Atualizado pelo autor a partir do resultado da eleição municipal de 2024.
Considerado um dos principais vértices da teoria do Triangulo de Governo elaborada, ainda na década de 1970, pelo economista chileno Carlos Matus, o Projeto de Governo funciona como aglutinador de atores sociais e agentes econômicos em torno de um alicerce e de uma estratégia para organizar uma identidade produtiva estadual de longo prazo.
Isto é, na condição de primeiro vértice do triangulo o Projeto de Governo expressa um modelo de ocupação e de crescimento para a economia estadual que os governantes atuais e os que vierem depois devem consolidar para evitar descontinuidade e garantir o desenvolvimento gradual, mas permanente da região.
Uma condição essencial ao Projeto de Governo é que seja explícito o suficiente para responder perguntas consideradas chave, o que o Projeto Florestania, definitivamente, escorregou de fazer.
Por outro lado, repetindo à exaustão o slogan “Produzir para empregar” um político experiente com passagem e derrotas em várias eleições conquistou a prefeitura de Rio Branco exaltando um Projeto de Governo que tinha na pecuária extensiva sua maior expressão.
Sendo a primeira eleição municipal após a derrocada em 2018 do grupo político que concebeu o Projeto de Governo Florestania, o retorno da pecuária extensiva enquanto identidade produtiva estadual foi uma decisão eleitoral, de certa maneira, bastante óbvia.
A despeito de conter diversas contradições e após ter sido testada e reprovada desde a década de 1970 do século passado, a criação de boi solto no pasto sempre contou com forte aparato estatal de financiamento embora apresente retorno econômico com grandeza questionável para garantir, após 2030, ou nos próximos 20 anos, o desenvolvimento estadual.
Nunca é demais lembrar que o marco temporal representado pelo ano de 2030 possui significado importante para o Acre em particular e para a Amazônia em geral por delimitar o prazo final estabelecido no Acordo de Paris, assinado em 2015, a partir do qual a meta do desmatamento zero deveria ser alcançada.
Com bem menos ênfase na agenda política do produzir para empregar, mas repetindo a defesa do agronegócio da pecuária extensiva como rumo para a economia estadual, a reeleição do atual mandatário da capital do Acre em 2024 não deixou de surpreender por muitas razões.
Duas hipóteses podem ajudar a entender a contundente vitória e merecem destaque.
A primeira que, com 93,5% da população vivendo em área urbana (segundo censo do IBGE de 2022) e se consolidando com a maior taxa de urbanização do Acre, bem acima da média estadual de 74,4%, Rio Branco possui gargalos insuperáveis, por exemplo, na oferta de água potável e tratamento de esgoto.
Contudo, enquanto o saneamento precário não aflige a população em seu cotidiano o caos se estabelece no enfrentamento diário de um transito com vias congestionadas e que demanda intervenção mínima para tapar buraco.
Nesse cenário a atenção do eleitor, tal qual o que acontece em toda cidade de médio porte, se voltou para a construção de um elevado de sentido único, uma obra simplória e aquém da demanda, que a despeito de não ser planejada ajudou a colocar o candidato de volta ao processo eleitoral.
Não custa relembrar que tudo aconteceu quase que por acaso e a gestão municipal tinha avaliação baixa e o candidato, em dezembro de 2023, havia sido excluído do partido político que o elegera e parecia sem chance nas pesquisas eleitorais.
Já a segunda hipótese é um pouco mais complexa por sugerir a permanência de uma rejeição entranhada, como se diz por aqui, ao grupo político que deixou o poder estadual e na capital depois de 2018.
Parece existir uma indisposição forte do eleitor acreano para com as lideranças políticas que ocuparam cargos no período entre 1999-2018. Rejeição que, de maneira inevitável, deságua no Projeto Florestania e nos partidos políticos que se proclamam de esquerda.
Apesar de negada pelos partidos políticos a eleição de 2024 evidenciou com clareza o sucesso da estratégia vitoriosa da reeleição que centrou foco em não deixar o eleitor esquecer que o opositor e segundo colocado, até então com a vitória confirmada por todos os institutos de pesquisa eleitoral, era o mesmo que estava vinculado ao grupo deposto em 2018.
Pouco se discutiu acerca do embate entre Florestania versus Pecuária Extensiva, entretanto tudo indica que o Projeto Florestania, embora possua tanta importância para o futuro do Acre quanto o agronegócio da criação extensiva de boi, recebeu porção considerável da rejeição eleitoral às lideranças ditas de esquerda.
Não por culpa e responsabilidade do eleitor que, em mais de 99% das vezes, acerta em sua decisão. Mas sim, em decorrência de um alto nível de incoerência de movimenta os políticos de todos os partidos sempre cegos quando em busca de votos.
Como explicar, por exemplo, o boom produtivo da pecuária no Acre ter ocorrido em 2007, ou a partir daí, durante e em plena execução da proposta do Projeto Florestania?
Certo grau de hipocrisia presente nas lideranças políticas ligadas ao Projeto Florestania, dispostas a tudo para vencer eleições, inclusive conquistar o impossível apoio dos pecuaristas, ajuda a entender, mas não satisfaz de todo a curiosidade.
Por sinal, falta no cenário político estadual atualmente proposta de identidade produtiva que se contraponha ao agronegócio da pecuária extensiva em que pese a comprovada dificuldade dessa atividade produtiva em gerar e manter riqueza de maneira permanente no Acre.
No frigir dos ovos, os vencedores não precisaram se ater no debate sobre identidade produtiva e não se esforçaram para defender a pecuária extensiva tal como nas eleições anteriores, diante da total ausência de candidatos corajosos a ponto de recuperar a discussão sobre o Projeto de Governo Florestania.
Acontece que quando foi concebido por organizações da sociedade civil, desde o final da década de 1980, o Projeto Florestania traduziu uma ideia de futuro almejado para a sociedade acreana, no qual seria possível obter crescimento econômico com elevação do IDH, sem que com isso se comprometesse a sustentabilidade ecológica no Acre.
Todavia, convenhamos, essa ideia força também é vendida, com bem mais clareza, pelo insustentável agronegócio da pecuária extensiva.
Nem precisa muita familiaridade com essa terminologia para perceber que nesse nível de generalização não há qualquer novidade. Claro que o Florestania deveria ir além dessa vulgarização e ser mais específico, porém como diz o adágio popular “é no detalhe que mora o diabo”.
Quando demonstrou inegável força eleitoral, na eleição de 1998, e durante os primeiros quatros anos de uma hegemonia política que duraria vinte, era possível pressentir fraturas no Projeto Florestania que, com todo risco que a sintetização acarreta, podem ser reunidas em três perguntas:
1 – Qual o limite de desmatamento seria permitido aos pecuaristas, para imprescindível ampliação anual da criação extensiva de gado, até que a consequente destruição da floresta sacrificasse a sustentabilidade ecológica de todo Acre?
2 – Qual a participação ideal no PIB da industrialização de toras de madeira exploradas com tecnologia de manejo florestal na composição do PIB estadual, gerando emprego e renda de maneira permanente todos os anos e mantendo a floresta em pé? e, o mais importante,
3 – De que maneira o potencial econômico da biodiversidade florestal poderia ser inserido na bioeconomia e comercializado com o auspicioso propósito de se tornar, no olhar de quem enxerga de fora, a marca da identidade produtiva do Acre e, no olhar de quem vê de dentro, um dos principais componentes da riqueza dos acreanos?
Porém e infelizmente, responder a essas três perguntas, como se percebeu logo no primeiro mandato, nunca foi e não é prioridade para os líderes políticos identificados com o Projeto Florestania.
Pelo contrário, ao enxergar que a sustentabilidade ecológica preconizada pelo Projeto Florestania dependia da imposição de rigorosos limites à ampliação do desmatamento e ao consequente crescimento do plantel de gado existente na pequena e grande propriedade, ninguém topou o risco de perder o suposto poder político dos pecuaristas.
Não à toa, em várias propriedades dos oito municípios localizados no vale do Rio Acre, região onde se encontra maior potencial para o agronegócio do gado no Acre, o limite legal para desmatamento havia sido ultrapassado bem antes, ainda em meados da década de 1990.
Explicando melhor, o Projeto Florestania se mostrou viável do ponto de vista eleitoral em 1999, graças à decadência econômica ocasionada pela pecuária extensiva e à exposição na imprensa da tragédia representada pelas recorrentes taxas anuais de desmatamento.
Capitaneado por uma nova geração de lideranças, uns poucos com carisma reconhecido pelo eleitor, o Projeto Florestania impregnou o imaginário dos acreanos com uma equação fácil de entender.
De um lado as caras novas na política e de outro a expectativa de progresso com um crescimento econômico duradouro, valorizando a tradição dos seringais e com desmatamento zero, foi o oásis prometido pelo Projeto Florestania.
Contudo, acendendo uma vela para um e para o outro, tentando agradar aqueles que defendiam o manejo da fauna silvestre, da copaíba, das sementes e de outros produtos da biodiversidade florestal, sem, contudo, desagradar os que preferiam o necessário desmatamento da pecuária extensiva, os líderes do Projeto Florestania se perderam em suas próprias contradições.
Mas isso, já é outro artigo.
Atualizado pelo autor a partir do resultado da eleição municipal de 2024.
Para aqueles que esperavam uma diminuição da rejeição ou até mesmo alguma possível recuperação eleitoral do grupo político que governou o Acre por 20 anos, no período entre 1999 a 2018, nas eleições municipais de 2024 a decepção foi arrasadora.
Ao reeleger o atual prefeito, ainda no primeiro turno com uma margem considerável de quase 55% dos votos, o eleitor de Rio Branco fez com que o segundo colocado, herdeiro político do período em que o sucesso do Projeto de Governo denominado de Florestania não tinha adversário, amargasse sua segunda derrota eleitoral acachapante, como gostam de gritar analistas locais pouco iniciados em ciência política.
Aos que esqueceram alguma parte dessa história, o resumo pode ser mais ou menos assim.
Desde o sucesso eleitoral em 1999, que o Projeto Florestania, um neologismo criado para sintetizar um conceito abstrato de cidadania associado ao crescimento econômico ancorado na biodiversidade florestal, venceu todas sucessivas eleições até chegar ao fracasso nos pleitos de 2018, 2020, 2022 e agora em 2024 de forma, no mínimo, constrangedora.
Encontrar as razões para o sucesso eleitoral por vinte anos e os seguidos fracassos pelos últimos oito do Projeto Florestania, não é tarefa fácil. Por isso existe considerável lacuna na publicação de estudos no campo da ciência política que esteja sustentado por base estatística robusta.
Ou que seja capaz de fornecer elementos confiáveis para ajudar a entender o período mais interessante e instigante da história política recente do Acre, iniciado com o fim do nefasto período de ditadura militar.
Ocorre que embora exista um conjunto de fatores a influenciar vitórias e derrotas eleitorais, que vai do carisma e atuação do candidato, passando pelo tamanho e abrangência do grupo de apoio até chegar ao atendimento das duas exigências elementares sem as quais não há candidatura (quantidade adequada de dinheiro e perícia do marqueteiro), o produto de fato, que deve orientar toda propaganda eleitoral e que será submetido ao crivo do eleitor, sempre será um idealizado Projeto de Governo.
Fornecendo identidade estadual e assegurando viabilidade técnica e econômica para ser implantado, o Projeto de Governo levará até as pessoas o imaginário de um futuro diferente, que mudará sua vida e a de todos para melhor.
Por sinal, embora tenha escapado aos analistas de plantão, vale citar um fato curioso observado nas quatro últimas eleições, ocorridas a partir de 2018, em que o Projeto de Governo que defende uma impossível pecuária extensiva sustentável não encontrou opositores, sendo defendido por todo postulante a cargo majoritário, do governador aos senadores e prefeitos.
De imediato e a despeito da surpresa, todos aqueles que se esforçam para entender a política local deveriam se questionar, mesmo que de forma resumida, sobre o que acontecerá com o futuro do desenvolvimento no Acre em decorrência da adoção de um ou de outro Projeto de Governo.
Com um adendo importante.
A pecuária extensiva é inviável do ponto de vista ambiental e ecológico, uma vez que o capim imprescindível ao pastoreio do gado não cresce na sombra, embaixo das árvores, o que transforma o desmatamento, ou melhor, a retirada das árvores e de suas sombras, condição indispensável para ganhos de escala e viabilidade econômica.
Por sinal nunca é demais repetir. Toda e qualquer atividade produtiva no meio rural amazônico que depende de desmatamento para ocupar o lugar da floresta contraria princípios básicos de sustentabilidade reconhecidos em todo planeta.
Todavia, ninguém se preocupou em opor Florestania versus Pecuária extensiva como identidade produtiva a ser perseguida pela sociedade acreana para auferir e distribuir riqueza de maneira permanente, com aquela condição inegociável: jamais aumentar o desmatamento.
Contudo, voltando às últimas eleições, parece que de um momento para outro, no amanhecer do dia seguinte, sem que exista alguma justificativa inteligente, plausível e verificável por estatísticas, do nada, todos os políticos passaram à defesa do Projeto Agronegócio enquanto que, por outro lado, o Projeto Florestania perdeu seus defensores de maneira irreversível e ao que tudo indica, para o resto da enfadonha história politica e econômica do Acre.
Uma explicação, frágil diga-se, para o apoio incondicional ao agronegócio por 100% dos candidatos a cargo majoritário sugere que, em uma vã tentativa de escapar do isolamento e de uma previsível derrocada eleitoral, os políticos e gestores por várias razões rejeitados, esperavam transferir o desgaste político para o Projeto Florestania, que, em tese, estaria mais vinculado a certas lideranças que a outras e, sobretudo, distante de uma rejeição geral aos partidos políticos ditos de esquerda.
Enquanto isso a crescente rejeição aos políticos que ocupavam cargos importantes, intensificada em especial a partir do boom da pecuária no Acre em 2007, se misturou com a negação do Projeto Florestania enquanto modelo econômico mais adequado para a realidade ecológica do território do Acre.
Os resultados mostraram que a rejeição àqueles líderes políticos foi bem maior do que o significado eleitoral do Projeto Florestania, com o agravante de que a defesa do Agronegócio da pecuária extensiva desnudou a total falta de proposta e ausência de rumo para o desenvolvimento do Acre dos grupos políticos de direita, de centro e de esquerda na disputa eleitoral.
Não à toa, desde 2007 as estatísticas da pecuária extensiva no Acre mostram o impressionante e ininterrupto crescimento do plantel de gado que ultrapassou cinco milhões de animais em 2024.
Note-se que, por mais inusitado que possa parecer, o boom da pecuária extensiva no Acre aconteceu durante e a partir do terceiro mandato do grupo político que obteve inquestionável sucesso eleitoral na defesa do Projeto Florestania enquanto identidade produtiva estadual alternativa à pecuária extensiva.
Como assim?
Uma conclusão simples e resumida deixa claro que, de maneira explícita ou não a pecuária extensiva contou com apoio dos defensores do Projeto Florestania na tentativa de estancar uma crescente rejeição no terceiro mandato (2007-2010) e que chegou ao pico durante o quinto e derradeiro mandato entre 2015-2018.
Afinal, se todos os políticos se igualaram na única proposta de futuro para a economia no Acre e sendo que a hegemônica pecuária extensiva se mostra, desde a década de 1970, incapaz de suportar o desenvolvimento o que continua pesando na decisão do eleitor é a rejeição.
Ou, como no dito popular: importa mais quem pegou a Balsa e não quem entrou no Palácio.
Uma rejeição eleitoral, nunca é demais repetir, jamais observada na história política do Acre, que, por sinal, está repleta de casos incríveis de políticos com sucesso eleitoral estrondoso que, sabe-se lá por quais razões, foram esquecidos em uma amarga e eterna rejeição.
E que continua.
No caso da eleição de 2024 para prefeito, o esquecimento e paulatino apagamento dos ideais do Projeto Florestania não foi suficiente para reverter indisposição do eleitor com os seus antigos defensores.
Há ainda um fato novo a se verificar. Além do apoio à pecuária extensiva o segundo colocado decidiu, por óbvio pensando reverter o nível de rejeição, mudar seu grupo político de apoio, na expectativa de que um novo partido político seria suficiente para fornecer uma nova e mais competitiva perspectiva eleitoral, o que não aconteceu.
Como afirma nosso antigo manual de política não existe afastamento mais ou menos quando se trata de rejeição aos políticos.
Mudar de partido político parece ter sido pouco para o candidato derrotado se mostrar como uma alternativa eleitoral renovada e distante dos antigos aliados, alguns poucos ainda identificados com as ideias do Projeto Florestania.
É possível, contudo, que o maior erro tenha sido manter coligações com os partidos e o grupo político autodenominado de esquerda.
Ao se orgulhar de que o desligamento do antigo partido político teria se realizado sem desavenças, o candidato derrotado fez crescer em igual proporção sua proximidade com os políticos rejeitados o que facilitou a estratégia do candidato reeleito centrada em não deixar o eleitor esquecer-se do vínculo do adversário com uma suposta ideologia socialista e comunista.
Enfim, negar o Projeto Florestania sem colocar nada no lugar tem feito com que os candidatos desde 2018 se nivelem pela mesmice de propostas em relação a uma identidade produtiva estadual e um modelo de economia baseada no impossível: uma pecuária extensiva que não depende do desmatamento.
Por outro lado o Projeto Florestania, embora hegemônico por quase 20 anos sob a justificativa de maior viabilidade econômica, sustentabilidade ecológica e adequação à cultura produtiva do extrativismo florestal, foi esquecido em um canto qualquer.
Entretanto, deixando uma pergunta bem inconveniente:
Teria a sociedade no Acre abandonado a expectativa de uma economia estadual moderna, baseada na biodiversidade florestal como única alternativa para o desmatamento zero e se voltado para a antiga e ultrapassada pecuária extensiva que mantem o desenvolvimento do Acre estagnado desde a década de 1970?
Para o período que cobre os primeiros dezoito anos desse século a resposta seria um grande NÃO. Da mesma forma que para o período após 2018 um grande SIM.
Finalmente, desde o início de sua implantação, o Projeto Florestania, em que pese a enorme popularidade, no Acre e em Brasília, conseguida com farto investimento em publicidade governamental, se mostrava carente de objetividade o que, todos haverão de convir, tornaria qualquer tentativa de definição pouco precisa.
Acontece que ao incluir aspectos culturais, econômicos, sociais, ecológicos e políticos o neologismo Florestania não conseguiu escapar à costumeira e perigosa generalização que, como mostra farta literatura em ciência política, pode proporcionar algum sucesso eleitoral, mas, em contrapartida, fracassará na concertação do pacto social para garantir sua continuidade e, o mais importante, um futuro diferente para a população do Acre.
Por sinal, analisando com o devido distanciamento, tudo indica que o propósito da equipe que concebeu o neologismo Florestania foi o de agregar todas as correntes de pensamento existentes no Acre, de modo a firmar uma frente eleitoral para manter o comando do governo estadual para sempre.
Como afirma a ciência política o Projeto Florestania foi antes de tudo um Projeto de Poder.
Partindo dessa diretriz, na qual todos os modelos de economia estadual são aceitáveis ao contribuir para conquista do governo, se reduziria o risco da perda de apoio político.
Da mesma maneira que tornar mais claro, objetivo e específico o conceito de Florestania acarretaria, de outra banda, a exclusão de um ou outro ator social ou agente econômico, o que aumentaria em igual proporção o risco de uma derrota eleitoral.
E perder eleições, pode desculpar, era inadmissível para os líderes políticos do Projeto Florestania.
Assim, a generalização tornou possível manter por um bom tempo uma frente ampla, que abarcou todos os espectros políticos incluindo partidos de esquerda, de centro e de direita.
Ninguém ficou fora do bônus eleitoral. O Projeto Florestania escancarou a porta para aliciar todos e olha que foram muitos, com a condição de não contestar seus líderes políticos.
E deu certo.
É inegável que em certo momento da história política do Acre, a sociedade formou uma maioria de eleitores, aglutinados em torno de líderes políticos jovens que inspiravam as pessoas com a novidade trazida pelo Florestania.
Naquele momento histórico parecia que nada poderia dar errado, mas deu!
Claro que se trata de uma discussão deveras complexa e para ajudar a entender esse período único da incipiente política no Acre, nada mais prudente que resgatar um pouco dos clássicos.
Dentre os vários estudos especializados na análise de processo político e de governo, consagrados em extensa literatura, a teoria sobre Planejamento Estratégico Situacional, elaborada pelo economista chileno Carlos Matus ainda na década de 1970, pode elucidar alguns pontos importantes para entender o sucesso e fracasso do Projeto Florestania de governo no Acre.
Com a experiência adquirida na assessoria de Salvador Allende, que governou o Chile de 1970 a 1974, Matus concebeu o que denominou de Triangulo de Governo, um conjunto de três sistemas considerados determinantes para que uma nova força política conseguisse satisfazer as demandas de curto prazo da população ao mesmo tempo em que criava bases econômicas para uma identidade produtiva estadual sustentável e de longo prazo.
Matus defendia que sem prevalência ou importância diferenciada, cada vértice deveria ser analisado em separado desde que, contudo, caminhassem juntos de modo a manter o equilíbrio.
Resumindo, o inevitável fracasso do governo ocorreria se apenas um dos três vértices deixasse de funcionar.
Assim, Matus definiu o Triangulo de Governo composto da seguinte forma:
Projeto de Governo – Delimita um rumo ou uma identidade produtiva e ideia força que aglutina os atores sociais e agentes econômicos em torno de um modelo para o desenvolvimento permanente da região no longo prazo, ultrapassando por óbvio o horizonte temporal de quatro anos de mandato;
Capacidade de Governo – Representa o somatório da infraestrutura existente nos órgãos de governo incluindo a equipe técnica disponível e com competência suficiente para tornar realidade o Projeto de Governo, considerando ano após ano a demanda imediata e futura da sociedade; e, finalmente,
Governabilidade – Reúne as forças políticas e eleitorais cujas características e concepções ideológicas permitem solidificar o compromisso com o Projeto de Governo, fornecendo o lastro social requerido para evitar ruptura, retrocesso e, o mais grave, descontinuidade.
Em sua célebre obra “Adeus Senhor Presidente”, Matus faz uma analogia ao contar a história de um político que sai, pela porta dos fundos, da vida pública sendo para sempre esquecido após fracassar no seu mandato.
Desiludido, enquanto recebe o adeus melancólico de assessores próximos, o político revisa suas decisões enquanto exerceu a presidência para entender as razões da péssima avaliação de seu governo.
Para os que leram o livro um alerta: qualquer semelhança com a realidade política do Acre no pós-2018 não será mera coincidência.
Esse é o desafio iniciado aqui e em outros nove artigos.
Ajudar a compreender a raiz do problema que acarretou o fracasso do Florestania, um projeto político, de poder e eleitoral que pareceu, até 2018, sólido e invencível.
Claro que algumas pedras dessa barragem, com perdão do duplo sentido, começaram a ruir bem antes. Encontrá-las será crucial para história política do Acre.
Apesar de os muitos desesperados continuarem aguardando pelo fim do mundo no curto prazo, três acontecimentos importantes colocaram a Amazônia no rumo da sustentabilidade em 2025.
O primeiro e mais importante deles, como não poderia ser diferente, foi a redução expressiva e por quatro períodos consecutivos na taxa anual do desmatamento, medida desde 1988 pelo conceituado Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, o Inpe.
Tudo indica que conseguimos superar de uma vez por todas a tendência de elevação, que se arrastou durante o período nefasto de 2019 a 2022 em que o governo federal teimava em brigar com o mensageiro, no caso o Inpe, e não em conter o desmatamento.
Por pouco a taxa, inclusive, não fica abaixo dos 5.000 Km2, se igualando ao simbólico ano de 2012 que apresentou a menor taxa da série histórica de estatísticas publicadas pelo Inpe, quando se destruiu uma área de 4.751 Km2 de florestas.
Conseguir uma redução desse calibre não é tarefa fácil e o governo federal merece as congratulações, a despeito de o esforço ter sido concentrado no investimento em fiscalização e no combate, por óbvio, ao desmatamento ilegal.
Um cenário bem mais alvissareiro será obtido quando se conseguir reduzir a atração de investimento representada pela pecuária extensiva praticada a partir do desmatamento da floresta existente em terra com situação fundiária legalizada.
Se por um lado a expansão da pecuária extensiva realizada sob o desmatamento ilegal pode ser contida com o aparato de fiscalização (federal, estadual e municipal), a atratividade do investimento na pecuária extensiva em terra legalizada continua sendo muito superior a qualquer outra atividade produtiva que conserva a floresta em pé em terra legalizada.
Não à toa, o fim do crédito subsidiado, via FNO e gerido pelo Basa, para a pecuária extensiva pode significar o divisor de água para chegar, um dia, ao desmatamento zero.
E não adianta. Não há plano b.
Somente o aumento da competividade da biodiversidade florestal frente à pecuária extensiva, por sinal, praticada com baixíssima produtividade, possibilitará chegar ao desmatamento zero da Amazônia.
O segundo acontecimento importante foi o sucesso da realização da COP30 em Belém do Pará.
Além de colocar o Brasil no rol das lideranças dos países para a política internacional de meio ambiente, nossos diplomatas demonstraram capacidade única de articulação e de capacidade de alcançar resultados.
Sem dúvida poderíamos ter avançado mais na meta do desmatamento zero da Amazônia, entretanto conseguimos ampliar de maneira considerável a quantidade de dinheiro a ser investido em uma transformação produtiva rumo à economia de baixo carbono.
Além disso, o país avançou de maneira significativa na estruturação do mercado de carbono, quer seja o voluntário, regulado ou jurisdicional.
Cada vez mais os governadores da Amazônia se dão conta de que o recurso obtido com o mercado jurisdicional de carbono representa mais que um importante ativo financeiro, fornece também ganho de reputação incomparável à sua administração.
Indicadores de sustentabilidade foram definidos para um rol de atividades produtivas que a partir de agora precisam ir além do discurso verde e se enquadra em um conjunto de métricas para serem consideradas sustentáveis e assim acessar o mercado de carbono.
Por fim e não menos importante, o terceiro acontecimento excepcional foi a aprovação da Lei Geral do Licenciamento Ambiental, o que poderá agilizar, por exemplo, a construção de hidrelétricas na Amazônia aumentando o estoque primordial de água e melhorando a umidade relativa em alguns locais.
Um novo horizonte se apresenta para a Amazônia a partir de 2026 e o futuro com desmatamento zero está cada vez mais próximo.
Embora as sociedades, quase todas mundo afora, concordem em perder pontos na métrica da sustentabilidade ambiental para aumentar a riqueza, na imensa maioria dos empreendimentos a riqueza gerada não compensa os custos requeridos para restaurar os ecossistemas degradados, de modo a retornar ao nível de sustentabilidade anterior à geração da riqueza.
E a razão é simples, a conta da sustentabilidade não fecha e o prejuízo costuma assustar.
De modo a fugir dessa equação de sustentabilidade visivelmente precária, que funciona no vermelho desde o final do século passado, ganha expressão nos meios acadêmicos e científicos o que se convencionou chamar de “solução baseada na natureza”.
Em síntese, a lógica seria mais ou menos assim.
Se e quando uma atividade produtiva, ao invés de trazer perda de sustentabilidade ecológica em determinada região promover ganhos econômicos e de sustentabilidade seria o melhor dos mundos.
Exemplos desse tipo, por mais que pareçam contos de fadas, são comuns na Amazônia.
A começar pelo ciclo econômico da borracha que do final do século dezenove até 1911, elevou a riqueza ou o Produto Interno Bruto da região a níveis nunca depois superados.
Computados os elevados ganhos econômicos, a extração da borracha nativa envolvia ganhos em sustentabilidade pela conservação necessária das árvores e da floresta no entorno exigida pelo manejo da Hevea Brasiliensis realizado pelo produtor extrativista ou seringueiro.
Atividade econômica considerada ganho-ganha (que gera riqueza e amplia a sustentabilidade) do tipo especial da extração de borracha se repete na produção da polpa de açaí, no manejo de cacau nativo, na coleta de sementes de árvores de mogno, cedro… e em mais um tanto de possibilidades.
Não pode haver dúvida, em teoria diga-se, que uma organização produtiva desse tipo, nos moldes de um Cluster do Ecossistema, traria mais competitividade para Amazônia que um boi solto em quase dois hectares do pasto que ficou no lugar das árvores.
Importante frisar que é em teoria, posto que a bibliografia especializada em vantagem competitiva apresenta e discute as experiências dos aglomerados econômicos nas indústrias tradicionais.
Na verdade, foi através do estudo da indústria tradicional, incluindo a indústria da pecuária extensiva, que foi possível sistematizar e conceber os pressupostos da teoria da vantagem competitiva para as soluções baseadas na natureza.
O desafio proposto aos especialistas em negócios, administradores e demais pesquisadores agora consiste em adequar a robusta teoria da competitividade regional à realidade do ecossistema amazônico, dominado por uma floresta tropical de grande biodiversidade, mediante a esquematização dum cluster do ecossistema, ou seja, a reunião de diversos setores industriais que tenham em comum a origem de sua matéria-prima, como primeiro elo da cadeia produtiva o interior do ecossistema.
Um desafio, claro, gigantesco por várias razões, duas merecem destaque.
A primeira é que não existe, na Amazônia, nenhum cluster já estabelecido para ser diagnosticado, o que seria o ideal.
Talvez o empreendimento regional que mais se aproxime da ideia de cluster seja a zona franca de Manaus, que, entretanto, não guarda nenhuma relação com o cluster do ecossistema e nisso reside a segunda razão da dificuldade do desafio.
Ou seja, a transferência de formulações elaboradas “sob medida” para indústrias tradicionais do setor elétrico eletrônico, ou têxtil, ou ainda da química fina, e até mesmo da pecuária extensiva, para um setor hipotético inexistente em termos de mercado e que jamais foi estudado no seu conjunto sob a ótica comercial: a indústria do ecossistema.
Pode parecer uma lógica complexa, difícil até de imaginar e assim por diante, mas o mercado de carbono que se anuncia comprova que impossível não é!
Há mais de uma década o processo de licenciamento ambiental brasileiro vem sendo questionado em decorrência de duas constatações amplamente comprovadas em teses de doutorado e estudos variados.
A primeira constatação diz respeito à lista, às vezes interminável, de exigências de estudos para elaboração de um relatório, conhecido pelo acrônimo EIA/RIMA, que são incluídos sem qualquer cerimônia a cada vez que o processo de licenciamento muda de mesa e de analista ambiental no órgão de licenciamento ambiental federal ou estadual.
A segunda constatação se refere aos exorbitantes custos do processo como um todo, quer seja aquele necessário ao atendimento da lista interminável de estudos quer seja o custo relativo ao tempo de tramitação.
Por sinal, talvez esteja aí, no prazo indefinido, de fato, o fator que mais afugenta os investidores que insistem em aplicar recursos nos dois empreendimentos mais odiados pelos analistas ambientais do IBAMA e de vários órgãos estaduais: a construção de hidrelétricas e a exploração de petróleo.
Ambos os investimentos, por sinal, que exigem a captação de um volume astronômico de dinheiro e que criam, igualmente, uma quantidade exorbitante de empregos gerando renda e desenvolvimento onde quer que aconteçam.
Com prazo de resposta indefinido, o órgão ambiental não publica suas ordens deixando o investidor à espera e, claro, à deriva.
Com relação às hidrelétricas há ainda o inconveniente da estupidez que considera o uso da força das águas para gerar energia elétrica uma tecnologia suja equivalente à queima de diesel, devido à necessidade da barragem dos rios.
Nessa toada, cometem o despropósito de contaminar com preconceitos a construção de lagos que estocam um recurso precioso, que precisa e deve ser mantido em estoques cada vez maiores: a água.
Com sabedoria, no início dessa legislatura e após uma discussão que levou quase vinte anos, ainda em março os congressistas em Brasília aprovaram um novo marco legal com o objetivo de renovar o processo de licenciamento de modo a torná-lo menos oneroso, mais objetivo e, o mais importante, com prazos definidos.
Uma proposta que teve origem em parlamentares representantes do partido político do próprio governo federal que, após a aprovação com ampla maioria pelos Deputados Federais e Senadores, em uma atitude de exagerado populismo resolveu vetar mais de 60 dispositivos, descaracterizando a renovação do licenciamento ambiental no país.
Com apoio incompreensível de ambientalistas e de uma imprensa quase sempre fora de contexto, o projeto foi taxado como indutor de flexibilização, de afrouxamento e outras idiotices desse nível.
Aplausos não faltaram aos vetos e o Congresso Nacional teve que demonstrar uma rara sensatez ao derrubar cada um deles, de maneira democrática, determinada, acertada e incontestável.
Incompreensível a postura dos partidos de sustentação do próprio governo federal ao votar contra a Medida Provisória que retomou o imprescindível instrumento da Licença Ambiental Estratégica, justamente para acelerar a exploração de petróleo e a construção de hidrelétricas, proposta pelo próprio governo federal. Lastimável!
Em raros momentos da política brasileira o Congresso contrariou o Poder Executivo com tamanha sensatez e força de propósito.
Acertaram os parlamentares, ganhou a política nacional e o país saiu fortalecido, infelizmente, os contrários à democracia devem ir ao STF. Que vão!
Por muito pouco o desmatamento na Amazônia computado pelo infalível Instituto Nacional de Pesquisa Espacial, Inpe, em 5.796 km² para o período entre primeiro de agosto de 2024 a 31 de julho de 2025 não estabelece uma nova taxa mínima.
Desde 2012, único ano em que se desmatou uma área inferior a 5.000 km2 na Amazônia, que o governo federal tenta, sem sucesso, manter a quantidade de floresta destruída anualmente dentro dessa margem.
Dessa vez chegou perto e o resultado divulgado pelo Inpe às vésperas da COP30 em Belém foi recebido com festa e, claro, colocou o Brasil no holofote internacional ao demonstrar que é possível, com fiscalização, controlar e até chegar ao desmatamento zero na Amazônia.
Contudo e infelizmente, a exploração de petróleo no mundo e sobretudo na parte brasileira da margem equatorial, novamente infelizmente, com forte apoio dos diplomatas e políticos colombianos ganhou maior espaço nas discussões e na tentativa de se propor uma agenda de redução do uso de combustível fóssil em todo planeta.
Um desperdício de tempo, posto que a redução do uso de petróleo não deverá ser obrigatório por uma decisão de conferências da ONU, uma vez está na ponta do consumo a chave para reduzir a produção.
Há um debate, interminável diga-se, acerca das prioridades em relação aos impactos do aquecimento do planeta e os defensores da adaptação demonstraram bem mais argumentos que aqueles que insistem na prioridade da transição.
Para quem, como esse articulista, tem dificuldade de diferenciar as rotas de superação da crise ecológica, por adaptação entende-se o investimento de muito dinheiro para que os países mais afetados pelo aumento da temperatura e, em especial, pelo aumento do nível das marés, como as ilhas do oceano pacífico, consigam se adaptar a um mundo mais quente e alcançar melhor nível de desenvolvimento humano.
Pelo lado da transição estão os apocalípticos que acreditam no fim do planeta em algum momento no médio prazo se o sistema econômico mundial não for alterado, esquecendo-se que, como afirmou o filósofo, que é mais fácil o planeta acabar que o capitalismo ter fim.
A cada hidrelétrica construída se reduz a dependência do petróleo para gerar energia elétrica, da mesma forma que a cada carro elétrico colocado no mercado menos gasolina será comprada e assim por diante.
Será dessa maneira que o preço do petróleo cairá e a produção seguirá o mesmo caminho, contudo, sem tirar ou secar o dinheiro do petróleo que abastece o dreno de recursos financeiros destinados para a adaptação dos países mais afetados pelo calor que está vindo.
Não por acaso o desmatamento zero da Amazônia é ponto central para reduzir o consumo de petróleo uma vez que a substituição das florestas por cultivos e em bem maior proporção pelo boi solto no pasto promove o mercado do óleo combustível.
Foi um sucesso a redução do desmatamento na Amazônia em 2025 e pelo quarto ano consecutivo, o que pode, se tudo der certo e os gestores ambientais do governo federal não se distraírem com petróleo, configurar uma tendencia que colocará a taxa de desmatamento dentro da margem do histórico ano de 2012.
Foi um sucesso a COP30 e o governo federal reforçou a liderança brasileira para a política internacional de meio ambiente.
Estão, por óbvio, o governo do Pará e a Prefeitura de Belém de parabéns.
Todo economista de tendência comunista, socialista ou liberal reconhece que a sociedade estará disposta a baixar a régua da sustentabilidade ambiental na medida em que o ganho econômico, ou a riqueza gerada, seja compatível com os custos de recuperação da perda de sustentabilidade.
Traduzindo, em um exemplo rápido, seria mais ou menos o que o povo do Acre aceitou pelo voto, quando trocou o Projeto Florestania pelo Projeto Agronegócio, ainda no decorrer da segunda década desse século, como modelo econômico ideal para o Acre melhorar o IDH e ampliar seu Produto Interno Bruto.
Naquele momento, a despeito de nunca ter sido de fato indagado, a resposta dos acreanos foi concordar em enfrentar os efeitos nefastos das taxas anuais de desmatamento e das queimadas, em razão dos benefícios econômicos trazidos pela pecuária extensiva.
Por óbvio, em nenhum momento os projetos para o futuro do Acre foram julgados ou discutidos com a devida responsabilidade e clareza, quer seja por algum partido político, candidato a governador ou ao parlamento, ou liderança política com ou sem mandato, nunca em qualquer momento.
Entretanto, independente de haver ou não alguma discussão, a pecuária extensiva predomina em toda extensão rural do território acreano, da beira dos rios à margem das rodovias, com uma tendência de crescimento que impressiona, em especial após o boom da pecuária extensiva ocorrido em 2007.
Ou, melhor ainda, jamais se discutiu que a perda de sustentabilidade ecológica no desenvolvimento estadual, decorrente de cada hectare de floresta destruída, poderia ser compensada usando o dinheiro da arrecadação de impostos trazida pelo gado na restauração florestal da mata ciliar do Rio Acre, por exemplo.
Contudo, em uma conclusão simplista, mas não simplória, pode-se arguir que desde que uma perda em sustentabilidade ecológica equivalente a 500 hectares de floresta por ano, poderia, em contrapartida, ser compensada com a destinação compulsória e também anual de 20 milhões de reais em restauração florestal.
Resumindo, a perda em sustentabilidade ecológica devido ao desmatamento deveria ser equilibrada em igual medida com o investimento em restauração florestal e o consequente ganho de sustentabilidade ecológica.
Porém e infelizmente, além de não ser clara, explicita e quantificada a perda em sustentabilidade, não há garantia alguma de que o lucro da pecuária extensiva poderá, um dia, ser revertido para a sociedade na restauração de mata ciliar.
Ou seja, todo esse raciocínio, ainda se resume atualmente a um devaneio solitário do autor, todavia nem sempre foi assim.
Em poucos momentos durante a história do Acre, existiu oportunidade para discutir os benefícios do crescimento econômico proporcionado pelo agronegócio da pecuária extensiva em relação aos custos devidos à perda de sustentabilidade ambiental pelo indispensável desmatamento.
Um desses momentos aconteceu nos idos da década de 1980 do século passado, quando as primeiras Reservas Extrativistas do país foram inventadas e criadas no Acre.
Naquela época, ficou claro aos envolvidos com o experimento das Reservas Extrativistas, que o modelo de desenvolvimento baseado na biodiversidade florestal embora encantasse o mundo requeria investimento elevado e permanente quase impossível de acontecer.
Agora, na COP30 que vai acontecer em Belém do Pará em novembro, haverá outro desses momentos, para os acreanos resgatarem os ideais da década de 1980.
Importantes autores discutiram o processo de ocupação produtiva do país fornecendo especial destaque à dificuldade do colonizador português para conseguir superar os desafios impostos pelo ecossistema florestal da Amazônia.
Dentre aqueles que mais avançaram nesse debate, Caio Prado Júnior e Sérgio Buarque de Holanda conseguiram esmiuçar de maneira excepcional o eterno dilema na definição de um modelo apropriado de ocupação do meio rural amazônico.
Com sensível capacidade de observação delimitaram, com inegável precisão, a impraticável aplicação conjunta da estratégia de desenvolvimento baseada na pecuária extensiva e na exploração sustentável da biodiversidade florestal.
Embora hoje pareça óbvio que na mesma área de terra de onde se extrai o látex da seringueira não é possível cultivar o capim, posto que o plantio dependa do solo desnudo e a indispensável retirada das árvores que fornecem a borracha no seringal nativo, naquela época distinguir entre um e outro modelo não era tarefa fácil.
Não à toa o embate entre a participação da pecuária extensiva versus biodiversidade florestal na composição do PIB regional tem sido absurdamente vencido pela criação de boi, desde as vitórias da biodiversidade florestal representadas pelo ciclo econômico da borracha encerrado em 1911.
Falando de outra maneira, o embate desmatamento versus conservação da floresta tem sido vencido de modo assustador pelo primeiro, sempre realizado conforme previsto na legislação e, o mais grave, com apoio indispensável de mais de 90% do montante destinado ao crédito rural, liberado pelo Basa na Amazônia.
Como bem antecipou Caio Prado Júnior, somente por meio do estudo minucioso da história da formação social e econômica brasileira, será possível o estabelecimento de políticas de macroeconomia com maiores chances de acerto.
Aliás, numa de suas principais obras, História do Desenvolvimento, o autor realizou uma retrospectiva da ocupação social e econômica do Brasil, desde a colonização portuguesa até o processo de industrialização, ressaltando as características da aventura colonizadora portuguesa.
Com relação à Amazônia o diagnóstico não poderia ser mais atual e determinístico, vejam:
No vale amazônico os gêneros de atividade se resumem praticamente a dois: penetrar a floresta ou os rios para colher os produtos ou capturar o peixe; e conduzir as embarcações que fazem todo o transporte e constituem o único meio de locomoção. Para ambos estava o indígena admiravelmente preparado. A colheita, a caça, a pesca, já são seus recursos antes da vinda do branco: como pescador, sobretudo, suas qualidades são notáveis, e os colonos só tiveram neste terreno que aprender com eles. (Prado Júnior, 2.000, p70).
Em complementação, as características peculiares dos colonos portugueses que dependiam dos indígenas para compreender a complexidade presente na biodiversidade florestal da Amazônia, são detalhadas com maestria na célebre obra Raízes do Brasil, de Sérgio Buarque de Holanda.
O gosto por recompensas e prêmios individuais por demonstração de coragem é outra peculiar característica da sociedade portuguesa à época da colonização, afirma o autor. Contudo, continua, se tais características não moldam exatamente uma índole moral ideal, o fato é que distinguiram os portugueses como admiráveis conquistadores.
Como “pioneiros da conquista do trópico para civilização, tiveram os portugueses, nessa proeza, sua maior missão histórica. E sem embargo de tudo quanto se possa alegar contra sua obra, forçoso é reconhecer que foram não somente os portadores efetivos como os portadores naturais desta missão” (Buarque de Holanda, 1995, p43).
A bem da verdade, a “exploração dos trópicos não se processou por empreendimento metódico e racional, não emanou de uma vontade construtora e enérgica: fez-se antes com desleixo e certo abandono. Dir-se-ia mesmo que se fez apesar de seus autores. E o reconhecimento deste fato não constitui menoscabo à grandeza do esforço português” (Buarque de Holanda, 1995).
Não obstante, quando houve necessidade, os portugueses, a seu modo, se prenderam à terra para torná-la produtiva. De fato, a tarefa da colonização exigiu dos portugueses – mais que apreço por aventuras – adaptação às atividades de produção.
E, finalizando, no momento em que foi necessário se adaptar às complexidades do ecossistema amazônico para moldar uma produção florestal na dimensão da riqueza gerada durante o ciclo econômico da borracha, Sérgio Buarque presta sua reverencia à contribuição inigualável dos jesuítas, vejam:
Foram ainda os jesuítas que representaram, melhor de que ninguém, esse princípio da disciplina pela obediência. Mesmo em nossa América do Sul, deixaram disso exemplo memorável com suas reduções e doutrinas. Nenhuma tirania moderna, nenhum teórico da ditadura do proletariado ou do Estado totalitário, chegou sequer a vislumbrar a possibilidade desse prodígio de racionalização que conseguiram os padres da Companhia de Jesus em suas missões. (Buarque de Holanda, 2001, p39).
Não havia e não há alternativa, o desmatamento zero deve acontecer de imediato e a saída para o desenvolvimento é pela floresta.
Embora o foco dos debates na COP30, a conferência da ONU que está acontecendo em Belém, capital do Pará, deve permanecer no alcance da meta inescapável do desmatamento zero da Amazônia, o pano de fundo do debate será as estratégias de desenvolvimento até então adotadas na região.
Após a riqueza, jamais repetida diga-se, obtida até 1911 com a extração de látex e exportação de borracha para abastecer a indústria automobilística internacional, a região foi, em especial após a segunda guerra mundial, submetida a um conjunto de experimentos voltados para reativação de sua estagnada economia.
Enquanto um processo de industrialização forçada e que, por sinal, tem data para terminar moldava o meio urbano com a Zona Franca de Manaus, projeto que a despeito das críticas foi bem sucedido ao proporcionar a estruturação de uma metrópole moderna com uma população de mais de dois milhões de habitantes, no meio rural a pecuária extensiva se consolidou.
Outras capitais e algumas metrópoles passaram por processo semelhante com o modelo Zona Franca ou Zona de Exportação, se multiplicando na área urbana, sem, contudo trazer a esperada industrialização.
De outra banda, no setor primário da economia a pecuária extensiva se tornou hegemônica estando presente em mais de 80% das propriedades rurais e, ao mesmo tempo, sendo responsável por mais de 90% do desmatamento legalizado, e também o ilegal, que ocorrem todos os anos.
Alterar a dinâmica estabelecida pelo ciclo econômico da pecuária extensiva é, por óbvio, o maior desafio a ser superado na região se o desmatamento, novamente legal e ilegal, zero for a meta prioritária a ser alcançada.
De maneira resumida, significaria criar condições para que o produtor rural consiga auferir a mesma renda que obtém com a criação do boi solto no pasto praticando outra atividade produtiva que mantenha a floresta no solo onde seria cultivado o capim.
Deixando de lado o preconceito com a madeira, atualmente o produto de maior valor agregado existente na biodiversidade florestal da Amazônia, seria necessário implantar uma lista de projetos separados em dois grandes grupos: plantio consorciado de árvores e culturas anuais em Sistemas Agroflorestais e o manejo florestal técnico da floresta nativa.
Somente assim, a vantagem competitiva do ecossistema natural da região poderia ser superior e prevalecer ao desmatamento para cultivo de capim, quando uma única espécie substitui a biodiversidade nativa.
Entretanto, no outro lado da equação, o estabelecimento de vantagens competitivas por meio de um cluster do ecossistema nativo da Amazônia, pressupõe a existência dum capital humano bem diferente do atual, que consiga dominar as técnicas de extração comercial e sustentável dos produtos explorados nesse mesmo ecossistema florestal nativo.
Finalmente, a complexidade da biodiversidade florestal presente no ecossistema da Amazônia impõe um modelo diferenciado de exploração, que deve se voltar para a potencialização da diversidade em si mesma, de modo a fazer aumentar a biodiversidade ao invés de priorizar a produtividade isolada de uma ou outra árvore ou espécie florestal que em determinado momento adquire maior valor comercial.
Seringueira, açaí, pimenta longa, cacau e palmito são exemplos de espécies nativas da Amazônia que alcançaram valor comercial expressivo, foram domesticadas e levadas para serem cultivadas em outros lugares onde suas pragas ainda não existem.
Concluindo, na COP30 o esforço deve se concentrar nas possibilidades que a Amazônia possui para superar o decepcionante ciclo econômico da pecuária extensiva.
Não faltaram críticas à COP29 de 2024, realizada em Baku, no Azerbaijão, e para a COP28 de 2023, realizada em Dubai, nos Emirados Árabes, por priorizarem a discussão sobre a continuidade do uso do petróleo no planeta.
Ativistas alegavam que os países associados à Organização dos Países Produtores e Exportadores de Petróleo, a poderosa OPEP, jamais deixariam que fossem aprovadas deliberações que reduzissem o uso do mais importante combustível fóssil para a humanidade.
Estavam em grande medida errados, as duas COP’s anteriores apresentaram avanços importantíssimos sendo que pela primeira vez se colocou o guiso no pescoço do gato, como no adágio popular.
A despeito de contrários ou não, as deliberações finais deixaram clara a determinação dos países em priorizar fontes consideradas limpas, em especial para gerar energia elétrica por meio das águas, do sol, do vento e da queima de biomassa e de lixo em caldeiras.
Por óbvio exageraram, mas o importante agora é que a COP30 precisa ser elevada pelos jornalistas e o público brasileiro em geral ao topo de uma oportunidade única para o país se dedicar a compreender e encontrar soluções para a maior floresta tropical do mundo: a Amazônia.
Para tanto, em um primeiro momento, seria oportuno construir sete consensos sobre desmatamento que, uma fartura e variedade impressionante de estudos e estatísticas, mostram ser primordiais:
1 – O desmatamento, legalizado e ilegal, é o maior problema econômico, social e ecológico da Amazônia.
2 – O desmatamento na Amazônia também é o principal obstáculo para o Brasil honrar os compromissos assumidos na assinatura do Acordo de Paris, em 2015.
3 – O desmatamento realizado dentro da legislação precisa ser zerado da mesma maneira que o desmatamento ilegal.
4 – O desmatamento é causado, em mais de 90% das vezes, pela criação de boi solto no pasto, sobretudo na mata-ciliar de rios e margem de rodovias.
5 – O desmatamento disponibiliza para a pecuária extensiva a área de floresta anual necessária para sua expansão e consolidação.
6 – O desmatamento tem os custos cobertos pelo crédito rural oferecido pelo Basa por meio do FNO e Pronaf.
7 – O desmatamento pode ser zerado se o crédito rural para ampliação ou manutenção da pecuária extensiva na Amazônia for, igualmente, zerado.
Não conseguiremos um complexo acordo social sobre os sete consensos acima, até hoje por sinal considerado impossível, se distraindo com uma pauta em resposta à gritaria sobre a exploração de petróleo na margem equatorial.
Por sinal, com os poços localizados há mais de 500 quilômetros e bem longe da foz do Rio Amazonas a decisão pela exploração de petróleo ali foi tomada bem antes, quando os ingleses fizeram as primeiras perfurações em uma área idêntica, com a mesma característica geológica no mar das Guianas.
Demonstrando determinação pelo desmatamento zero, todo país associado à ONU poderá contribuir no financiamento da fiscalização para zerar o desmatamento ilegal e na oferta de alternativas produtivas baseadas na saída pela floresta para zerar o desmatamento legalizado para a pecuária extensiva.
Pessoal, não se distraiam com licenciamento ambiental, petróleo, lixo, hotel, transporte, homofobia, racismo…, o foco é o desmatamento zero!