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Fim do Florestania no Acre: Projeto de Governo sem objetivo claro
Atualizado pelo autor a partir do resultado da eleição municipal de 2024.
Considerado um dos principais vértices da teoria do Triangulo de Governo elaborada, ainda na década de 1970, pelo economista chileno Carlos Matus, o Projeto de Governo funciona como aglutinador de atores sociais e agentes econômicos em torno de um alicerce e de uma estratégia para organizar uma identidade produtiva estadual de longo prazo.
Isto é, na condição de primeiro vértice do triangulo o Projeto de Governo expressa um modelo de ocupação e de crescimento para a economia estadual que os governantes atuais e os que vierem depois devem consolidar para evitar descontinuidade e garantir o desenvolvimento gradual, mas permanente da região.
Uma condição essencial ao Projeto de Governo é que seja explícito o suficiente para responder perguntas consideradas chave, o que o Projeto Florestania, definitivamente, escorregou de fazer.
Por outro lado, repetindo à exaustão o slogan “Produzir para empregar” um político experiente com passagem e derrotas em várias eleições conquistou a prefeitura de Rio Branco exaltando um Projeto de Governo que tinha na pecuária extensiva sua maior expressão.
Sendo a primeira eleição municipal após a derrocada em 2018 do grupo político que concebeu o Projeto de Governo Florestania, o retorno da pecuária extensiva enquanto identidade produtiva estadual foi uma decisão eleitoral, de certa maneira, bastante óbvia.
A despeito de conter diversas contradições e após ter sido testada e reprovada desde a década de 1970 do século passado, a criação de boi solto no pasto sempre contou com forte aparato estatal de financiamento embora apresente retorno econômico com grandeza questionável para garantir, após 2030, ou nos próximos 20 anos, o desenvolvimento estadual.
Nunca é demais lembrar que o marco temporal representado pelo ano de 2030 possui significado importante para o Acre em particular e para a Amazônia em geral por delimitar o prazo final estabelecido no Acordo de Paris, assinado em 2015, a partir do qual a meta do desmatamento zero deveria ser alcançada.
Com bem menos ênfase na agenda política do produzir para empregar, mas repetindo a defesa do agronegócio da pecuária extensiva como rumo para a economia estadual, a reeleição do atual mandatário da capital do Acre em 2024 não deixou de surpreender por muitas razões.
Duas hipóteses podem ajudar a entender a contundente vitória e merecem destaque.
A primeira que, com 93,5% da população vivendo em área urbana (segundo censo do IBGE de 2022) e se consolidando com a maior taxa de urbanização do Acre, bem acima da média estadual de 74,4%, Rio Branco possui gargalos insuperáveis, por exemplo, na oferta de água potável e tratamento de esgoto.
Contudo, enquanto o saneamento precário não aflige a população em seu cotidiano o caos se estabelece no enfrentamento diário de um transito com vias congestionadas e que demanda intervenção mínima para tapar buraco.
Nesse cenário a atenção do eleitor, tal qual o que acontece em toda cidade de médio porte, se voltou para a construção de um elevado de sentido único, uma obra simplória e aquém da demanda, que a despeito de não ser planejada ajudou a colocar o candidato de volta ao processo eleitoral.
Não custa relembrar que tudo aconteceu quase que por acaso e a gestão municipal tinha avaliação baixa e o candidato, em dezembro de 2023, havia sido excluído do partido político que o elegera e parecia sem chance nas pesquisas eleitorais.
Já a segunda hipótese é um pouco mais complexa por sugerir a permanência de uma rejeição entranhada, como se diz por aqui, ao grupo político que deixou o poder estadual e na capital depois de 2018.
Parece existir uma indisposição forte do eleitor acreano para com as lideranças políticas que ocuparam cargos no período entre 1999-2018. Rejeição que, de maneira inevitável, deságua no Projeto Florestania e nos partidos políticos que se proclamam de esquerda.
Apesar de negada pelos partidos políticos a eleição de 2024 evidenciou com clareza o sucesso da estratégia vitoriosa da reeleição que centrou foco em não deixar o eleitor esquecer que o opositor e segundo colocado, até então com a vitória confirmada por todos os institutos de pesquisa eleitoral, era o mesmo que estava vinculado ao grupo deposto em 2018.
Pouco se discutiu acerca do embate entre Florestania versus Pecuária Extensiva, entretanto tudo indica que o Projeto Florestania, embora possua tanta importância para o futuro do Acre quanto o agronegócio da criação extensiva de boi, recebeu porção considerável da rejeição eleitoral às lideranças ditas de esquerda.
Não por culpa e responsabilidade do eleitor que, em mais de 99% das vezes, acerta em sua decisão. Mas sim, em decorrência de um alto nível de incoerência de movimenta os políticos de todos os partidos sempre cegos quando em busca de votos.
Como explicar, por exemplo, o boom produtivo da pecuária no Acre ter ocorrido em 2007, ou a partir daí, durante e em plena execução da proposta do Projeto Florestania?
Certo grau de hipocrisia presente nas lideranças políticas ligadas ao Projeto Florestania, dispostas a tudo para vencer eleições, inclusive conquistar o impossível apoio dos pecuaristas, ajuda a entender, mas não satisfaz de todo a curiosidade.
Por sinal, falta no cenário político estadual atualmente proposta de identidade produtiva que se contraponha ao agronegócio da pecuária extensiva em que pese a comprovada dificuldade dessa atividade produtiva em gerar e manter riqueza de maneira permanente no Acre.
No frigir dos ovos, os vencedores não precisaram se ater no debate sobre identidade produtiva e não se esforçaram para defender a pecuária extensiva tal como nas eleições anteriores, diante da total ausência de candidatos corajosos a ponto de recuperar a discussão sobre o Projeto de Governo Florestania.
Acontece que quando foi concebido por organizações da sociedade civil, desde o final da década de 1980, o Projeto Florestania traduziu uma ideia de futuro almejado para a sociedade acreana, no qual seria possível obter crescimento econômico com elevação do IDH, sem que com isso se comprometesse a sustentabilidade ecológica no Acre.
Todavia, convenhamos, essa ideia força também é vendida, com bem mais clareza, pelo insustentável agronegócio da pecuária extensiva.
Nem precisa muita familiaridade com essa terminologia para perceber que nesse nível de generalização não há qualquer novidade. Claro que o Florestania deveria ir além dessa vulgarização e ser mais específico, porém como diz o adágio popular “é no detalhe que mora o diabo”.
Quando demonstrou inegável força eleitoral, na eleição de 1998, e durante os primeiros quatros anos de uma hegemonia política que duraria vinte, era possível pressentir fraturas no Projeto Florestania que, com todo risco que a sintetização acarreta, podem ser reunidas em três perguntas:
1 – Qual o limite de desmatamento seria permitido aos pecuaristas, para imprescindível ampliação anual da criação extensiva de gado, até que a consequente destruição da floresta sacrificasse a sustentabilidade ecológica de todo Acre?
2 – Qual a participação ideal no PIB da industrialização de toras de madeira exploradas com tecnologia de manejo florestal na composição do PIB estadual, gerando emprego e renda de maneira permanente todos os anos e mantendo a floresta em pé? e, o mais importante,
3 – De que maneira o potencial econômico da biodiversidade florestal poderia ser inserido na bioeconomia e comercializado com o auspicioso propósito de se tornar, no olhar de quem enxerga de fora, a marca da identidade produtiva do Acre e, no olhar de quem vê de dentro, um dos principais componentes da riqueza dos acreanos?
Porém e infelizmente, responder a essas três perguntas, como se percebeu logo no primeiro mandato, nunca foi e não é prioridade para os líderes políticos identificados com o Projeto Florestania.
Pelo contrário, ao enxergar que a sustentabilidade ecológica preconizada pelo Projeto Florestania dependia da imposição de rigorosos limites à ampliação do desmatamento e ao consequente crescimento do plantel de gado existente na pequena e grande propriedade, ninguém topou o risco de perder o suposto poder político dos pecuaristas.
Não à toa, em várias propriedades dos oito municípios localizados no vale do Rio Acre, região onde se encontra maior potencial para o agronegócio do gado no Acre, o limite legal para desmatamento havia sido ultrapassado bem antes, ainda em meados da década de 1990.
Explicando melhor, o Projeto Florestania se mostrou viável do ponto de vista eleitoral em 1999, graças à decadência econômica ocasionada pela pecuária extensiva e à exposição na imprensa da tragédia representada pelas recorrentes taxas anuais de desmatamento.
Capitaneado por uma nova geração de lideranças, uns poucos com carisma reconhecido pelo eleitor, o Projeto Florestania impregnou o imaginário dos acreanos com uma equação fácil de entender.
De um lado as caras novas na política e de outro a expectativa de progresso com um crescimento econômico duradouro, valorizando a tradição dos seringais e com desmatamento zero, foi o oásis prometido pelo Projeto Florestania.
Contudo, acendendo uma vela para um e para o outro, tentando agradar aqueles que defendiam o manejo da fauna silvestre, da copaíba, das sementes e de outros produtos da biodiversidade florestal, sem, contudo, desagradar os que preferiam o necessário desmatamento da pecuária extensiva, os líderes do Projeto Florestania se perderam em suas próprias contradições.
Mas isso, já é outro artigo.
Fim do Florestania no Acre: Equipe técnica sem Capacidade de Governo
Todo profissional envolvido com setor produtivo entende as dificuldades para selecionar, treinar e fazer funcionar uma equipe de profissionais com especializações diversas em uma indústria, num supermercado, numa escola e até mesmo numa padaria.
Agora imaginem conseguir reunir vários peritos, alguns estreantes no serviço público com o propósito de, no curto prazo, consolidar uma Capacidade de Governo para atender cobranças imediatas por educação e saúde, enquanto colocava em pratica um rol de demandas novas, inventadas para viabilizar o Projeto Florestania.
[leia mais...]Fim do Florestania no Acre: Projeto de Governo não convenceu
Logo nos primeiros quatro de uma hegemonia que durou 20 anos, poucos insatisfeitos com a generalização do Florestania foram convencidos de que o detalhamento da estratégia de desenvolvimento viria com o Zoneamento Econômico e Ecológico, ZEE.
O que também, como se verá, não aconteceu.
Muito pelo contrário. De fato, com a aprovação da Lei 1.904 em 2007, que instituiu o ZEE no Acre, o agronegócio da pecuária extensiva recebeu significativa e bem localizada área de terras cobertas com florestas, em especial ao longo das rodovias BR 364 e 317, para sua ampliação por meio do desmatamento, agora legalizado pelo ZEE.
[leia mais...]Fim do Florestania no Acre: Projeto priorizou acreanismo e não PIB
Considerado ousado e inovador o Projeto de Governo Florestania, concebido por organizações da sociedade civil na segunda metade da década de 1980 e, em tese, iniciado de forma efetiva no Acre em 1999, deveria ter estabelecido as bases para um desenvolvimento econômico duradouro, sustentado na biodiversidade florestal e que mostrasse os caminhos para o futuro, mas não foi o que aconteceu.
[leia mais...]Fim do Florestania no Acre: Razões para o fracasso
Desde o sucesso eleitoral em 1999, que o Projeto Florestania, um neologismo criado para sintetizar um conceito abstrato de cidadania associado ao crescimento econômico ancorado na biodiversidade florestal, venceu todas sucessivas eleições até chegar ao fracasso nos pleitos de 2018, 2020, 2022 e agora em 2024 de forma, no mínimo, constrangedora.
Encontrar as razões para o sucesso eleitoral por vinte anos e os seguidos fracassos pelos últimos oito do Projeto Florestania, não é tarefa fácil.
Mas uma coisa é certa. Os resultados eleitorais mostram que existe forte rejeição aos líderes políticos, mesmo quando tentam se afastar dos ideais do Projeto Florestania, com o agravante de que a defesa, por todos os candidatos a cargos majoritários, do Projeto Agronegócio da pecuária extensiva desnudou a ausência de rumo para o desenvolvimento do Acre dos grupos políticos de direita, de centro e de esquerda.
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