundo, politicamente incorreto, usa as gaiolas como um clichê, na tentativa de forçar a identificação do espectador com a história.

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Caso do Ibama comprova que juntar órgãos públicos nem sempre funciona

06/01/2019

Desconcentração e descentralização são conceitos que poucos dominam, contudo, são cruciais para a gestão estatal das políticas públicas. Nem sempre a existência de 30 ou 20 ministérios representa aumento ou redução de custos. Nada é tão simples para ser solucionado sob um raciocínio tão singelo. O que importa é a relação custo/benefício do retorno dado à sociedade pelo imposto pago. Isso, sim, é simples de entender, mas exige uma equipe técnica de excelência para executar. Governos de sucesso são os que conseguem. Os outros saem pelos fundos.

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