Restaram ainda alguns poucos órfãos que insistem na defesa da comprovada tese da Saída pela Floresta enquanto modelo de desenvolvimento para gerar e suportar o PIB do Acre, em níveis de emprego e renda bem superior ao atualmente obtido pela pecuária extensiva.

Não há, contudo, liderança política com coragem e discernimento suficientes para assumir o modelo preconizado pelo Projeto Florestania como alternativa à pecuária extensiva no Acre.

Acontece que ao ser transformado em um Projeto de Governo, que marcou uma época de vinte anos, de 1999 e 2018, o Projeto Florestania deixou de saldo a irrecuperável contaminação eleitoral da promissora tese da Saída pela Floresta para o desenvolvimento do Acre.

Sem expoentes na academia, nas ciências e nas artes, sem líderes na política, o Projeto Florestania agora impede que a imprescindível discussão sobre a existência de alternativa econômica à pecuária extensiva seja retomada nos moldes dos profundos debates ocorridos desde a segunda metade da década de 1980.  

Contaminação perigosa, por suposto, tendo em vista que o período eleitoral, dentre outros objetivos, deveria ser o momento para que os candidatos e os partidos políticos apresentassem sua plataforma ou ideia sobre os dois modelos de desenvolvimento possíveis para o futuro no Acre.

E não fica só nisso. O resultado visível da contaminação eleitoral não se resume na ausência de pressão pela academia, imprensa e a sociedade em geral, aos candidatos sobre os limites e alcances de cada modelo de desenvolvimento para o Acre.

Bem mais complexo, parece até impossível, seria discutir e quiçá compreender o conceito que forneceu sustentação teórica ao modelo de desenvolvimento da Saída pela Floresta e os argumentos científicos que justificam os limites reais para a expansão da pecuária extensiva.

Para ajudar a entender, vamos lá.

Mesmo após superar a barreira de cinco milhões de cabeças em 2025, o plantel de bovinos, vivos e abatidos todos os anos, não é suficiente para gerar o emprego e a riqueza no meio rural, que os mais de 800 mil acreanos necessitam.

Considerando que a base da economia estadual, diante da existência de uma indústria incipiente e nenhuma perspectiva de crescimento a partir dos produtos saídos da pecuária extensiva, a economia de todos os municípios, inclusive de Rio Branco com seu robusto setor terciário, continua há mais de 50 anos dependente dos repasses federais constitucionais e dos recursos discricionários que são liberados por meio das necessárias articulações políticas.

Nunca é demais lembrar. A busca de alternativa ao modelo da pecuária extensiva se mostra urgente devido ao limite imposto ao desmatamento.

Hoje, pelas regras atuais dispostas no Código Florestal aprovado em 2012 e com constitucionalidade total reconhecida pelo Supremo Tribunal Federal em 2018, não há escapatória ou jeitinho para ampliação do desmatamento para além dos 20% da área da propriedade particular.

Em poucos casos, somente em situações bem especiais, o desmatamento na propriedade particular pode chegar a 50%. O que importa, todavia, é que nas localidades com maior plantel bovino o limite para se desmatar chegou há alguns anos.

Acreditar em afrouxamento do Código Florestal, para ampliar a área de pastagem e, assim, possibilitar ganhos de escala no plantel de bovinos no Acre é viver meio fora da realidade, daqui e lá de fora.

Os limites para pecuária extensiva manter a riqueza anual que o Acre necessita são visíveis e insuperáveis, o que fazer? Só existe um rumo: a Saída pela Floresta!

Recentemente aprovada pela Comissão Nacional de Vegetação Nativa, ou Conaveg, uma coletiva instancia administrativa de decisão sobre o Plano Nacional de Recuperação da Vegetação Nativa, a Regeneração Natural Assistida pode ser a chave que faltava.

Acontece que os custos para reflorestar uma área em que o solo foi desgastado pelo mais de trinta anos de uso contínuo para pecuária extensiva, costuma afastar investidores devido, em especial, ao volume inicial de dinheiro requerido e o longo prazo de retorno ou recuperação do capital.

Quando o reflorestamento se enquadra no padrão conservacionista, no qual as espécies florestais que vão surgir ou serem cultivadas no processo de resgate da floresta que existia antes da criação do boi solto no pasto, o desanimo dos investidores aumenta de maneira exponencial.

Cultivar florestas, ou reflorestar, um hectare com árvores de elevado valor comercial, como o eucaliptos por exemplo, mas pode ser com mogno também, exige disposição do investidor para apostar no retorno financeiro futuro, em 5 ou até 40 anos, respectivamente.

Contudo o retorno mais tarde que cedo virá, o que é bem diferente do reflorestamento conservacionista, em que a espécies florestal, ou melhor, os produtos florestais, como a madeira por exemplo, não é o propósito do investimento que buscará receitas no incipiente mercado de carbono, por exemplo.

Não há dúvida de que os custos de um e de outro não deveriam ser semelhantes e é aí que entra a Regeneração Natural Assistida, um termo trazido da área médica para demonstrar que conduzir a regeneração natural, sem dúvida, será mais vantajoso.

Vantajoso para o solo, para a sociedade, para a biodiversidade da região e, nesse caso o mais importante, melhor para a redução de custos do empreendimento e, ao final, atração do necessário capital privado.

A mudança pode parecer simples mas a regeneração natural representa uma alteração profunda de paradigma, como gostam de falar os economistas.

No fundo, ao invés de selecionar determinada espécie florestal que possua interesse comercial reconhecido, na RNA a área a ser reflorestada, ou a ser submetida à regeneração natural, deverá ser cercada, isolada dos animais e o processo precisa ser monitorado regularmente.

Isto é, sempre haverá um técnico para acompanhar de perto o caminhar do processo de regeneração, daí vem o termo médico “assistida”, com a obrigação de retirar as espécies invasoras, selecionar e privilegiar os indivíduos das espécies florestais que faziam parte da estrutura original da floresta.

Os engenheiros florestais, profissionais que estão bem mais familiarizados com esse procedimento, afinal a RNA nada mais é que a aplicação da tecnologia de manejo florestal de florestas nativas de forma bem específica, não tem dúvida acerca do potencial da RNA.

Pesquisas atualizadas dão conta de uma redução de mais de 70% dos custos por hectare, em comparação com o reflorestamento tradicional, aquele que envolve a produção de mudas, plantio e replantio.

Levando em conta nosso compromisso no Acordo de Paris, de recuperar 12 milhões de hectares de pasto degradado, a RNA pode ser a chave que faltava.

Com uma contaminação que parece não ter antídoto a captura da tese sobre a saída pela floresta, enquanto modelo econômico capaz de promover e sustentar o desenvolvimento no Acre, no Projeto Florestania, ainda em 1999, se mostrou um erro estratégico dos mais terríveis.

Ao ser contaminado pela política eleitoral, o modelo econômico da saída pela floresta passou a ter cara e endereço, como se fizesse parte de um pacote fracassado de um ou outro grupo político.

Mas, não era nada disso!

É bem provável que, atualmente, somente alguns poucos órfãos, como no caso do incansável autor, ainda continuem pensando, em seu cotidiano, nas evidências que demonstram a superioridade da alternativa de desenvolvimento baseada na biodiversidade florestal quando comparada á expansão do desmatamento para consolidação da pecuária extensiva no Acre.

Ainda na segunda metade da década de 1980, muitos técnicos experientes que atuavam na Embrapa, Funtac e em um variado grupo de organizações não governamentais, alertavam sobre os limites econômicos da pecuária extensiva para elevar e manter o PIB do Acre.

Naquele momento, restou claro para os envolvidos com as análises econômicas e os impactos ambientais e sociais, que deveria existir alternativa à pecuária extensiva, sempre intensiva em desmatamento para ganho de escala devido, em especial, a uma estagnada produtividade média de meio boi por hectare.

Com forte dependência de uma política pública contínua e que resistisse às mudanças de governo, algo sempre muito difícil, os especialistas acreditavam ser possível colocar em prática no Acre o que chamavam de saída pela floresta.

Uma frase ou código para resumir um novo modelo de desenvolvimento que trouxesse riqueza sem desmatamento e, o melhor, garantindo a conservação da biodiversidade florestal, esse sim um recurso regional único e de competitividade garantida, com perdão do trocadilho, pela própria natureza.

Resumindo, um monopólio regional que, por graças divina, apresenta variações na biodiversidade e hidrografia estaduais que permitem, inclusive, diferenciação produtiva para o Pará, Amazonas, Rondônia e Acre, por exemplo.

E mais. Um modelo de desenvolvimento econômico e de produção rural bem diferente do atual, que tem na proteína animal, de bovinos, claro, sua principal referencia e ocupação hegemônica nas áreas com logística considerada privilegiada, na mata ciliar dos grandes rios e com acesso pelas principais rodovias pavimentadas.

Ocorre que uma vez que o gado pode ser criado em qualquer lugar desse imenso e maravilhoso país, em todo lugar haverá condições iguais ou, o que acontece na maioria das vezes devido às condições climáticas amazônicas, melhores para o boi pastar solto no pasto que aqui.

Na pecuária extensiva não existe empecilho técnico agronômico, sendo a produtividade entre as localidades um indicador pouco considerado na aprovação dos projetos do FNO geridos pelo Basa, devido à elevada viabilidade econômica de curto prazo e em decorrência do baixo valor marginal da terra coberta por florestas, da baixíssima geração de emprego e pouco investimento.

Mas, as condições propícias à ampliação da pecuária extensiva possui prazo para acabar, enquanto que, por outro lado, a saída pela floresta, ao se concentrar na oferta de produtos e serviços com monopólios amazônicos, e alguns ofertados somente pelo Acre mesmo, possui potencial comprovado pelos cientistas para um futuro ainda por ser totalmente revelado.

Ao se beneficiar da limitada, contudo expressiva, produção acadêmica, quase que na totalidade publicada antes da virada do século, sobre a alternativa para ocupação produtiva representada na saída pela floresta, o Projeto Florestania trouxe a política eleitoral para dentro do desenvolvimento econômico do Acre.

Contaminação que urge terminar com urgência, tanto por afastar muitos técnicos naquela época quanto por hoje atrair somente os órfãos do Florestania.

A constrangedora derrocada eleitoral, em 2018, do grupo político que se beneficiou dos ideais do Projeto Florestania, foi tamanha que de lá prá cá ninguém se aventurou a questionar o perigoso modelo de economia representado pela pecuária extensiva.

Entretanto, deixar os ideais do Projeto Florestania esquecido para sempre pode ser um equívoco imperdoável para entender o passado e se preparar para o futuro dos ciclos econômicos no Acre. Isto é, o debate é inevitável.

É bem provável que tenha sobrado alguns poucos órfãos, como no caso desse incansável autor, que ainda se arriscam na defesa da saída pela floresta como única, é única mesmo, alternativa para o desenvolvimento econômico do Acre.

No todo não existe mais de cinco especialistas, órfãos do Florestania, que ainda continuam pensando em seu cotidiano nas evidencias que demonstram a superioridade do modelo de desenvolvimento baseado na biodiversidade florestal quando comparada á expansão e consolidação da pecuária extensiva no Acre.

Na verdade, a constatação sobre os limites da pecuária extensiva e do potencial da biodiversidade florestal foi ressaltada com bastante produção técnica e científica publicada nas duas décadas finais do século passado, bem antes de 1999, ano em que o Projeto Florestania foi alçado à condição de Projeto de Governo.

Reunidas na tese da saída pela floresta essas publicações se voltaram à compreensão dos ciclos econômicos no Acre, em especial os ciclos florestais das drogas do sertão, da borracha e da madeira, para conceber um modelo de desenvolvimento conservacionista e alternativo ao desmatamento necessário à expansão da pecuária extensiva.

Naquela época, bem diferente dos não mais que cinco órfãos de agora, um contingente expressivo de pesquisadores e técnicos de excelente formação atuavam na Funtac, Embrapa e num variado leque de organizações do terceiro setor detalhando com rigor a vocação produtiva natural representada pela saída pela floresta diante da realidade agronômica e florestal do Acre.

Embora pareça distante ou perdido no tempo, somente para fornecer uma ideia mais clara daquele momento histórico e sua importância para o desenvolvimento estadual, foi ainda em 1990 que foram criadas no Acre as duas primeiras unidades de conservação da Amazônia chamadas de Reserva Extrativista.

Não por acaso a denominação Reserva Extrativista possui forte razão técnica o que permitiria, a partir da aplicação de alguns indicadores precisos, enquadrar ou caracterizar uma determinada área coberta por floresta nesse tipo especial de regularização fundiária.

Tendo por primeira condição a existência de uma extensa área ainda coberta por floresta nativa, seria possível manter a biodiversidade florestal como reserva estratégica para o futuro.

Ao tempo em que uma vez comprovada a primeira condição de reserva o modo extrativista de produção, depois de reconhecido sucesso na geração de riqueza durante os ciclos econômicos da extração de borracha e da coleta de castanha-da-Amazônia, possibilitaria a obtenção de renda conservando a reserva estratégica de biodiversidade florestal.

Um conceito complexo e que avançou graças a publicação de muitas pesquisas oriundas do esforço de um considerável contingente de especialistas e, por suposto, grande mobilização social em especial após o sacrifício de uma liderança sindical cultuada mundo afora, Chico Mendes.

A despeito de incorporar o arcabouço teórico produzido por uma equipe enorme de profissionais com bastante domínio sobre o conceito da saída pela floresta, o Projeto Florestania deixou de formar seus próprios pesquisadores e estudiosos com especialização em política pública de modo a se viabilizar enquanto Projeto de Governo e quiçá de Estado.

Afinal, não seria com não mais que cinco órfãos que o Florestania motivaria a academia, cientistas e técnicos em sua formulação para o futuro.

Tal como quase tudo do que acontece em geral na Amazônia e em particular no Acre, o Florestania, um Projeto de Governo que orientou a gestão pública no Acre durante as duas primeiras décadas desse século, caiu no esquecimento sem deixar referencia teórica nem seguidores.

Todavia, como sempre também há esperança.

Talvez tenha sobrado alguns poucos órfãos, como no caso do incansável autor, que ainda se arriscam na defesa da saída pela floresta como única, é única mesmo, alternativa para o desenvolvimento econômico do Acre.

Entretanto, é bem provável que não haja mais de cinco especialistas, órfãos do Florestania, que ainda produzem evidencias acerca da superioridade do modelo econômico de desenvolvimento baseado na biodiversidade florestal quando comparada á expansão e consolidação da pecuária extensiva no Acre, a despeito de todos se ressentirem da reduzida produção teórica.

Ocorre que a grande maioria das pesquisas, que incluem dissertações de mestrado e teses de doutorado, confrontando os dois modelos de ocupação produtiva (biodiversidade florestal X pecuária extensiva) foi publicada em um período bem específico, no final do século passado, e trataram de temas igualmente específicos, a criação de unidades de conservação, por exemplo.

Em uma análise um tanto rápida não é difícil perceber que mais de 80% das publicações com avaliações comparativas sobre os impactos econômicos e ambientais entre os dois modelos de desenvolvimento datam do período que vai de 1985 até o final da década seguinte, com alguns raros e excepcionais estudos publicados na virada do século.

O que importa é que, novamente em sua imensa maioria, os estudos e relatórios técnicos foram realizados com incontestável apoio do Ministério do Meio Ambiente, que, sobretudo durante os dois governos FHC, não poupou esforço e vontade para aportar recursos financeiros de maneira a demonstrar a cabal diferença na dimensão dos estragos causados nos ecossistemas, em especial devido ao desmatamento das florestas e alteração da vazão dos rios, pela pecuária extensiva e, por outro lado, o potencial conservacionista da saída pela floresta.

Foi nesse período que várias instituições estatais, incluindo a reconhecida Embrapa, em conjunto com expressivo número de organizações não governamentais, conceberam procedimentos técnicos para o que se denominou de manejo florestal de uso múltiplo.

Tratava-se em rápida síntese, da possibilidade de extrair da biodiversidade florestal uma variada cesta de produtos, madeira nobre das árvores inclusive, que adicionados à prestação de serviços ecológicos, relacionados em especial a oferta de água e ao mercado de carbono, forneceriam renda total mais elevada e de forma permanente que o limitado ganho por hectare obtido com a perigosa prática da pecuária extensiva.

Não à toa, outro importante legado do Acre para a discussão sobre o modelo de desenvolvimento amazônico mais adequado a sua realidade ecossistêmica, ou, no dizer dos economistas, de melhor vantagem comparativa, também surgiu e ganhou força nesse mesmo período.

O conceito de Reserva Extrativista foi detalhado em diversas publicações possuindo um acervo notável de produção teórica (acadêmica, de pesquisas cientificas e relatórios técnicos) que, de maneira direta ou indireta, foi capturado pelo Projeto Florestania como se uma coisa tivesse ligação direta com a outra.

Por óbvio que não!

Uma coisa é uma demanda vinda da sociedade, ser transformada em política pública ao prover regularização fundiária para as colocações de muitos produtores extrativistas, outra coisa, bem diferente, seria transformar a saída pela floresta, que tinha na Reserva Extrativista sua principal referência teórica, em Projeto de Governo com perspectiva de se tornar de Estado.

Um tema que, infelizmente, carece de produção teórica e, ao que parece e tudo indica, perdeu seu momento histórico, mas que, em contrapartida, jamais deverá ser esquecido pelos acreanos, dada sua importância nem tanto pelo passado, mas para o futuro do Acre.

Não pode por isso mesmo, ser deixado aos cuidados dos não mais que cinco órfãos do Florestania no Acre.

Para alguns poucos cansados com as narrativas sobre racismo, misoginia e outras gritarias com pouca discussão, a premiação do Oscar 2026 no domingo, dia 15 de março, poderá ser entediante.

Torcidas de pura brasilidade à parte, afinal todos esperamos que o nosso filme vença alguma das quatro indicações, ou até mais de uma, quem sabe? O que se percebe é que desde a virada do milênio e principalmente após a pandemia a indústria cinematográfica exibe tendência de queda perigosa.

Talvez por isso, pela tendência de queda de audiência em um ambiente de transformações competitivas profundas, sobretudo com o surgimento e consolidação  de Netflix, Prime, HBO e assim por diante, é que o apelo ao politicamente correto ganhou espaço que parece não ter mais volta.

Não à toa, dos oito roteiros indicados ao premio máximo de melhor filme de 2026, a imensa maioria se refere à história, adaptada ou original, de algum tipo de superação que afeta alguma minoria e, claro, o cansativo racismo.

Tirando da lista a sessão da tarde do repetitivo “Fórmula 1”, que depende única e exclusivamente do carisma do Brad Pitt para entreter uma fiel audiência, os outros sete longas expressam, de modo direto ou não, algum tipo do politicamente correto do momento.

No meu preferido “Sonhos de Trem”, o trabalhador chinês, que contribuiu na construção de uma das maiores redes ferroviárias do mundo, foi perseguido de maneira absurda pelos colegas trabalhadores americanos nascidos nas redondezas.

Expressão maior do apelo ao politicamente correto, com resultados surpreendentes diga-se, ficou por conta do sofrível “Pecadores” que narra a saga de vampiros brancos que além de racistas extremos contaminam a população negra que, logo depois, vai competir pelo sangue com eles próprios.

Difícil de assistir as transformações das pessoas em vampiros e o que tenta manter, porem sem conseguir, a atenção de quem assiste são as referencias ao jazz, que apesar de excelentes, carregam um peso de repetição de igual forma cansativa.

O politicamente correto chega ao ponto de condenar um pai, que por se dedicar ao teatro e ao cinema, dirigindo filmes e peças, se afasta das filhas e da esposa, embora se esforce para se fazer presente.

Algo muito comum na vida de muita gente, que acorda cedo para trabalhar e só volta no final da tarde, mas que os noruegueses do razoável “Valor Sentimental” consideram algo de um sofrimento que para nós parece deveras distante.

Além de mostrar um país que não existe e, felizmente, nunca existiu, o brasileiro “Agente Secreto” carrega na tinta de uma desigualdade e um autoritarismo que não faz parte de nossa realidade o que atrapalha a compreensão da história e deixa o entretenimento precário.

No final das contas, vencendo em duas edições seguidas o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, com ou sem o politicamente correto, o cinema brasileiro muda de patamar, isso o que vale.

Por isso, no domingo só a vitória importa.

Atualizado pelo autor a partir do resultado da eleição municipal de 2024.

Quando uma ou várias empresas que fazem parte de um mesmo setor produtivo se instalam em uma cidade ou região, empregos e riqueza surgem em função daquele tipo específico de atividade econômica.

Um exemplo fácil de compreender pode ser visualizado no município de Três Lagoas no Mato Grosso do Sul. Ali, um conjunto de indústrias produtoras de papel e celulose formou o mais importante Cluster Florestal (no caso, com cultivo de eucalipto) do país.

Chamada de estratégia de desenvolvimento regional, governos de partidos políticos variados se revezam no poder local, sempre mantendo a estratégia de longo prazo para o desenvolvimento da região com base nas floretas plantadas.

No geral, Mato Grosso do Sul possui um cardápio variado de opções produtivas distribuídas em seu território, com também várias estratégias de desenvolvimento, ficando a porção nordeste, que engloba uma extensa região formada por mais de vinte cidades incluindo Três Lagoas, adotando a estratégia de desenvolvimento com base no setor florestal.

Situação bem distinta do Acre, aonde apenas dois projetos do setor primário da economia vem, ao longo de sua história, disputando o uso do solo e a ocupação produtiva do meio rural das cidades.

Se do final do século dezenove, por volta de 1890, até a segunda guerra mundial a produção de borracha serviu como atrativo de investimentos públicos e privados, internos e externos, após a década de 1970 foi a pecuária extensiva que apresentou lucratividade para despertar o interesse de investidores.

Questionando a hegemonia produtiva da criação extensiva de gado, que demanda de maneira permanente, todos os anos, o desmatamento de novas terras para cultivo de capim, algumas organizações conceberam a estratégia de desenvolvimento conhecida por saída pela floresta que uniu à borracha, uma lista enorme de outros produtos da biodiversidade florestal do Acre.

Depois da regularização fundiária de mais de dois milhões de hectares de Reservas Extrativistas o sucesso da estratégia da saída pela floresta foi alçada à condição de projeto de governo com a denominação, na vitória eleitoral em 1998, de Projeto Florestania.

De fácil compreensão e prometendo criar riqueza com desmatamento zero os líderes políticos associados ao Projeto Florestania governaram o Acre por 20 anos, de 1999 a 2018, até as constrangedoras derrotas eleitorais que demarcou o retorno à estratégia de desenvolvimento da pecuária extensiva.

Hoje, em 2025, ninguém teria coragem de afirmar que a saída pela floresta, seja com a denominação de Florestania ou outra qualquer, se transformará em Projeto de Governo e na estratégia de desenvolvimento do Acre nos próximos 20 anos.

Por outro lado, aperta a cada ano o cerco político nacional e internacional  pelo desmatamento zero, o mercado de carbono (voluntário, regulado ou jurisdicional) dá seus primeiros e concretos passos para efetiva institucionalização, em 2030 se encerra o prazo do Acordo de Paris e a COP30, que acontecerá em Belém em novembro próximo, pode ser o divisor de água esperado para a Amazônia e o Acre debater e incentivar a saída pela floresta.

Há, por sinal, muitos outros eventos, considerados de pequena e grande repercussão com impacto na agenda política, que vão determinar posturas diferenciadas e contribuir para uma decisão de maior robustez sobre as duas estratégias de desenvolvimento que podem ser adotadas para o Acre.

Resumindo, a disputa por terras entre a estratégia saída pela floresta e pecuária extensiva no Acre, está bem longe de terminar.

Afinal, a capacidade limitada da pecuária extensiva para prover o crescimento econômico e a melhoria do IDH que a sociedade acreana requer foi diagnosticada em vários estudos e na realidade objetiva dos últimos 30 anos.

De outra banda, faltou líder político para o tamanho do desafio imposto pelo Projeto Florestania que, no final das contas, não recebeu a prioridade e o investimento suficiente da política pública que permita concluir sobre seu fracasso enquanto estratégia de desenvolvimento, a despeito da inexorável derrocada eleitoral.

Encerrando uma série de 10 artigos, o presente texto sintetiza as discussões sobre o sucesso extraordinário que permitiu governar até 2018, e o fracasso constrangedor a partir de 2019, do Projeto Florestania no Acre.

Tomando por base a teoria sobre o Triangulo de Governo foi possível analisar as razões para que o Projeto Florestania no Acre, 20 anos e cinco eleições vitoriosas mais tarde, fracassasse nos pleitos de 2018, 2020, 2022 e 2024.

Um mandato governamental de quatro anos, segundo o conceito concebido e popularizado pelo economista chileno Carlos Matus ainda na década de 1970, será avaliado pela sociedade com base no desempenho do Projeto de Governo, da Capacidade de Governo e da Governabilidade.

Quando os três vértices caminham juntos e em equilíbrio o sucesso do governo estará garantido, quando não, a rejeição será inevitável.

Projeto de Governo é a estratégia para construir o futuro da região.

Fornece um rumo para a economia estadual, um modelo ou uma estratégia de desenvolvimento que vai pautar as ações de cada instituição pelo tempo necessário para que as atividades produtivas planejadas no projeto caminhem sem descontinuidade e com pouca, ou ainda melhor, sem a ajuda do orçamento púbico.

No caso do Projeto Florestania, os líderes políticos que assumiram o governo em 1999 convenceram os acreanos e por isso venceram as eleições sobre a estagnação da economia estadual, devido aos limites para expansão da pecuária.

De maneira subliminar estava implícito que o progresso ou o desenvolvimento do Acre não seria sustentável devido à persistência das taxas anuais do desmatamento, legalizado ou não, necessário à ampliação da pecuária extensiva.

Caberia ressaltar aqui que, por óbvio, a estratégia da saída pela floresta, que teve na criação das Reservas Extrativistas sua maior referencia fundiária ao garantir de terras com florestas e desmatamento zero, não foi pensada por algum líder político que foi eleito no período de sucesso do Projeto Florestania.

O modelo foi gestado por um conjunto de organizações públicas e não governamentais, com suporte científico de instituições de pesquisa e das universidades federais que atuavam na região.

A rigor, desde o final da década de 1980 que o efeito nefasto do desmatamento realizado para criação extensiva de gado ganhara a mídia nacional e internacional, mobilizando cientistas e técnicos na discussão de uma estratégia ou modelo alternativo de desenvolvimento para a Amazônia em geral e o Acre em particular.

Não à toa, dois legados do Acre são reconhecidos para conceituação da estratégia da saída pela floresta.

As Reservas Extrativistas como condição fundiária idealizada e a tecnologia de manejo florestal comunitário para exploração sustentável da biodiversidade florestal foram inventadas no Acre, ganharam o país e o mundo.

Vários relatórios de pesquisa, dissertações de mestrado e teses de doutorado comprovaram a superioridade econômica da exploração comercial da biodiversidade florestal frente a criação de boi solto no pasto para prover o PIB que o Acre necessitava.

Defendendo o pressuposto do desmatamento zero, o Projeto Florestania conseguiu reunir todos que acreditavam ser possível explorar com técnica apurada sementes, madeira, frutas, fauna e o atual mercado de carbono.

Ou seja, gerar riqueza e emprego no Acre com a floresta em pé.

Infelizmente, após um início identificado com a vocação produtiva florestal do Acre, em que a aprovação da Política Estadual de Floresta e a contratação dos financiamentos junto à tríade bancária (BNDES, Bird e BID) foram os principais mecanismos de execução, o Projeto Florestania mostraria sinais perigosos de ausência de liderança política e o consequente esgotamento.

Embora seja difícil estabelecer com precisão uma data, pode-se afirmar que até 2006, por força da herança bendita vinda da mobilização da sociedade civil pela estratégia da saída pela floresta e pelas Reservas Extrativistas, bem como com os financiamentos bancários amarrados à meta do desmatamento zero, a Capacidade de Governo foi direcionada para executar o Projeto Florestania, apoiando atividades produtivas baseadas na biodiversidade florestal.

Contudo e infelizmente em 2007 aconteceria o boom da pecuária extensiva, quando o rebanho e os abates quase dobraram, numa demonstração da força dessa atividade e da frágil determinação dos líderes políticos do Projeto Florestania.

Capacidade de Governo inclui as instituições que o poder executivo dispõe para satisfazer as demandas imediatas e futuras da sociedade. Representa a estrutura física e de recursos humanos direcionados para executar as ações previstas no Projeto Florestania.

Com reforço de um expressivo número de técnicos vindo das organizações não governamentais a Capacidade de Governo disponibilizada para o Projeto Florestania teria sido mais que suficiente. 

Não eram poucos técnicos, estavam bem qualificados e dariam conta da transformação produtiva do Acre em direção à produção explorada na biodiversidade florestal. Mas algo não aconteceu!

Faltaram algumas coisas, todavia, a principal lacuna foi a ausência de determinação política.

Os líderes políticos, eleitos governador e prefeito, bem cedo, deixaram a equipe técnica e as instituições à deriva, a partir do momento que entenderam que a pecuária extensiva estaria excluída da prescrição técnica e científica predominante na estratégia da saída pela floresta e, logo depois, na execução do Projeto Florestania.

Uma última tentativa em relação à impossível conciliação, de modo a não perder o suposto eleitorado que estaria sensibilizado pela pecuária extensiva, movimentou os líderes políticos pela finalização e aprovação do Zoneamento Ecológico-Econômico, ZEE, na expectativa de que às diretrizes exaradas do ZEE não caberia contestação pelos políticos, ledo engano.

Tentando unir o impossível científico de se criar boi solto no pasto plantando capim embaixo da floresta, e o improvável político de receber, ao mesmo tempo, os votos dos favoráveis e dos contrários ao desmatamento zero, o ZEE poderia funcionar como a tábua de salvação. Mas, não salvou!

Aprovado em 2007 o ZEE delimita o marco temporal, ou divisor de águas como preferem alguns, determinante para datar o começo do fracasso do Projeto Florestania enquanto estratégia de desenvolvimento.

O governo propôs e os parlamentares estaduais aprovaram a redução da área de Reserva Legal fornecendo mais de dois milhões de hectares para o desmatamento legalizado.

Se antes o pecuarista localizado ao longo das principais rodovias federais (BR 364 e 317) era obrigado a manter, com cobertura florestal, uma porção de 80% da área total de sua propriedade como Reserva Legal, com aprovação do ZEE a área de Reserva Legal foi reduzida para 50% do total, destinando a diferença de 30% de terra com floresta para o plantio de capim.

Desde 2007, quando o ZEE passou a vigorar, até 2018, um total de 3.132 Km2 de floresta no Acre foi destruído, dentro da legalidade, sob a chancela do ZEE e do Projeto Florestania.

Não deixa de ser paradoxal que a mesma atividade pecuária que concentrou tanto esforço político para evitar o ZEE, terminasse beneficiada após sua aprovação.

Mesmo assim, a despeito de serem privilegiados no ZEE, denúncias de perseguição ao produtor que queria desmatar foram usadas contra os líderes políticos do próprio Florestania. Insano não?

Finalmente, a partir daí a Capacidade de Governo deixou de ser direcionada para favorecer a estratégia de desenvolvimento preconizada na saída pela floresta e no Projeto Florestania.

A Governabilidade nesse momento estava capturada pela antiga estratégia de desenvolvimento baseada na pecuária extensiva.

Governabilidade se refere às condições políticas que envolvem as negociações que possibilitam ao governo obter maioria no parlamento estadual para aprovar seus projetos e por duas razões consideradas cruciais.

A primeira se refere à manutenção do poder, ou da estabilidade política de modo a evitar sobressaltos e pedido de impeachment que, mesmo que na maioria das vezes naufraguem, causam paralisia decisória no poder executivo por longos e perigosos períodos em que a máquina de governo deixa de funcionar.

Já a segunda razão é um pouco mais complexa e diz respeito à continuidade, por um ou mais mandatos, da execução dos projetos demandados para que a estratégia de desenvolvimento assumida não sofra paralisações.

Quanto mais convencidos os atores políticos acerca do potencial da estratégia adotada pelo Projeto Florestania para alcançar o desenvolvimento do Acre, maior a chance de manutenção da mesma Governabilidade quando houver alteração do partido político no poder.

Evitar o desgaste entre o arco de alianças que seguram a Governabilidade é a palavra-chave o que exigia, do governador e prefeito eleito sob o manto do Projeto Florestania, uma maturidade que se mostrou inexistente junto aos líderes políticos, sempre mais preocupados com a próxima eleição.

A solução assumida para o mesmo partido político nunca perder eleição, como não poderia ser diferente, foi partir para o agrado generalizado transformando o Projeto Florestania em uma cesta de boas intenções, onde todos poderiam colocar suas ideias, onde a pecuária extensiva poderia ser prioridade.

Por sinal, é impossível determinar se foi a perda da estratégia de desenvolvimento do Projeto Florestania que levou ao fracasso do projeto em 2018, 2020, 2022 e 2024 ou se a Governabilidade conseguida com o apoio à pecuária extensiva garantiu o sucesso nas cinco eleições anteriores.

O fato é que as constrangedoras derrotas eleitorais sugerem a existência no eleitorado acreano de uma rejeição eleitoral aos lideres políticos do Florestania sem precedentes na história política do Acre.

Todavia e infelizmente a conclusão é bem simples, por vontade, sede de poder, estupidez, incompetência, ganancia ou imperícia dos líderes políticos da época a sociedade no Acre deixou de avançar em um momento decisivo de sua trajetória econômica.

Momento histórico pouco provável de se repetir em condições semelhantes às que foram oferecidas ao Projeto Florestania.

Nem tudo está perdido, afinal, não há plano b, o retrocesso à estratégia de desenvolvimento do século passado, que depende do desmatamento para criar boi solto no pasto, será cobrado ainda no curto prazo pelos brasileiros de outras regiões do país e pelo mundo.

Afinal, ninguém pode acreditar que na era do carro elétrico, da energia solar, eólica e hidrelétrica, do prazo do Acordo de Paris, do mercado de carbono…

o desmatamento do Acre ainda seja tolerável.

Atualizado pelo autor a partir do resultado da eleição municipal de 2024.

A despeito de ainda pouco caracterizado pelos estudiosos o ano de 2007 pode ser considerado um marco na história econômica da pecuária extensiva no Acre.

Foi nesse momento em que o número de abates e do rebanho saltou para um patamar muito superior e, a partir daí, cresceu em torno de 6,5% ao ano, de maneira ininterrupta até 2025 com promissora tendência de crescimento.

Difícil explicar o que, de fato, aconteceu, mas no conjunto de eventos que propiciaram o boom da pecuária extensiva jamais poderá faltar a aprovação da lei estadual que instituiu o Zoneamento Ecológico-Econômico, ou ZEE, em 2007.

Instigante, por outro lado, pensar que o Projeto Florestania que elevou a estratégia de desenvolvimento conhecida por saída pela floresta, concebida por algumas organizações desde o final da década de 1980, à condição de Projeto de Governo estava em plena execução, justamente com o propósito de substituir a estagnada economia arrastada pela pecuária extensiva desde 1970.

Algo deu, definitivamente, errado na experiência do Projeto Florestania no Acre e as razões até agora não foram explicitadas com clareza.

Conforme discutido nos oito artigos anteriores faltou liderança política para conduzir o Projeto Florestania com a determinação requerida, o que dificultou sua interpretação e deixou à deriva a equipe técnica, reduzida diga-se, responsável por sua condução na rotina da gestão publica estadual.

Determinados a vencer, a qualquer custo, os processos eleitorais, os governadores e prefeitos eleitos sob o imaginário de futuro trazido pelo Projeto Florestania, defendiam que não poderiam perder o apoio político, jamais conquistado diga-se, dos comerciantes e produtores rurais envolvidos com a pecuária extensiva.

Por sinal, nos enfrentamentos entre os setores produtivos a pecuária extensiva venceu a disputa travada nas definições técnicas e políticas do ZEE, recebendo de prêmio uma quantidade expressiva de terras com florestas, legalizadas para serem desmatadas com total segurança jurídica.

Com logística privilegiada, os mais de dois milhões de hectares de terras com florestas, distribuídas ao longo das rodovias BR 364 e 317, foram incorporadas na expansão do rebanho de gado que chegou a cinco milhões de cabeças em 2024, após aprovação da Lei do ZEE em 2007.

Pode-se afirmar, sem medo de errar, que a partir da transformação do ZEE em lei estadual fornecendo a necessária segurança jurídica ao desmatamento, a Governabilidade foi capturada pela pecuária extensiva sem, contudo, que os produtores fornecessem, em contrapartida, o esperado apoio eleitoral.

Para aqueles pouco familiarizados, Governabilidade é um dos vértices do Triângulo de Governo teorizado pelo economista chileno Carlos Matus na década de 1970, para analisar o sucesso ou fracasso de um mandato de governo.

Somada ao Projeto de Governo, que define a estratégia de desenvolvimento de longo prazo e à Capacidade de Governo, que define a estrutura institucional e de técnicos disponíveis para executar o projeto, a Governabilidade fornece o lastro social e a estabilidade para superar a, sempre ativa, oposição política.

Juntos e avançando de maneira equilibrada formam os pilares considerados cruciais para que um governo consiga atender as demandas imediatas da população enquanto direciona o desenvolvimento estratégico para uma agenda alternativa.

Até seu ocaso em 2018, a hegemonia política que venceu cinco eleições consecutivas e perdurou por 20 anos, mostrou uma força eleitoral e consequente Governabilidade sem precedentes na história política do Acre.

Pode ser, por outro lado, que a inquestionável Governabilidade do período 1999-2018, tenha garantido as vitórias eleitorais a despeito de o Projeto Florestania ter perdido a ênfase no modelo de desenvolvimento ancorado na biodiversidade florestal.

Ou, melhor ainda, pode ser que ao favorecer, de forma explicita ou subliminar, a pecuária extensiva o Florestania tenha esquecido seu propósito enquanto ganhava apoio popular e maior Governabilidade.

De outra banda, as constrangedoras derrotas eleitorais em 2018, 2020, 2022 e 2024, sugerem que aos poucos a vantagem eleitoral do Florestania representada pelo futuro com desmatamento zero, perdeu espaço para a promessa de um agronegócio mecanizado, nos moldes que transformou a vida dos vizinhos rondonienses.

Rondônia, por óbvio, na esmagadora vitória eleitoral de 2018 passou a ser um horizonte a ser perseguido pelos acreanos e não uma estratégia de desenvolvimento impossível para o Acre, mesmo sendo do ponto de vista agronômico e técnico, de verdade, impossível mesmo.

Assumindo que o ZEE de Rondônia promoveu a ampliação de um agronegócio tecnificado, de elevada produtividade e quase 100% mecanizado, pareceu aos acreanos que ao aprovar o ZEE do Acre, o caminho inexorável da redenção econômica e do progresso estaria trilhado, tal qual o vizinho.

Nada disso aconteceu e não acontecerá jamais! Acre não é Rondônia!

Com impedimentos intransponíveis à mecanização e outras fragilidades em relação ao solo, precipitação e trabalhadores, a estratégia de desenvolvimento de Rondônia não passará de Acrelândia e Plácido de Castro.

Resumindo, em mais de 80% do território acreano predomina um relevo acidentado, repleto de ladeira que impede a mecanização, automação e, finalmente, uma produtividade competitiva.

Por aqui restará sempre e somente a estagnação trazida pela pecuária extensiva, realizada com baixa produtividade e alto impacto ambiental decorrente da dependência do permanente desmatamento anual, sem falar na concentração de riqueza, ou seja, indesejável por todos os aspectos para a sociedade.

Sendo assim, a pergunta que não quer calar se refere a quais razões levaram os líderes políticos que se elegeram várias vezes sob o manto do Florestania a aceitar, apoiar e fornecer as terras com florestas para consolidação da pecuária extensiva quando da aprovação do ZEE?

Ocorre que e difícil estabelecer, com precisão, a data em que o Projeto Florestania deixou de priorizar a saída pela floresta visando o resultado eleitoral, entretanto, a aprovação da Lei 1.904 que instituiu o ZEE, em julho de 2007, representa marco histórico indiscutível.

Além disso, as quatro últimas constrangedoras derrotas eleitorais deveriam ter deixado claro para os, hoje esquecidos, líderes políticos de outrora que a ausência de um projeto de desenvolvimento do Acre alternativo à pecuária extensiva, como foi o Projeto Florestania, contribuiu de maneira decisiva para o fracasso eleitoral ressaltando o fim da carreira política de todos.

Concluindo, ninguém parece ter se dado conta de que as robustas evidências mostram que não haverá vitória eleitoral sobre a pecuária extensiva sem a defesa incontestável do Projeto Florestania e da utopia do desmatamento zero!

Poucos entendem que ao destinar porção considerável de terras, repita-se, com logística favorecida pela localização ao longo das rodovias para a pecuária extensiva o ZEE, aprovado com amplo apoio dos políticos reunidos no que se chamou de Frente Popular, fez a estratégia de desenvolvimento para o Acre retroceder à década de 1970. 

Em síntese, mesmo que em um primeiro momento a Capacidade de Governo para concretizar o Projeto Florestania deu ênfase na valorização da biodiversidade florestal como principal ativo econômico acreano, o ZEE concretizou o contrário.

Aquela suposta determinação inicial por um progresso a ser alcançado por meio de uma economia de baixo carbono, ancorada na biodiversidade florestal e com desmatamento zero, que havia sido estimulada e impingida pelos contratos de financiamento com a tríade BNDES, Banco Mundial e Banco Interamericano, sucumbiu a partir da aprovação do ZEE.

Relembrando, conforme detalhado no artigo oitavo dessa série de dez, a justificativa do aumento do PIB com desmatamento zero por meio da conservação da biodiversidade florestal foi determinante para aprovar os projetos e captar os recursos financeiros que vieram da tríade (Bird, BID e BNDES), jamais a criação extensiva de boi.

Nunca é demais repetir que com o ZEE, após sua providencial transformação em legislação, o governo estadual determinou que tipo de atividade produtiva seria implantada em cada local, ou zona, do território acreano.

Assim, de pronto o ZEE forneceu legalidade para desmatar uma quantidade considerável de terras florestais localizadas no que se chamou de Zona I, consideradas propicias para o agronegócio da criação extensiva de gado e plantio de cana-de-açúcar.

Daí em diante, aumentar o desmatamento anual para criar o gado solto no pasto, com o ZEE, passou a ser justificável do ponto de vista técnico, legal e, por suposto, político.

No entanto, a paulatina debandada de todos os que se elegeram na defesa do Projeto Florestania e, por consequência, priorizando a biodiversidade florestal como estratégia de desenvolvimento, bem como os mais de 30 anos de estagnação econômica que a pecuária não consegue superar, não tardariam a enfraquecer a Governabilidade abrindo a janela para as sucessivas derrotas eleitorais.

Resta esperar que o efeito nefasto do favorecimento do ZEE à pecuária extensiva seja percebido pela sociedade, com a publicação das medições, pelo conceituado Inpe, das inevitáveis e permanentes taxas anuais de desmatamento no Acre.

Somente para ilustrar, no ano anterior à perda de Governabilidade e ao consequente fracasso eleitoral de 2018, estudos demonstravam que metade da área de mata ciliar do rio Acre, em uma faixa de 100 metros de largura, estava degradada pela pecuária extensiva, comprometendo o equilíbrio hidrológico com risco de ocorrência de secas e alagações.

Sem Capacidade de Governo para trazer o Projeto Florestania de volta à saída pela floresta, a Governabilidade tentou, sem sucesso, aliciar os pecuaristas.

Mas isso é outro artigo.

Atualizado pelo autor a partir do resultado da eleição municipal de 2024.

Com sucesso extraordinário, o Projeto de Governo do Agronegócio, que se esforça para colocar a pecuária extensiva, nos moldes primitivos praticados no Acre no mesmo nível das commodities produzidas com alta tecnologia nas demais regiões do país, venceu as eleições de 2018, 2020, 2022 e 2024.

Aos derrotados, não sobrou muita coisa.

De maneira constrangedora o eleitor do Acre rejeitou nos quatro últimos pleitos e com visível determinação, todos os candidatos que, de maneira direta ou indireta, tiveram vinculo com o Projeto de Governo alternativo à pecuária extensiva, o Projeto Florestania.

Muitos questionam a viabilidade objetiva de uma estratégia de desenvolvimento para o Acre baseada na biodiversidade florestal, um questionamento mais que legítimo e que não significa partir para a defesa de uma economia baseada na pecuária extensiva.

Com empecilhos diagnosticados às tantas e por várias instituições, a geração de renda por meio da exploração técnica e comercial do potencial florestal da região apresenta gargalos históricos e até então insuperáveis.

Em contrapartida, todos reconhecem que não há justificativa, econômica ou política, para a continuidade do desmatamento anual requerido na substituição das árvores pelo capim que alimenta o rebanho solto no pasto, segundo o procedimento adotado na pecuária extensiva.

Assumindo ser, no mínimo, irresponsável concordar e defender o desmatamento, diversas agencias de financiamento do desenvolvimento regional se prontificaram e, de certo modo, atestaram a viabilidade econômica, técnica, social e ecológica da saída pela floresta.

Concebida e elaborada por um conjunto de organizações do terceiro setor no Acre a partir do final da década de 1980, a possibilidade de um desenvolvimento baseado na exploração técnica e comercial da biodiversidade florestal, denominada de saída pela floresta, se transformou em Projeto Florestania, ainda em 1999.

Três Bancos, com reconhecido histórico de sucesso no financiamento do desenvolvimento mundo afora, apostaram sua reputação ao prover consideráveis recursos financeiros, demandados pelo Projeto Florestania.

Durante o sucesso eleitoral, que durou até 2018, impossível deixar de reconhecer o empenho do Banco Mundial, BNDES e Banco Interamericano, que emprestaram parte e doaram outra parcela expressiva do dinheiro empregado na execução da Política Estadual de Florestas e das diretrizes do Zoneamento Ecológico-Econômico do Acre.

Em nenhum momento nesse período e mesmo depois com as sucessivas vitórias eleitorais do Projeto Agronegócio os três bancos se arriscaram a associar sua marca com o desmatamento ilegal e o legalizado, ao financiar a criação de boi solto no pasto.

Sem muito esforço é possível concluir que o Projeto Agronegócio não conta hoje e não contará no futuro com o suporte do financiamento de agencias internacionais, especializadas nas estratégias de desenvolvimento regional em todo o planeta.

Surge nesse ponto a pergunta inescapável: Os Bancos financiaram o Florestania ao comprovar a viabilidade técnica e econômica da saída pela floresta, o que de fato aconteceu, ou, temeram o risco de ver sua reputação vinculada ao desmatamento demandado pela pecuária extensiva?

Por outro lado, ha uma segunda questão inescapável: Sem o providencial financiamento dos Bancos o sucesso eleitoral do Florestania aguentaria os 20 anos conseguidos?

Finalmente, ainda uma terceira pergunta: Os agentes financeiros, bem lá no fundo da alma, sabiam da indiferença que os lideres políticos nutriam em relação ao Florestania?

Na verdade dos fatos o Florestania como estratégia de desenvolvimento apropriada para o futuro do Acre com desmatamento zero, não chegou a ser priorizado pela Capacidade de Governo enquanto era festejado em palanques eleitorais.

Pode ser, por conseguinte, que os governadores e prefeitos eleitos sob o manto do Florestania e que receberam a aprovação dos Bancos em financiamentos consideráveis, fossem negligentes quanto à saída pela floresta, preocupados que estavam com seu próprio futuro.

Pode ser que os Bancos, por seu turno, se interessassem por testar a viabilidade do Projeto Florestania, como propaganda de uma agenda verde que por ventura defendiam, mesmo reconhecendo as insuperáveis barreiras econômicas e a eterna incapacidade dos líderes políticos para levar o Projeto Florestania muito adiante.

O fato é que para explicar as causas do sucesso ininterrupto por 20 anos do Projeto Florestania seguido da derrota para o Projeto Agronegócio nos últimos oito, o envolvimento dos Bancos de desenvolvimento, que deram e negaram, respectivamente, suporte técnico e financeiro, se mostra revelador.

Usando a tese do Triangulo de Governo, concebida na década de 1970 pelo chileno Carlos Matus, para analisar a guinada política ocorrida no Acre em 2018, percebe-se que o vértice da Capacidade de Governo, da Governabilidade e do Projeto de Governo não caminhou segundo o equilíbrio desejado.

Acontece que, como analisado nos sete artigos anteriores, o Projeto Florestania optou pela generalidade sendo omisso em decidir entre o apoio ao agronegócio da pecuária extensiva ou ao uso econômico da biodiversidade florestal como referência para a estratégia de desenvolvimento.

Sem contar com a orientação e determinação dos líderes políticos que conquistaram cinco sucessivos mandatos eleitorais, o embate biodiversidade versus pecuária no Projeto Florestania foi vencido no momento da execução segundo o pensamento de cada equipe de técnicos que atuava em órgãos distintos.

No conhecido salve-se quem puder, em um primeiro momento a maior parte dos especialistas atuou de modo a promover a força econômica da biodiversidade florestal e após o primeiro mandato, de uma hegemonia que durou 20 anos, descambou para o apoio à criação extensiva de boi.

Por sinal, quando chegou em 2018 e nos seis anos depois em 2024, a equipe técnica que fornecia Capacidade de Governo ao Projeto Florestania deixou tanto de questionar a estagnada economia trazida pela pecuária extensiva quanto a defender a saída pela floresta.

Desculpe leitor, mas cabe aqui uma última pergunta inevitável.

Se a equipe técnica que conduziu a Capacidade de Governo dos primeiros anos, mesmo com visível timidez, pendeu para o modelo de desenvolvimento da biodiversidade florestal almejando o desmatamento zero, qual a razão para voltar as atenções para o agronegócio da pecuária extensiva no período posterior a 2006?

Diante de tal complexidade, a resposta exige uma avaliação mais detalhada com relação ao perfil dos especialistas que conduziram a Capacidade de Governo entre 1999 e 2018, o que foge ao escopo desse tipo de artigo.

Há, contudo, duas variáveis de peso considerável nessa análise: a aprovação do Zoneamento Econômico-Ecológico, ZEE, e os necessários empréstimos bancários demandados para pavimentar ruas e construir a infraestrutura requerida pelo desenvolvimento econômico do Acre.

Deixando a discussão sobre o ZEE para mais tarde, conseguir captar os recursos junto ao competitivo sistema financeiro, em que organizações do porte do Banco Mundial (BIRD), BNDES e Banco Interamericano (BID) recebem centenas de projetos todos os anos, requereram do governo do Acre metas rígidas e verificáveis para o propósito do desmatamento zero.

Vários foram os apoios financeiros, reembolsáveis e a fundo perdido, emprestados e doados respectivamente, captados entre 1999 e 2001, por meio de projetos considerados inovadores pelos analistas de crédito dos bancos.

Desnecessário reiterar que em todos os projetos elaborados nesse período a sustentabilidade e o respeito ao meio ambiente, traduzidos como redução do desmatamento era a peça-chave para aprovação.

Não à toa, todas as notas de rodapé das propostas traziam a máxima de um desenvolvimento viável para economia, com desmatamento zero ou equilibrado do ponto de vista ecológico e socialmente justo.

Por óbvio, a marca com o diferencial ecológico alcançado pelo Acre em sua histórica defesa da floresta, em que figuram líderes sindicais como Chico Mendes, convenceu os agentes financeiros a destinarem expressivas quantias ao setor primário do Acre.

BNDES, BIRD e BID, os três maiores financiadores do desenvolvimento no Acre, apostaram na saída econômica pela biodiversidade florestal se tornando fiel da balança para que a Capacidade de Governo perseguisse esse rumo.

Políticas públicas aprovadas na fase inicial do Projeto Florestania incluíram a construção da indústria de pisos, da Natex, de algumas usinas de borracha e de Castanha-da-Amazônia, além do polo moveleiro e aprovação de quase 20 mil hectares de manejo florestal comunitário.

Sempre com apoio financeiro da tríade BNDES, BIRD e BID.

Pode-se afirmar, sem medo de errar, que o argumento da exploração econômica da biodiversidade florestal, ou da saída pela floresta, foi o que diferenciou o Acre e atraiu esse seleto grupo de investidores.

Improvável, no mínimo, que a tríade arriscasse sua reputação financiando uma atividade econômica que, de maneira direta ou sinuosa, destruísse a floresta.

Porém, após aprovação da Lei do ZEE a influência da tríade se reduziu e a equivocada racionalidade eleitoral levou a Capacidade de Governo para o agronegócio do boi solto no pasto.

Mas isso é outro artigo!

Atualizado pelo autor a partir do resultado da eleição municipal de 2024.

Em uma série de dez artigos, publicados nesse espaço, vem sendo discutido a importância do Projeto Florestania para a estratégia de desenvolvimento adotada no Acre, tanto em seu período de sucesso eleitoral (1999-2018) quanto em relação aos os últimos constrangedores fracassos.

Desde 2019 o governo e a prefeitura da capital, Rio Branco, investem parcela considerável do orçamento público no apoio ao Projeto de Governo do Agronegócio, com foco na expansão e consolidação da pecuária extensiva.

Em tese, fazendo contraditório à pecuária extensiva, o Projeto de Governo Florestania, foi derrotado de maneira esmagadora, com nenhuma chance de segundo turno nas eleições, nos pleitos de 2018, 2020, 2022 e 2024.

Poucos foram, a bem da verdade, os defensores do Florestania em todos os quatro expressivos fracassos eleitorais o que sugere a existência de uma rejeição impregnada nos políticos que, de maneira direta ou não, ainda são identificados com o Florestania, embora façam de tudo para evitar o assunto.

Entretanto, se de um lado o marketing do Florestania foi usado de maneira corriqueira enquanto trouxe benefícios eleitorais até 2018, na prática, constata-se que os vinte anos ininterruptos de governo do mesmo partido político, a contar de 1999, deixou de priorizar a saída pela floresta preconizada pelo Florestania.

Não à toa, a pecuária extensiva jamais deixou de ser financiada com recursos vultosos oriundos do orçamento estadual, gerido pelo governo do Acre, com um visível boom do ciclo econômico da pecuária extensiva registrado em 2007, quando o abate e o rebanho de gado se elevaram a outro nível de participação no PIB acreano.

Concluir que, a despeito do sucesso enquanto marketing eleitoral, o Projeto Florestania não recebeu da Capacidade de Governo o suporte demandado para sua real implantação, pode sugerir que os líderes políticos priorizavam as reeleições em detrimento do futuro do desenvolvimento almejado para o Acre, o que, por conseguinte, ajuda a entender a reincidente e elevada rejeição eleitoral.

Talvez o cinismo e hipocrisia em vender uma potencial e comprovada economia ancorada na biodiversidade florestal, tema de deverá ser retomado com força durante a COP30 em Belém do Pará, enquanto direcionava a Capacidade de Governo no apoio à ampliação da pecuária extensiva nas florestas legalizada pelo Zoneamento Ecológico Econômico, explique a rejeição e desilusão do eleitorado.  

Somente para lembrar, pela teoria do Triangulo de Governo elaborada pelo economista chileno Carlos Matus ainda na década de 1970, enquanto o Projeto de Governo estabelece um rumo e a Governabilidade fornece estabilidade política, a Capacidade de Governo se refere a estrutura operacional que cria condições para realizar obras e investimentos, estatais e privados.

Juntos formam o tripé, ou triangulo, que uma vez conduzidos de maneira equilibrada e de acordo com os pesos e contrapesos de uma democracia moderna acarretam o sucesso de um mandato, do contrário, o fracasso.  

Como analisado nos seis artigos anteriores o Projeto Florestania enfatizou o resgate de valores culturais de um acreanismo adormecido, sem decidir por apoiar o Projeto Agronegócio da pecuária extensiva ou o Florestania da exploração técnica e comercial da biodiversidade florestal enquanto estratégia de desenvolvimento econômico para o Acre.

Ao decidir pela generalização inclusiva, onde todos e tudo era possível, cabia o pecuarista e o extrativista, os líderes políticos do Florestania transferiram o conflito entre os dois modelos de ocupação produtiva para a rotina diária dos gestores responsáveis pela Capacidade de Governo.

Isto é, com pouca ou nenhuma orientação política superior, que deveria vir dos governadores e prefeitos eleitos, ficou ao encargo da equipe técnica as decisões de rotina, que no cotidiano favorecem a saída pela floresta ou a pecuária extensiva, pendendo para um e outro lado dos modelos.

Há, contudo, um registro histórico que não jamais estará perdido.

Antes de se chamar Florestania e ser alçado à condição de Projeto de Governo em 1999, um conjunto de seis organizações não governamentais, ou do terceiro setor, ou ainda organizações da sociedade civil, para usar uma denominação menos preconceituosa, discutiram e detalharam vários pontos do que chamavam de saída pela floresta.

Muitos devem recordar que nos idos de 1988, quase dez anos antes do Projeto Florestania, com apoio técnico imprescindível do extinto Centro de Trabalhadores da Amazônia, CTA, as organizações do Acre garantiram a regularização de mais de dois milhões de hectares de florestas, a serem conservadas no formato fundiário de Reservas Extrativistas, ou Resex.

Não à toa a invenção da Resex e a concepção da tecnologia do manejo florestal comunitário são dois reconhecidos legados do Acre para a Amazônia.

Em síntese, dentro da Resex a agricultura de subsistência e a pecuária extensiva não podem ser realizadas para ganhar dinheiro ou com interesse comercial.

A geração de renda na Resex vem, exclusivamente, da exploração técnica e sustentável da biodiversidade florestal, o que, por conseguinte, impede que o desmatamento presente fora da Resex, em seu entorno, se alastre para dentro.

Dessa maneira, com quase metade do território do Acre destinado para Unidades de Conservação, por força da legislação fundiária federal, a comercialização de produtos extraídos da biodiversidade florestal existente na Resex, traria o desenvolvimento econômico estadual que deixaria de depender do nefasto desmatamento exigido pela pecuária extensiva.

Do ponto de vista político, as organizações atuantes no Acre, desde o final da década de 1980, depositaram irrestrito apoio à ampliação da regularização fundiária de terras com florestas para que a conservação da biodiversidade florestal funcionasse como contraponto à criação extensiva de boi, atraindo investimento público, privado e da cooperação internacional.

Naquela época, em 1988, com esforço visionário, se antecipava o que o mercado voluntário, regulado e jurisdicional de carbono poderá fazer acontecer, em 2025. 

Mais que apoio político, um pequeno conjunto de técnicos qualificado pelas organizações migrou para a estrutura de governo, na vã expectativa de que em cargos de direção poderiam investir a Capacidade de Governo para colocar em prática o Projeto Florestania, reduzindo de maneira paulatina o apoio recebido pela pecuária extensiva.

No início até que deu certo.

Nos primeiros cinco anos de uma hegemonia que durou 20, o Projeto Florestania incentivou algumas importantes atividades vinculadas ao uso comercial da biodiversidade florestal.

Em 2001, por exemplo, foi aprovada a Lei 1.426 que instituiu a Política Estadual de Florestas, o que proporcionou a criação da Secretaria Executiva de Floresta e Extrativismo, de início subordinada a Secretaria de Produção e no ano seguinte transformada em Secretaria Estadual de Floresta.

Foi nesse período também que se construiu a fábrica de pisos de Xapuri, que a despeito dos graves e insuperáveis problemas de gestão, era uma indústria automatizada voltada para produção de tacos, fornecendo o necessário alto valor agregado à madeira produzida no manejo florestal comunitário praticado na Resex.

Ainda em Xapuri se instalou a Natex, com repetidos graves problemas de gestão, mas que era uma fábrica de preservativos masculinos, de última geração, que seria abastecida com o látex nativo extraído nas colocações de seringa dos extrativistas que vivem no alto Rio Acre.

Finalmente, foi fundamental o papel dos profissionais que tinham trabalhado antes com a estratégia de desenvolvimento visionária da saída pela floresta, em organizações do terceiro setor, de modo a fortalecer a Capacidade de Governo, preenchendo a lacuna de compreensão e interpretação do Projeto Florestania.

Por sinal, foi com base na experiência adquirida por esses técnicos que tornou possível aprovar os três grandes projetos de financiamentos bancários, considerados decisivos para o modelo de desenvolvimento do Acre segundo os ideais do Florestania, baseado na saída pela floresta.

Mas, isso é outro artigo.    

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