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Fim do Florestania no Acre: Razões para o fracasso

Ecio Rodrigues & Aurisa Paiva, 04/01/2026

Atualizado pelo autor a partir do resultado da eleição municipal de 2024.

Para aqueles que esperavam uma diminuição da rejeição ou até mesmo alguma possível recuperação eleitoral do grupo político que governou o Acre por 20 anos, no período entre 1999 a 2018, nas eleições municipais de 2024 a decepção foi arrasadora.

Ao reeleger o atual prefeito, ainda no primeiro turno com uma margem considerável de quase 55% dos votos, o eleitor de Rio Branco fez com que o segundo colocado, herdeiro político do período em que o sucesso do Projeto de Governo denominado de Florestania não tinha adversário, amargasse sua segunda derrota eleitoral acachapante, como gostam de gritar analistas locais pouco iniciados em ciência política.

Aos que esqueceram alguma parte dessa história, o resumo pode ser mais ou menos assim.

Desde o sucesso eleitoral em 1999, que o Projeto Florestania, um neologismo criado para sintetizar um conceito abstrato de cidadania associado ao crescimento econômico ancorado na biodiversidade florestal, venceu todas sucessivas eleições até chegar ao fracasso nos pleitos de 2018, 2020, 2022 e agora em 2024 de forma, no mínimo, constrangedora.

Encontrar as razões para o sucesso eleitoral por vinte anos e os seguidos fracassos pelos últimos oito do Projeto Florestania, não é tarefa fácil. Por isso existe considerável lacuna na publicação de estudos no campo da ciência política que esteja sustentado por base estatística robusta.

Ou que seja capaz de fornecer elementos confiáveis para ajudar a entender o período mais interessante e instigante da história política recente do Acre, iniciado com o fim do nefasto período de ditadura militar.

Ocorre que embora exista um conjunto de fatores a influenciar vitórias e derrotas eleitorais, que vai do carisma e atuação do candidato, passando pelo tamanho e abrangência do grupo de apoio até chegar ao atendimento das duas exigências elementares sem as quais não há candidatura (quantidade adequada de dinheiro e perícia do marqueteiro), o produto de fato, que deve orientar toda propaganda eleitoral e que será submetido ao crivo do eleitor, sempre será um idealizado Projeto de Governo.

Fornecendo identidade estadual e assegurando viabilidade técnica e econômica para ser implantado, o Projeto de Governo levará até as pessoas o imaginário de um futuro diferente, que mudará sua vida e a de todos para melhor.

Por sinal, embora tenha escapado aos analistas de plantão, vale citar um fato curioso observado nas quatro últimas eleições, ocorridas a partir de 2018, em que o Projeto de Governo que defende uma impossível pecuária extensiva sustentável não encontrou opositores, sendo defendido por todo postulante a cargo majoritário, do governador aos senadores e prefeitos.

De imediato e a despeito da surpresa, todos aqueles que se esforçam para entender a política local deveriam se questionar, mesmo que de forma resumida, sobre o que acontecerá com o futuro do desenvolvimento no Acre em decorrência da adoção de um ou de outro Projeto de Governo.

Com um adendo importante.

A pecuária extensiva é inviável do ponto de vista ambiental e ecológico, uma vez que o capim imprescindível ao pastoreio do gado não cresce na sombra, embaixo das árvores, o que transforma o desmatamento, ou melhor, a retirada das árvores e de suas sombras, condição indispensável para ganhos de escala e viabilidade econômica.

Por sinal nunca é demais repetir. Toda e qualquer atividade produtiva no meio rural amazônico que depende de desmatamento para ocupar o lugar da floresta contraria princípios básicos de sustentabilidade reconhecidos em todo planeta.

Todavia, ninguém se preocupou em opor Florestania versus Pecuária extensiva como identidade produtiva a ser perseguida pela sociedade acreana para auferir e distribuir riqueza de maneira permanente, com aquela condição inegociável: jamais aumentar o desmatamento.

Contudo, voltando às últimas eleições, parece que de um momento para outro, no amanhecer do dia seguinte, sem que exista alguma justificativa inteligente, plausível e verificável por estatísticas, do nada, todos os políticos passaram à defesa do Projeto Agronegócio enquanto que, por outro lado, o Projeto Florestania perdeu seus defensores de maneira irreversível e ao que tudo indica, para o resto da enfadonha história politica e econômica do Acre.

Uma explicação, frágil diga-se, para o apoio incondicional ao agronegócio por 100% dos candidatos a cargo majoritário sugere que, em uma vã tentativa de escapar do isolamento e de uma previsível derrocada eleitoral, os políticos e gestores por várias razões rejeitados, esperavam transferir o desgaste político para o Projeto Florestania, que, em tese, estaria mais vinculado a certas lideranças que a outras e, sobretudo, distante de uma rejeição geral aos partidos políticos ditos de esquerda.

Enquanto isso a crescente rejeição aos políticos que ocupavam cargos importantes, intensificada em especial a partir do boom da pecuária no Acre em 2007, se misturou com a negação do Projeto Florestania enquanto modelo econômico mais adequado para a realidade ecológica do território do Acre.

Os resultados mostraram que a rejeição àqueles líderes políticos foi bem maior do que o significado eleitoral do Projeto Florestania, com o agravante de que a defesa do Agronegócio da pecuária extensiva desnudou a total falta de proposta e ausência de rumo para o desenvolvimento do Acre dos grupos políticos de direita, de centro e de esquerda na disputa eleitoral.

Não à toa, desde 2007 as estatísticas da pecuária extensiva no Acre mostram o impressionante e ininterrupto crescimento do plantel de gado que ultrapassou cinco milhões de animais em 2024.

Note-se que, por mais inusitado que possa parecer, o boom da pecuária extensiva no Acre aconteceu durante e a partir do terceiro mandato do grupo político que obteve inquestionável sucesso eleitoral na defesa do Projeto Florestania enquanto identidade produtiva estadual alternativa à pecuária extensiva.

Como assim?

Uma conclusão simples e resumida deixa claro que, de maneira explícita ou não a pecuária extensiva contou com apoio dos defensores do Projeto Florestania na tentativa de estancar uma crescente rejeição no terceiro mandato (2007-2010) e que chegou ao pico durante o quinto e derradeiro mandato entre 2015-2018.

Afinal, se todos os políticos se igualaram na única proposta de futuro para a economia no Acre e sendo que a hegemônica pecuária extensiva se mostra, desde a década de 1970, incapaz de suportar o desenvolvimento o que continua pesando na decisão do eleitor é a rejeição.

Ou, como no dito popular: importa mais quem pegou a Balsa e não quem entrou no Palácio.

Uma rejeição eleitoral, nunca é demais repetir, jamais observada na história política do Acre, que, por sinal, está repleta de casos incríveis de políticos com sucesso eleitoral estrondoso que, sabe-se lá por quais razões, foram esquecidos em uma amarga e eterna rejeição.

 E que continua.

No caso da eleição de 2024 para prefeito, o esquecimento e paulatino apagamento dos ideais do Projeto Florestania não foi suficiente para reverter indisposição do eleitor com os seus antigos defensores.

Há ainda um fato novo a se verificar. Além do apoio à pecuária extensiva o segundo colocado decidiu, por óbvio pensando reverter o nível de rejeição, mudar seu grupo político de apoio, na expectativa de que um novo partido político seria suficiente para fornecer uma nova e mais competitiva perspectiva eleitoral, o que não aconteceu.

Como afirma nosso antigo manual de política não existe afastamento mais ou menos quando se trata de rejeição aos políticos.

Mudar de partido político parece ter sido pouco para o candidato derrotado se mostrar como uma alternativa eleitoral renovada e distante dos antigos aliados, alguns poucos ainda identificados com as ideias do Projeto Florestania.

É possível, contudo, que o maior erro tenha sido manter coligações com os partidos e o grupo político autodenominado de esquerda.

Ao se orgulhar de que o desligamento do antigo partido político teria se realizado sem desavenças, o candidato derrotado fez crescer em igual proporção sua proximidade com os políticos rejeitados o que facilitou a estratégia do candidato reeleito centrada em não deixar o eleitor esquecer-se do vínculo do adversário com uma suposta ideologia socialista e comunista.

Enfim, negar o Projeto Florestania sem colocar nada no lugar tem feito com que os candidatos desde 2018 se nivelem pela mesmice de propostas em relação a uma identidade produtiva estadual e um modelo de economia baseada no impossível: uma pecuária extensiva que não depende do desmatamento. 

Por outro lado o Projeto Florestania, embora hegemônico por quase 20 anos sob a justificativa de maior viabilidade econômica, sustentabilidade ecológica e adequação à cultura produtiva do extrativismo florestal, foi esquecido em um canto qualquer.

Entretanto, deixando uma pergunta bem inconveniente:

Teria a sociedade no Acre abandonado a expectativa de uma economia estadual moderna, baseada na biodiversidade florestal como única alternativa para o desmatamento zero e se voltado para a antiga e ultrapassada pecuária extensiva que mantem o desenvolvimento do Acre estagnado desde a década de 1970?

Para o período que cobre os primeiros dezoito anos desse século a resposta seria um grande NÃO. Da mesma forma que para o período após 2018 um grande SIM.

Finalmente, desde o início de sua implantação, o Projeto Florestania, em que pese a enorme popularidade, no Acre e em Brasília, conseguida com farto investimento em publicidade governamental, se mostrava carente de objetividade o que, todos haverão de convir, tornaria qualquer tentativa de definição pouco precisa.

Acontece que ao incluir aspectos culturais, econômicos, sociais, ecológicos e políticos o neologismo Florestania não conseguiu escapar à costumeira e perigosa generalização que, como mostra farta literatura em ciência política, pode proporcionar algum sucesso eleitoral, mas, em contrapartida, fracassará na concertação do pacto social para garantir sua continuidade e, o mais importante, um futuro diferente para a população do Acre.

Por sinal, analisando com o devido distanciamento, tudo indica que o propósito da equipe que concebeu o neologismo Florestania foi o de agregar todas as correntes de pensamento existentes no Acre, de modo a firmar uma frente eleitoral para manter o comando do governo estadual para sempre.

Como afirma a ciência política o Projeto Florestania foi antes de tudo um Projeto de Poder.

Partindo dessa diretriz, na qual todos os modelos de economia estadual são aceitáveis ao contribuir para conquista do governo, se reduziria o risco da perda de apoio político.

Da mesma maneira que tornar mais claro, objetivo e específico o conceito de Florestania acarretaria, de outra banda, a exclusão de um ou outro ator social ou agente econômico, o que aumentaria em igual proporção o risco de uma derrota eleitoral.

E perder eleições, pode desculpar, era inadmissível para os líderes políticos do Projeto Florestania.

Assim, a generalização tornou possível manter por um bom tempo uma frente ampla, que abarcou todos os espectros políticos incluindo partidos de esquerda, de centro e de direita.

Ninguém ficou fora do bônus eleitoral. O Projeto Florestania escancarou a porta para aliciar todos e olha que foram muitos, com a condição de não contestar seus líderes políticos.

E deu certo.

É inegável que em certo momento da história política do Acre, a sociedade formou uma maioria de eleitores, aglutinados em torno de líderes políticos jovens que inspiravam as pessoas com a novidade trazida pelo Florestania.

Naquele momento histórico parecia que nada poderia dar errado, mas deu!

Claro que se trata de uma discussão deveras complexa e para ajudar a entender esse período único da incipiente política no Acre, nada mais prudente que resgatar um pouco dos clássicos.

Dentre os vários estudos especializados na análise de processo político e de governo, consagrados em extensa literatura, a teoria sobre Planejamento Estratégico Situacional, elaborada pelo economista chileno Carlos Matus ainda na década de 1970, pode elucidar alguns pontos importantes para entender o sucesso e fracasso do Projeto Florestania de governo no Acre.

Com a experiência adquirida na assessoria de Salvador Allende, que governou o Chile de 1970 a 1974, Matus concebeu o que denominou de Triangulo de Governo, um conjunto de três sistemas considerados determinantes para que uma nova força política conseguisse satisfazer as demandas de curto prazo da população ao mesmo tempo em que criava bases econômicas para uma identidade produtiva estadual sustentável e de longo prazo.

Matus defendia que sem prevalência ou importância diferenciada, cada vértice deveria ser analisado em separado desde que, contudo, caminhassem juntos de modo a manter o equilíbrio.

Resumindo, o inevitável fracasso do governo ocorreria se apenas um dos três vértices deixasse de funcionar.

Assim, Matus definiu o Triangulo de Governo composto da seguinte forma:

Projeto de Governo – Delimita um rumo ou uma identidade produtiva e ideia força que aglutina os atores sociais e agentes econômicos em torno de um modelo para o desenvolvimento permanente da região no longo prazo, ultrapassando por óbvio o horizonte temporal de quatro anos de mandato;

Capacidade de Governo – Representa o somatório da infraestrutura existente nos órgãos de governo incluindo a equipe técnica disponível e com competência suficiente para tornar realidade o Projeto de Governo, considerando ano após ano a demanda imediata e futura da sociedade; e, finalmente,

Governabilidade – Reúne as forças políticas e eleitorais cujas características e concepções ideológicas permitem solidificar o compromisso com o Projeto de Governo, fornecendo o lastro social requerido para evitar ruptura, retrocesso e, o mais grave, descontinuidade.  

Em sua célebre obra “Adeus Senhor Presidente”, Matus faz uma analogia ao contar a história de um político que sai, pela porta dos fundos, da vida pública sendo para sempre esquecido após fracassar no seu mandato.

Desiludido, enquanto recebe o adeus melancólico de assessores próximos, o político revisa suas decisões enquanto exerceu a presidência para entender as razões da péssima avaliação de seu governo.

Para os que leram o livro um alerta: qualquer semelhança com a realidade política do Acre no pós-2018 não será mera coincidência.

Esse é o desafio iniciado aqui e em outros nove artigos.

Ajudar a compreender a raiz do problema que acarretou o fracasso do Florestania, um projeto político, de poder e eleitoral que pareceu, até 2018, sólido e invencível.

Claro que algumas pedras dessa barragem, com perdão do duplo sentido, começaram a ruir bem antes. Encontrá-las será crucial para história política do Acre. 

Fim do Florestania no Acre: Equipe técnica sem Capacidade de Governo

01/02/2026

Todo profissional envolvido com setor produtivo entende as dificuldades para selecionar, treinar e fazer funcionar uma equipe de profissionais com especializações diversas em uma indústria, num supermercado, numa escola e até mesmo numa padaria.

Agora imaginem conseguir reunir vários peritos, alguns estreantes no serviço público com o propósito de, no curto prazo, consolidar uma Capacidade de Governo para atender cobranças imediatas por educação e saúde, enquanto colocava em pratica um rol de demandas novas, inventadas para viabilizar o Projeto Florestania.

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Fim do Florestania no Acre: Projeto de Governo não convenceu

25/01/2026

Logo nos primeiros quatro de uma hegemonia que durou 20 anos, poucos insatisfeitos com a generalização do Florestania foram convencidos de que o detalhamento da estratégia de desenvolvimento viria com o Zoneamento Econômico e Ecológico, ZEE.

O que também, como se verá, não aconteceu.

Muito pelo contrário. De fato, com a aprovação da Lei 1.904 em 2007, que instituiu o ZEE no Acre, o agronegócio da pecuária extensiva recebeu significativa e bem localizada área de terras cobertas com florestas, em especial ao longo das rodovias BR 364 e 317, para sua ampliação por meio do desmatamento, agora legalizado pelo ZEE.

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Fim do Florestania no Acre: Projeto priorizou acreanismo e não PIB

18/01/2026

Considerado ousado e inovador o Projeto de Governo Florestania, concebido por organizações da sociedade civil na segunda metade da década de 1980 e, em tese, iniciado de forma efetiva no Acre em 1999, deveria ter estabelecido as bases para um desenvolvimento econômico duradouro, sustentado na biodiversidade florestal e que mostrasse os caminhos para o futuro, mas não foi o que aconteceu.

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Fim do Florestania no Acre: Projeto de Governo sem objetivo claro

11/01/2026

Sendo a primeira eleição municipal após a derrocada em 2018 do grupo político que concebeu o Projeto de Governo Florestania, o retorno da pecuária extensiva enquanto identidade produtiva estadual foi uma decisão eleitoral, de certa maneira, bastante óbvia.

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