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Fim do Florestania no Acre: Projeto de Governo não convenceu

Ecio Rodrigues & Aurisa Paiva, 25/01/2026

Atualizado pelo autor a partir do resultado da eleição municipal de 2024.

Dos três vértices definidos pela teoria do Triangulo de Governo concebida pelo economista chileno Carlos Matus na década de 1970, o Projeto de Governo estabelece o rumo para engajar a sociedade e as forças políticas em uma estratégia de desenvolvimento em uma região específica.

Entretanto antes de e para ser alçada à condição de Projeto de Governo a estratégia precisa ser identificada, detalhada e traduzida de modo a se fazer compreensiva a todas as pessoas envolvidas.

Com recursos minerais limitados, ou quase inexistentes, e pouca ou nenhuma disponibilidade para aproveitamento de energia hidrológica e eólica, a história econômica do Acre mostra duas estratégias de desenvolvimento que se alternam, com poucos preocupantes avanços, ao longo do tempo.

Se, de início, o ciclo econômico da borracha e outros produtos oriundos da floresta, que durou até 1911, apresentaram estatísticas que reforçam uma estratégia de desenvolvimento ancorada na biodiversidade florestal, logo depois e atualmente, a riqueza trazida pela criação de gado consolida uma estratégia de desenvolvimento ancorada na pecuária extensiva.

Com alguns lapsos de importância, como durante e logo após a segunda guerra mundial, a produção da borracha nativa amazônica com destaque para o Acre, vez ou outra elevou sua participação na geração da riqueza estadual.

Entretanto, a produtividade muito superior dos monocultivos de seringueira em relação ao seringal nativo, fez com que São Paulo se tornasse o maior produtor nacional e desde 1993 a extração de látex nas florestas do Acre caminhou, sem nenhuma recuperação, para a extinção comercial.

Enquanto isso a pecuária extensiva ocupava áreas com as florestas dos antigos seringais até que o desmatamento explosivo chamasse atenção de todos, ganhando a manchetes do Jornal Nacional durante a década de 1970 e até meados da seguinte.

Embora a extração de madeira contaminasse o fraco raciocínio jornalístico o desmatamento sempre esteve associado, sem exceção e em qualquer momento histórico, à criação extensiva de gado.

Pressentindo a falência de uma estratégia ou modelo de desenvolvimento fadada ao fracasso por trazer benefícios reduzidos ante o elevado custo social e ambiental do desmatamento, diversas organizações da sociedade civil no Acre conceberam, do final da década de 1980 ao final da década de 1990, o que chamaram de saída pela floresta.

Com a denominação de Projeto Florestania a saída pela floresta ganhou as simpatias de um conjunto de lideranças políticas e foi alçado à condição de Projeto de Governo em sucessivas e esmagadoras vitórias eleitorais no período que vai de 1999 a 2018.

Com a justificativa simplificada de se contrapor ao desmatamento ao tempo em que se omitia no confronto à pecuária extensiva, presente não só na grande, mas também majoritariamente realizada na pequena produção rural, o agora Projeto Florestania de governo encantou a sociedade acreana.

Encantou mas, de fato, não convenceu!

Os constrangedores fracassos eleitorais dos políticos associados ao Projeto Florestania nos pleitos de 2018, 2020, 2022 e 2024, confirmam um fracasso com difícil explicação segundo as teorias no campo da ciência política.

Injusto, no mínimo, impingir ao Projeto Florestania os altos níveis de rejeição eleitoral carimbada nos políticos que se beneficiaram dos ideais preconizados pela saída pela floresta e o desmatamento zero até 2018.

Seria sensato, inclusive, afirmar que em um hipotético plebiscito a sociedade no Acre afirmasse SIM à saída pela floresta e NÃO ao desmatamento exigido para criar o boi solto no pasto.

Desistindo de achar uma explicação objetiva, restaria apelar ao sentimento de traição presente no inconsciente coletivo dos acreanos em relação aos políticos que prometeram uma saída pela floresta, com o Projeto Florestania, e entregaram o mesmo desmatamento, sempre exigido pela pecuária extensiva.

Como afirmam alguns, se à mentira se mostra a verdade, à injustiça se supera com direitos humanos, à pobreza se contrapõe com crescimento econômico, à traição resta responder com rejeição.

Embora seja muito necessária, a exclusão do Projeto Florestania do sentimento de rejeição que assola os políticos, que se denominam de esquerda, derrotados de forma constrangedora nos últimos quatro embates eleitorais não é tarefa simples e, uma certeza, pode levar muito tempo, outros vinte anos, talvez.

E o caminho começa por compreender as razões que fizeram com que o Projeto Florestania encantasse a todos, como um romantizado rico futuro harmônico, e não convencesse como estratégia de desenvolvimento econômico e para o desmatamento zero no Acre.

Considerado inovador e ousado o Projeto Florestania conseguiu angariar apoio esmagador de lideranças políticas no Acre e em Brasília, o que possibilitou a captação considerável de recursos orçamentários do governo federal em volumes impossíveis de serem repetidos.

Contando com farta sustentação política local e abundante fonte de financiamento por meio de convênios em Brasília (indo além do Fundo de Participação do Estado, FPE), esperava-se que o Projeto Florestania consolidasse uma nova dinâmica econômica no Acre, elevando o PIB a um patamar superior sem ampliar o desmatamento e, o melhor, de maneira duradoura.

Mas, infelizmente, não foi o que aconteceu e a economia se manteve estagnada nos níveis alcançados pela pecuária extensiva no século passado.

Sem surpresa positiva, o otimismo iniciado em 1999 cedeu ao desagrado e a fatura eleitoral foi cobrada em 2018 e continuou sendo até 2024.

Resumindo, os péssimos indicadores para economia acreana foram usados para explicitar o fracasso do Projeto Florestania, que, por sua vez, contribuiu para ressuscitar o antigo agronegócio da criação de boi solto no pasto, como se fosse alternativa estratégica para o desenvolvimento do Acre.

Um paradoxo acreano com certeza!

Uma série de contradições e alguns equívocos de interpretação fizeram com que a maioria das pessoas deixasse de enxergar o óbvio. Faltou ao Florestania senso de objetividade suficiente para priorizar a exploração da biodiversidade florestal enquanto modelo econômico de desenvolvimento.

Fazendo opção pela generalização, os líderes políticos responsáveis pela concepção da estratégia de desenvolvimento defendida no Florestania, não se deram conta de que a transformação produtiva prescrita na saída pela floresta, em direção a biodiversidade florestal, dependia de determinação política para excluir, por exemplo, o crédito estatal do Basa para a pecuária extensiva.

Enfim, não bastou aprovar a Lei 1.426 em dezembro de 2001, que instituiu a Política Estadual de Florestas para que o Florestania estimulasse uma estrutura de suporte ao desenvolvimento em que a energia elétrica nas cidades com menos de 50 mil habitantes poderia ser gerada em caldeiras movidas à queima de madeira e sobras de biomassa florestal.

Fácil imaginar o salto econômico fornecido pelo Florestania com a criação de emprego e renda através da rentável indústria de oferta de eletricidade a ser mantida com o manejo de área bem reduzida da biodiversidade florestal.

O segmento industrial de energia limpa prevê a substituição do motor movido a óleo diesel pela queima de biomassa em caldeiras, por isso sua participação na matriz de eletricidade encontra-se em franca expansão país afora.

E mais, reduzir a participação do petróleo na geração de energia permite acesso o novíssimo mercado jurisdicional de carbono.   

Porém, o receio de perder votos pesou e os líderes políticos fizeram a sociedade acreditar que o Projeto Florestania incentivaria a saída econômica pela biodiversidade florestal e pelo gado, em que pese a impossibilidade científica para se produzir em um solo com e sem floresta, respectivamente.

Logo nos primeiros quatro de uma hegemonia que durou 20 anos, poucos insatisfeitos com a generalização do Florestania foram convencidos de que o detalhamento da estratégia de desenvolvimento viria com o Zoneamento Econômico e Ecológico, ZEE.

O que também, como se verá, não aconteceu.

Muito pelo contrário. De fato, com a aprovação da Lei 1.904 em 2007, que instituiu o ZEE no Acre, o agronegócio da pecuária extensiva recebeu significativa e bem localizada área de terras cobertas com florestas, em especial ao longo das rodovias BR 364 e 317, para sua ampliação por meio do desmatamento, agora legalizado pelo ZEE.

Foi a partir daí que as contradições do Projeto Florestania evidenciaram o risco do seu fracasso enquanto estratégia de desenvolvimento.

As consequências do pseudomodelo não tardariam a chegar. Seus defensores perderam tempo precioso tentando justificar as elevadas taxas de desmatamento, enquanto os líderes políticos do Florestania, por mais contraditório que possa parecer, recebiam queixas de perseguição aos produtores que desmatavam.

Enfim, deixando de fortalecer a vocação florestal do Acre ao mesmo tempo em que apoiava os pecuaristas às sombras, o Projeto Florestania se escudou no ZEE que deveria conciliar o impossível: criar mais boi sem destruir mais floresta.

Por isso, ao vislumbrar o fracasso em 2018, com a consagração eleitoral do Projeto de Governo do agronegócio que ressuscitou a falida pecuária extensiva, ninguém ousou defender o legado do Projeto Florestania.

Entretanto resta arguir até quando o Projeto Agronegócio sobreviverá ao paradoxo de plantar capim onde havia floresta sem aumentar o desmatamento!

É só esperar.     

Fim do Florestania no Acre: Equipe técnica sem Capacidade de Governo

01/02/2026

Todo profissional envolvido com setor produtivo entende as dificuldades para selecionar, treinar e fazer funcionar uma equipe de profissionais com especializações diversas em uma indústria, num supermercado, numa escola e até mesmo numa padaria.

Agora imaginem conseguir reunir vários peritos, alguns estreantes no serviço público com o propósito de, no curto prazo, consolidar uma Capacidade de Governo para atender cobranças imediatas por educação e saúde, enquanto colocava em pratica um rol de demandas novas, inventadas para viabilizar o Projeto Florestania.

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Fim do Florestania no Acre: Projeto priorizou acreanismo e não PIB

18/01/2026

Considerado ousado e inovador o Projeto de Governo Florestania, concebido por organizações da sociedade civil na segunda metade da década de 1980 e, em tese, iniciado de forma efetiva no Acre em 1999, deveria ter estabelecido as bases para um desenvolvimento econômico duradouro, sustentado na biodiversidade florestal e que mostrasse os caminhos para o futuro, mas não foi o que aconteceu.

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Fim do Florestania no Acre: Projeto de Governo sem objetivo claro

11/01/2026

Sendo a primeira eleição municipal após a derrocada em 2018 do grupo político que concebeu o Projeto de Governo Florestania, o retorno da pecuária extensiva enquanto identidade produtiva estadual foi uma decisão eleitoral, de certa maneira, bastante óbvia.

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Fim do Florestania no Acre: Razões para o fracasso

04/01/2026

Desde o sucesso eleitoral em 1999, que o Projeto Florestania, um neologismo criado para sintetizar um conceito abstrato de cidadania associado ao crescimento econômico ancorado na biodiversidade florestal, venceu todas sucessivas eleições até chegar ao fracasso nos pleitos de 2018, 2020, 2022 e agora em 2024 de forma, no mínimo, constrangedora.

Encontrar as razões para o sucesso eleitoral por vinte anos e os seguidos fracassos pelos últimos oito do Projeto Florestania, não é tarefa fácil.

Mas uma coisa é certa. Os resultados eleitorais mostram que existe forte rejeição aos líderes políticos, mesmo quando tentam se afastar dos ideais do Projeto Florestania, com o agravante de que a defesa, por todos os candidatos a cargos majoritários, do Projeto Agronegócio da pecuária extensiva desnudou a ausência de rumo para o desenvolvimento do Acre dos grupos políticos de direita, de centro e de esquerda.

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