Durante os quase 20 anos ministrando aulas para cursos de nível superior nas áreas de desenvolvimento sustentável e política regional no Acre, costumava repetir ser capaz de palestrar por 30 minutos sobre os entraves que impediam a Amazônia de alcançar níveis nacionais de IDH.
Muitos alunos, como era de se esperar diante do afastamento preocupante da realidade regional que impera nas universidades federais da Amazônia, de pronto demonstravam sua incredulidade afirmando que não havia docente em condições de dominar temas tão díspares que vão do desmatamento à zona franca de Manaus passando pela bioeconomia, tudo em um bioma complexo da dimensão da Amazônia.
Acredito e posso estar muito errado, que venci todos os desafios impostos pelos alunos, com a boa vantagem de que os temas colocados, de imediato, por cada turma para serem apresentados, de improviso, quase sempre se limitavam ao desmatamento e hidrelétricas.
Por óbvio, os entraves da Amazônia vão bem além.
Por exemplo, no conjunto de entraves liderado pelo desmatamento e a sua permanente e equivocada associação às queimadas, ainda podem ser incluídas a pavimentação de rodovias e a principal atividade econômica, ou a base da economia regional, a hegemônica pecuária extensiva.
Em algumas localidades do Pará, Rondônia, Tocantins e Mato Grosso, o visível progresso econômico e social trazido pelo agronegócio da soja, e em menor escala, do milho e do algodão, somente para ficar nas commodities mais expressivas, costuma contaminar a análise sobre o agronegócio quando comparado com a letargia econômica, do também agronegócio, da pecuária extensiva.
Embora poucos enxerguem a distância é muito grande uma vez que o custo dos aproximados 80% do desmatamento trazido pela pecuária extensiva não repõe o benefício em impostos e empregos gerados na atividade.
Bem diferente do custo dos 20% de desmatamento restante, trazidos pelo cultivo, de altíssimo nível técnico e todo mecanizado, da soja e que gera benefícios bem superiores para as cidades onde se torna hegemônica.
Ambas as atividades econômicas predominam na Amazônia, com a pecuária extensiva apresentando capilaridade invejável ao ocupar as margens dos principais rios, do Rio Juruá ao Purus, e ambas estão inseridas no setor econômico denominado agronegócio, contudo com distinções absurdas.
Somente aqueles que se dedicam à compreensão dos entraves ao desenvolvimento regional da Amazônia conseguem perceber esses detalhes onde, como bem se diz, mora o desastre.
Detalhes que podem esclarecer ou impedir a compreensão quando se discute hidrelétrica, unidades de conservação com destaque para as Reservas Extrativistas, concessão de florestas para exploração tecnificada pelas indústrias da madeira, uso econômico da biodiversidade, situação fundiária de terra ocupada por população tradicional e assim por diante.
Constrangedor, contudo, seria constatar que dos candidatos a governadores nos nove estados amazônicos e os três candidatos à Presidência da Republica que merecem análise, poucos são capazes de discutir com aprofundamento, por somente 10 minutos, algum dos entraves da Amazônia.
Todavia, com profundas diferenças na reputação de cada candidato e que cabe ao eleitor identificar, todos, sabendo ou não, terão que se submeter ao imperativo mundial do desmatamento zero.
Sem expectativa de que algum entrave seja superado até 2030, o desmatamento zero continuará prioritário para política publica.
Para aqueles que possuem o privilégio de trafegar de carro pela rodovia BR 101, em especial no litoral do Rio de Janeiro e mais especial ainda na região entre Rio das Ostras até a divisa com São Paulo, a paisagem da mata atlântica é uma dádiva.
Regiões de montanha que de maneira quase sempre abrupta se conectam às praias e ao mar deixam os expectadores deslumbrados com a exuberância de um ecossistema de beleza única no mundo.
Até que surgem os morros sem árvores, que foram desmatados desde muito tempo, ainda nos primórdios dos plantios de cana-de-açúcar e de café, nos idos dos séculos XVII e até início do XX, respectivamente durante os ciclos econômicos de cada uma das commodities, até que a história passou e a improdutiva pecuária extensiva se tornou hegemônica.
Se antes havia um proposito econômico, uma vez que cana-de-açúcar e café pautaram as exportações nacionais por um longo e lucrativo período, a ocupação pela pecuária extensiva possui retorno econômico duvidoso e impacto social quase nulo.
Todos reconhecem que o valor da criação de boi solto nos morros, com declividade absurda para o pastoreio de qualquer animal de médio e grande porte, onde ovinos e caprinos teriam dificuldade de se alimentar, apresenta retorno financeiro no mínimo questionável.
Com erosão em estágios avançados em todos os morros onde o capim é a única especial vegetal e um ou outro boi a única espécie animal, a paisagem de elevada biodiversidade da floresta litorânea dá lugar a uma paisagem de destruição da terra, e dos morros, que deveria ter sido mudada ainda na primeira metade do século passado.
Duas constatações assombram quem assiste a cada ano o aumento da erosão e a paulatina redução da produtividade por hectare e do consequente valor econômico daquela atividade produtiva.
A primeira se refere a assustadora resignação da população em geral e dos residentes daquela belíssima região que não conseguem se erguer para questionar a validade da expansão da pecuária extensiva em um ecossistema com valor turístico inquestionável.
Já a segunda constatação é bem mais complexa.
Quais as razões obscuras que levam parcela considerável dos pesquisadores e especialistas da área de agronomia, sociologia e, pasmem, até da economia a defenderam a permanência da pecuária extensiva naquele santuário sob a justificativa curta e simplória de que “é cultural”.
Raciocínio tosco, sem dúvida, e já bem superado posto que muitas das nossas realidades sociais em um passado até um tanto recente poderiam estar inseridas no rol do “é cultural”. As mulheres e um conjunto de minorias que o digam.
A boa notícia é que a curva de hegemonia da nefasta pecuária extensiva, que depende do desmatamento e traz retornos em impostos e empregos sofríveis, pode estar, finalmente, se invertendo.
É o que espera o Reforest Fund, criado pelo consórcio Pátria Investimentos e que acabou de receber aporte considerável de recursos oriundos da mineradora Vale, para recuperar áreas degradadas na Mata Atlântica para produzir madeira e outros produtos florestais de maneira técnica e permanente.
A ideia, que não é nova, mas vem sendo cada vez mais retomada, consiste em aplicar tecnologia de sistemas agroflorestais para misturar em uma terra degradada pela pecuária extensiva mudas de árvores, de arbustos e culturas de ciclo curto, de modo a obter rendimentos periódicos.
Com a importante adição da produção de carbono em um hectare, que antes alimentava apenas meio boi, a receita líquida viabiliza a paisagem e a floresta.
Para quem acompanha as idas e vindas do processo de concessão florestal, destinado à privatização da produção de madeira amazônica em áreas públicas, o leilão realizado na Bolsa de Valores parece até vertigem.
Mas não é, a produção de madeira nativa da Amazônia virou negócio para o andar de cima do mercado.
No último dia 25 de agosto, a empresa B2 venceu o leilão para explorar duas UMF (unidades de manejo florestal) pagando um total de 14,6 milhões de Reais ao Serviço Florestal Brasileiro, órgão que gerencia o Fundo de Desenvolvimento Florestal que recepciona os recursos auferidos no Contrato de Concessão.
Outra indústria, a Madeirantes, por sua vez, vai pagar 4,4 milhões de Reais para usar a tecnologia de manejo florestal explorando madeira de maneira segura para a sociedade e o meio ambiente e, o melhor, todos os anos e para sempre.
Não é fácil para os brasileiros e o povo da Amazônia compreender de que maneira a derrubada de árvores, destopamento dos troncos e aquele caminhão carregado de toras que transita na área urbana poderia ser realizada de maneira técnica e sem comprometer a continuidade da floresta.
Por isso a Concessão Florestal, instituída no início desse século pela legislação que também criou o Serviço Florestal Brasileiro adquire importância que vai bem além da necessária e oportuna arrecadação de recursos para as cidades, estado e a Unidade de Conservação que está sendo explorada.
Trata-se de uma demonstração concreta e inequívoca de que a tecnologia de manejo florestal, com um sistema silvicultural desenvolvido para a Amazônia por pesquisadores de reconhecida excelência que atuam no Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia e na Embrapa ainda na década de 1980 do século passado, funciona.
Aquela resposta didática que os engenheiros florestais costumam repetir para convencer as pessoas de que a tecnologia de manejo florestal resolve, de forma definitiva, o problema da oferta de mogno, jatobá ou cerejeira demandada pela sociedade, afirmando que manejar a floresta é derrubar a árvore velha para a nova crescer e conservar a biodiversidade da floresta, encontra na concessão florestal sua mais contundente comprovação.
Ambas as empresas vão, a partir de agora, compor o seleto grupo de empresários que atuam no setor madeireiro de maneira legítima e, mais importante, sem temer a sempre nefasta visita do fiscal do Ibama e dos mais de 15 órgãos estaduais e municipais de controle ambiental que castigam o setor produtivo na Amazônia.
O termo castigo pode parecer exagerado, contudo a relação entre empresário que explora o cumaru, cedro e outra madeira tropical de elevado valor de mercado, aqui e lá fora, e os órgão de controle nunca foi das melhores.
De um lado os industriais e um grande número de engenheiros florestais e acadêmicos, reclamam ou reconhecem, respectivamente, o exagero das normas e, ainda bem mais grave, a frágil duração e permanência no tempo.
Regras eram, ou são, publicadas e outras caducam de maneira rotineira, todos os dias, sem que o investidor na produção de madeira consiga entender os objetivos e a praticidade delas.
Tudo isso termina com a assinatura do Contrato de Concessão Florestal, que não privatiza a floresta mas fornece o direito legal de explorar árvores com a tecnologia de manejo florestal por mais de 30 anos a alguma indústria que se compromete com as regras, essas sim definitivas.
Por seu turno a Unidade de Conservação Floresta Nacional de Balata-Tufari, localizada nas proximidades da rodovia BR-319, que recebe elevado impacto da inviável pecuária extensiva, que exige desmatamento anual da floresta para cultivar pasto, servirá de suporte para uma alternativa econômica que gera mais empregos e, muito melhor, sem desmatar a floresta.
Ainda não chegamos à 50% do total de floresta que pode ser concedida para as indústrias, mas o leilão na Bolsa de Valores trilha um caminho sem volta. É só esperar.
Se você não gazetou as aulas de ciências, biologia, matemática e física, para ficar nas disciplinas mais empolgantes, do ensino fundamental ficará assustado com a capacidade do Diretor e roteirista do filme “O fim da rua” desconhecer princípios elementares sobre o Homo sapiens.
Com produção esmerada e com atuação distraída de atores que são celebridades, daquele tipo que a indústria cinematográfica apresenta em época de férias com intuito de divertir e, claro, apostando que dará muito lucro, o filme assinado pelo reconhecido J.J. Abrams, que tem no currículo produções como a série Fronteiras, assusta pela capacidade de errar sobre quase tudo, várias vezes.
Um evento inacreditável faz com que um bairro inteiro seja transportado para o tempo dos dinossauros, algo impossível para o conhecimento atual da física, astronomia e por aí afora, mas as imundícies não ficam por aí.
Depois de custarem a acreditar no ocorrido, uma família com graves indícios de disfuncionalidades, em que os filhos não gostam dos pais e ao mesmo tempo não querem ver separados, eles saem das casas em busca de uma rota de escape e vão de carro passando pelos animais pré-históricos e, a cada bicho, se perguntam: como assim?
No caminho encontram nada mais nada menos que um acasalamento de animais pré-históricos que não estão somente fazendo o que os bichos fazem, trepam rápido, com dor, depositam a semente, procriam e vazam.
Nada disso, os bichos estão fazendo amor, com muito carinho e não garantindo a continuidade da espécie.
De qualquer ponto de vista, em todos os níveis de análise, até os mais elementares, a conclusão só pode ser uma, o Diretor de “Fim da rua” não fez o ensino fundamental.
Chato de assistir o roteiro leva o espectador a uma sequencia de situações, denominadas de politicamente correto, em que a filha lésbica encontra e salva outra adolescente, também lésbica claro, enquanto o filho, um homenzinho branco e inexpressivo, fica sozinho.
Há de se esperar que caso a humanidade, um dia seja dizimada, como parece ser o caso, e ao estar reduzida a cinco pessoas, quatro da mesma família e uma vizinha mulher, o instinto de sobrevivência falaria mais alto e levaria os dois, único possível casal em toda humanidade, a tentarem, ao menos tentarem, garantir a continuidade da espécie humana.
Nada disso, extinto estava e extinto ficará pois a humanidade, representada pela espécie Homo sapiens, que graças aos desígnios divinos se encontra no pico da cadeia alimentar, merece, segundo a estupidez vigente, ser dizimada e não voltar jamais.
Se estiver cansado espere, a estupidez não fica por aí.
Em uma cena que beira ao constrangimento o nefasto homem branco, representante legítimo do patriarcado, seja lá que imundície é isso, encara uma briga com um dinossauro Rex, que tentava engolir a mulher, sem conseguir posto que ela sabia se defender muito bem igual a toda mulher que enfrenta de maneira heroica e no braço, um Rex todo dia, e o homem, com perdão do spoiler, morre.
Mas, não sem antes conseguir acertar o Rex com uma marreta, conhecida por sexta-feira e que somente os pedreiros que conhecem bem sabem como é difícil empunhar essa ferramenta.
Daí em diante é pura estupidez, o Rex se finge de morto para ludibriar o homem branco do patriarcado, que está sempre bem leso e meio perdido em todas as cenas, que será enfim engolido pelo Rex sem causar consternação a nenhum espectador.
Uma cena sem graça, metida a besta e que, ao final, é besta mesmo como tudo no filme. Não vá, com um pouco do fundamental melhor ficar em casa.
Quando um seleto grupo de entidades ambientalistas, com atuação nacional e internacional, conceberam, articularam e conseguiram um igualmente seleto grupo de produtores dispostos a firmarem o que se chamou de Moratória da Soja, muitos não acreditaram, este articulista inclusive.
Felizmente, dede o início do século o acordo da Moratória da Soja, com regras mais rigorosas que as do Código Florestal sobre a ampliação de novos cultivos da oleaginosa em áreas desmatadas após 2008, está em vigor e, o mais importante, com resultados impressionantes.
Alguns, sempre insatisfeitos com o aprimoramento do capitalismo, se apressaram em gritar que tendo em vista que o impressionante pacto social só valia para o cultivo de soja, o desmatamento destinado a ampliação da pecuária extensiva, que representa na verdade mais de 80% do total das novas áreas desmatadas todos os anos, continuaria a ocorrer.
Tal como demonstram as estatísticas anuais sobre desmatamento na Amazonia, aferidas pelo reconhecido Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais com rigor científico e disciplina impressionante desde 1988, a pecuária extensiva continua sendo o grande vilão do desmatamento na Amazonia.
Todavia, ao liberar o cultivo da soja da responsabilidade sobre o desmatamento anual desde 2008, os produtores que assinaram o pacto demonstravam sua preocupação com uma reputação que os brasileiros sempre tiveram orgulho de conservar.
A despeito do sucesso e do expressivo engajamento dos produtores de soja, que colocam o Brasil entre os cinco maiores exportadores do mundo, alguns insatisfeitos acusaram o pioneiro pacto social de funcionar como maquiagem para criar e manter reserva de mercado.
A distância entre pacto social, uma vez que a Moratória da Soja surgiu por iniciativa da sociedade, dos próprios agentes econômicos e ativistas ambientais, e formação de cartel é gigante, embora os contrários a Moratória da Soja afirmassem existir conluio entre os produtores engajados frente aos demais que estavam fora do pacto.
Leis estaduais de Rondônia e Mato Grosso chegaram ao impropério de proibir o acesso a incentivos fiscais estatais de produtores participantes da Moratória da Soja em uma demonstração de estupidez assustadora e, ao mesmo tempo, temerária.
Assustadora por demonstrar uma insatisfação com um pacto social que deveria ser motivo de orgulho por ter sido duradouro e ousado, o que costuma ser bastante difícil de acontecer no país, seja em qualquer setor econômico, quanto mais no setor primário da economia.
Temerário por mostrar uma possível tendencia de levar as insatisfações na política eleitoral, que coloca os profissionais da política separados por supostas ideologias de direta e esquerda, para o campo da economia em uma contaminação que pode prejudicar em demasia o desenvolvimento do país.
Felizmente, o Supremo Tribunal Federal validou o pacto social, ressaltando sua importância e benefícios para a sociedade, de maneira quase unanime.
Equívocos a parte, de um ou outro magistrado que considerou a produção de soja incluída no cardápio produtivo da agricultura familiar, algo incompreensível posto que a soja depende de grandes áreas de cultivo e intensa mecanização para reduzir custos de produção, itens distantes do modelo de agricultura familiar praticado na Amazonia.
Parabéns ao Supremo e congratulações a todos os produtores que se mantiveram firmes no pacto social da Moratória da Soja, que dure por bem mais tempo.
De todos é bem provável que o maior equívoco cometido pelos defensores de um caminho alternativo para o modelo de desenvolvimento do Acre tenha sido sua associação com determinado partido político.
Considerando que desde o final do século passado a pecuária extensiva, ao depender do aumento anual do desmatamento, encontrava resistência insuperável para se consolidar como referencia principal da economia no Acre, alguma saída deveria ser analisada pela sociedade.
Acontece que no debate sobre alternativa ao modelo de desenvolvimento trazido pela pecuária extensiva, muitos discordavam em relação ao potencial da biodiversidade florestal para prover a riqueza necessária.
Entretanto, havia e há consenso razoável entre os estudiosos sobre modelos de desenvolvimento regional, pesquisadores de diversas áreas e nas universidades, em relação ao correto diagnóstico de que o caminho do progresso do Acre não se sustenta na pecuária extensiva.
Associar a alternativa eleitoral, determinada por um grupo de líderes políticos com propósitos diferenciados dos detentores corriqueiros de mandatos com mostravam baixa competência administrativa, com a alternativa econômica pareceu um caminho natural, mas errado.
No frigir dos ovos os novos líderes políticos esperavam e conseguiram se estabelecer por mais de vinte anos, com vitórias eleitorais reconhecidas por sua competência administrativa bem superior ao que havia antes.
Contudo e infelizmente, a capacidade administrativa se reduziu a cada novo mandato, deu lugar ao cansaço e indiferença, até chegar ao inaceitável lugar comum de deixar de pagar salário de servidor publico.
O que, por óbvio, se mostrou difícil de engolir.
Todavia, o maior prejuízo para a história do desenvolvimento do Acre estava por vir.
Com uma rejeição eleitoral aos políticos que um dia se mostraram como alternativa e que parece não ter fim, a política contaminou o debate sobre o modelo de desenvolvimento adequado à vocação natural do Acre e a alternativa à pecuária extensiva foi, igualmente, rejeitada.
Não será seguramente nessa eleição, quiçá na próxima, mas a contaminação eleitoral que associa o modelo de desenvolvimento da Saída pela Floresta a um ou outro partido político não pode continuar por não ser, de fato, verdadeira.
O rumo do desenvolvimento a partir do agronegócio da pecuária extensiva tem limite e todo profissional que abandona o Acre sabe disso.
Em caso afirmativo funcionou, posto que por todo tempo em que a retórica foi repetida à exaustão comoveu a sociedade despertando emoção e lógica, tudo bem de acordo com o manual de discurso político e o receituário que promete o paraíso com único propósito de vencer eleições.
Em caso negativo deu tudo errado!
Se fosse para ser de verdade, pouco se fez para alterar a realidade e os defensores do Projeto Florestania não entenderam que, antes deles, um conjunto expressivo de pesquisadores, técnicos e engenheiros haviam exposto os riscos e limites do modelo de desenvolvimento baseado na pecuária extensiva.
Na constrangedora e de certa maneira merecida derrocada eleitoral ocorrida em 2018 restou claro aos poucos abnegados que ainda se mantinham fiéis aos ideais do modelo de desenvolvimento sintetizado na expressão Saída pela Floresta que as lideranças políticas, todos que por sinal receberam expressivas votações nos vinte anos anteriores, tinham, de concreto, determinação de sobra para ganhar eleição e era só isso mesmo.
Resumindo os líderes políticos, repetindo todos eleitos sob o manto do Florestania, mostraram pouca ou nenhuma convicção sobre três diretrizes elementares e que são condicionantes para compreender a realidade do estágio atual da pecuária extensiva que pode determinar um futuro com limitados atalhos e pouquíssima margem de erro.
A triste conclusão é que há um caminho bem estreito para entender a realidade da economia para melhorar ou não a vida de todos no Acre.
A primeira das três diretrizes, que escapou ao entendimento dos líderes políticos do Florestania, tem a ver com reconhecer, aceitar e compreender que existe uma necessidade urgente do modelo de desenvolvimento no Acre baseado na pecuária extensiva ser repaginado, ou melhor, substituído.
Razões não faltam e muitos pensadores, desde o final do século passado, elaboraram uma série de dissertações de mestrado e teses de doutorado comprovando a impossibilidade real da criação de boi solto no pasto prover e manter a quantidade e a qualidade do emprego e da renda requerida pela sociedade.
Nunca é demais lembrar que mesmo em 2018, até antes ainda em 2014, sob o novo discurso mágico de que o Acre precisava se industrializar residia o abandono de qualquer princípio do modelo defendido pelo Florestania.
Fato interessante, por exemplo, foi o esforço realizado ainda em 2009 para erradicar a criação de galinha caipira, em toda região do Baixo e Alto Rio Acre, de modo a não comprometer ou levar doença para as granjas da indústria de aves congeladas. Algo muito distante dos ideais do Florestania.
Já a segunda diretriz diz respeito à reduzida competitividade do agronegócio do Acre. Evidente que a localização geográfica e as condições agronômicas limitam a produtividade no Acre em comparação com o restante do país, inclusive e até mesmo com o vizinho Rondônia.
Finalmente a terceira diretriz se baseia na história econômica e produtiva do Acre, que tem na biodiversidade florestal, da borracha à madeira, sua mais importante e principal referencia.
Resumindo, sem líderes políticos e intelectuais o modelo da Saída pela Floresta no geral e o finado Projeto Florestania em particular, não deixou seguidores, exceto por poucos órfãos que se encontram entregues à própria sorte.
Fazendo o que fazem de melhor, os órfãos do modelo de desenvolvimento do Acre baseado na Saída pela Floresta e do Florestania vez ou outra escrevem algum desabafo para tentar convencer algum desavisado do que deveria ser óbvio.
Nosso destino está entregue ao desenrolar de uma atividade produtiva que emprega poucas pessoas, enfrenta competição impossível de ser vencida com tudo que é canto desse país e, o pior, depende todos os anos de ampliar um pouco mais o desmatamento.
A pergunta é simples, quanto desmatamento será tolerado para manter o desenvolvimento da pecuária extensiva? Mas, isso é outra retórica!
Parece que nem existiu, mas não foi bem assim, o modelo de desenvolvimento conhecido pela simplificação Saída pela Floresta, representa uma alternativa para economia que deveria ser discutida por todos que se preocupam com o futuro do Acre.
Se contrapondo à estagnação econômica trazida pelo modelo que tem na pecuária extensiva sua principal referencia para o progresso estadual, o Projeto Florestania, em 1999, ao adotar os pressupostos da Saída pela Floresta politizou e ao mesmo tempo contaminou um debate que deveria ser inevitável.
Para quem não se recorda o Acre nos últimos 20 anos do século passado viveu momentos de detalhados estudos sobre as alternativas possíveis para gerar riqueza e trabalho de maneira sustentável para sua população.
Foi um momento oportuno que atraiu a atenção do país, muito devido ao trabalho sindical de Chico Mendes, que demonstrou que os custos sociais e ambientais dos desmatamentos não seriam cobertos pelo PIB da pecuária extensiva.
Por sinal a inclusão do PIB, um indicador econômico, forneceu maior robustez à tese de que o desmatamento zero proposto na Saída pela Floresta seria, além de melhor para o social e a ecologia, superior em termos de aumento do PIB, ou melhor, da riqueza estadual.
Passados 20 anos sem avançar com o Florestania, na constrangedora e de certa maneira esperada derrocada eleitoral ocorrida em 2018, restou claro aos poucos e abnegados que ainda se mantinham fiéis aos ideais do modelo da Saída pela Floresta, que as lideranças políticas que receberam expressivas votações nos vinte anos anteriores, mostraram determinação para ganhar cada eleição e quase nenhuma vontade para pavimentar o desenvolvimento do Acre baseado na biodiversidade florestal e com desmatamento zero.
E mais, infelizmente, a defesa incontestável da pecuária extensiva se repetirá na eleição de 2026.
Os candidatos mostram pouca, ou nenhuma, convicção sobre três diretrizes elementares e que são condicionantes para entender a realidade do estágio atual do modelo de desenvolvimento no Acre, frente a qualquer alternativa, o que pode determinar um futuro com sérias limitações.
Resumindo, há um percurso bem estreito para o desenvolvimento que ajuda a entender a realidade e pode melhorar a vida de todos no Acre, ou não!
A primeira das três diretrizes, que escapou ao entendimento dos líderes políticos atuais, tem a ver com reconhecer, aceitar e compreender que existe uma necessidade urgente do modelo de desenvolvimento no Acre baseado na pecuária extensiva ser substituído, ou repaginado como gostam os mais jovens.
Razões não faltam e muitos pesquisadores elaboraram uma série de dissertações de mestrado e teses de doutorado afirmando a impossibilidade concreta de a pecuária extensiva, prover e manter a quantidade e qualidade do emprego e da renda requerida pela sociedade acreana.
A segunda diretriz é que o desmatamento terá que ser zerado pelos de dentro para não ser imposto pelo de fora. Se a economia no Acre não inserir o requisito do desmatamento zero os investidores de outras paragens vão exigir.
A terceira diretriz diz respeito ao investimento da política pública em empreendimentos baseados na bioeconomia, ou sendo mais específico, em produtos explorados, com tecnologia, na competitiva biodiversidade florestal.
Diante das repetitivas propostas dos candidatos, que insistem em uma corrupção que depende muito da polícia e pouco da política, nada mudará em 2026.
O momento era oportuno, pois a instalação de alternativas para geração de energia elétrica, a partir de fontes consideradas de tecnologia limpa, em substituição à queima de óleo diesel, era incentivada e gozava de expressivo apoio na imprensa, mas nada mudou no Acre.
Considerada a energia elétrica mais cara do país, 100% da geração de energia elétrica no Acre tinha, na virada do atual século, origem em geradores acionados por motores movidos a óleo diesel, sendo que cada litro queimado demandava outro no transporte de caminhão e balsa até a usina localizada em Rio Branco.
O momento era oportuno também posto que a matriz de geração de energia elétrica nacional passava por um profundo, tardio e muito necessário processo de privatização, de maneira a superar os elevados prejuízos econômicos e sociais causados pela bastante deficitária estatal Eletroacre.
Todos concordavam e ainda devem concordar que está no altíssimo custo da energia elétrica o principal limitante à instalação de indústrias, em especial aquelas baseadas na biodiversidade florestal, que poderiam elevar o PIB do Acre para além da reduzida riqueza proporcionada pela pecuária extensiva.
Mesmo após a necessária ligação ao Sistema Interligado Nacional, SIN, com o linhão trazendo energia limpa das hidrelétricas de Rondônia com a transmissão vinda de Porto Velho e estacionando em Rio Branco (até hoje não chegou ao Rio Juruá), o que reduziu a queima diária de diesel, o custo da eletricidade industrial continua exorbitante no Acre.
Planejar a matriz estadual com a geração de energia elétrica em usinas que queimassem resíduos florestais, em especial madeira, mas incluindo qualquer outra biomassa florestal como ouriço de castanha, por exemplo, poderia ter dado a esperada arrancada que o modelo de desenvolvimento preconizado na Saída pela Floresta requeria.
Nada disso aconteceu!
Bem mais preocupados com o ciclo eleitoral que com os econômicos, os líderes políticos do Projeto Florestania não se dedicaram a compreender a importância que a instalação de usinas de geração de energia elétrica a partir da queima de biomassa florestal, em especial em cidades como Feijó, Santa Rosa do Purus ou Manuel Urbano, significaria para a elevação da participação do setor florestal no PIB estadual.
Depois de responder as quatro primeiras de cinco questões antes, a quinta e última pergunta a ser respondida pelos órfãos do Florestania poderia ser expressa, mais ou menos, da seguinte maneira:
5 – Seria possível garantir a oferta de energia elétrica mais barata, por meio da queima de biomassa florestal na condição de fonte prioritária de geração em cada cidade, sobretudo para aquelas localizadas no interior ou com área urbana localizada nas margens dos rios e distantes da rodovia BR364, que a realidade impõe isolamento inexorável, posto que até 2030 não devam ser atendidas pelo linhão?
Na ausência de condições climáticas favoráveis devido a elevada nebulosidade e baixa ocorrência de ventos para atrair investimentos em usinas de geração de energia elétrica (solar e eólica, respectivamente) e, o mais grave, sem rios com diferença acentuada de altitude para construção das imprescindíveis hidrelétricas, restaria ao Projeto Florestania dedicar esforço intelectual e recursos financeiros para estruturar um complexo permanente e sustentável de geração de eletricidade por meio da queima de biomassa florestal. Infelizmente, apesar de constar em um ou outro projeto de financiamento submetido aos grandes bancos (BNDES, Bird e BID), isso jamais aconteceu.
No final das contas, com exceção da capital, as cidades do Acre continuaram investindo todo recurso do orçamento municipal na consolidação do modelo de desenvolvimento baseado da pecuária extensiva e na cara energia elétrica do óleo diesel.
A organização de um novo setor econômico por meio da eletricidade vinda da biomassa florestal foi esquecida junto com o Florestania, talvez para sempre!
Interromper, de maneira brusca, os mais de sessenta anos de apoio estatal com fartura de terra com florestas e capital fornecidos ao modelo de desenvolvimento da pecuária extensiva seria suicídio eleitoral.
Um período de transição planejado em direção ao novo modelo chamado de Saída pela Floresta se mostrava inevitável e urgente.
Com etapas bem definidas, o processo de transição dependia da aprovação de uma legislação condizente com a promoção do PIB Florestal, da publicação de atos normativos para adequar a gestão pública, da redefinição da missão e visão de futuro da estrutura organizacional e, finalmente, do investimento na geração de eletricidade por meio da queima de biomassa florestal.
Nada disso aconteceu!
Mais grave ainda, após sua transformação em Projeto Florestania, toda produção teórica e os conceitos que deram sustentação ao modelo de desenvolvimento Saída pela Floresta, que naquela ocasião se encontrava em franca expansão, foi paralisada sem que os manuais para seu gerenciamento governamental fossem pensados, discutidos, elaborados e publicados.
Nunca é demais repetir que o modelo da pecuária extensiva, no início do século atual, recebia, como ainda recebe atualmente, total atenção da política pública que, afora a pressão social devido aos sustos com as taxas anuais de desmatamento, publicadas pelo reconhecido Inpe, passeava em céu de brigadeiro sem qualquer obstáculo ou oposição.
Aprovar a legislação de subsídio da borracha não foi suficiente para dar partida ao processo de transição, tampouco a criação ou alteração do nome de uma ou outra secretaria de governo e menos ainda a criação de algum órgão da administração indireta como o Instituto de Mudanças Climáticas.
Olhando com a sabedoria que o distanciamento no tempo permite, pode-se afirmar, sem medo de errar, que faltou vontade dos líderes políticos enquanto sobraram receios de derrota eleitoral.
Passados cinco mandatos do mesmo governo pouco foi realizado no sentido de fornecer arrancada ao modelo previsto pelo Projeto Florestania, nos moldes do que vinha sendo discutido por centenas, talvez milhares, de especialistas estudiosos do campo do desenvolvimento regional durante a mobilização científica que defendeu a Saída pela Floresta.
Dentre tantas lacunas faltou, sem dúvida, um órgão líder para o processo de transição que concebesse e coordenasse as ações, com poder de gerenciamento reconhecido pelo poder dos líderes políticos.
Depois de responder as três primeiras de cinco questões antes, a quarta pergunta poderia ser expressa, mais ou menos, da seguinte maneira:
4 – Quais órgãos da administração direta e indireta do governo estadual deveriam ter liderado o processo de transição em direção ao desmatamento zero proposto nas eleições pelo Projeto Florestania?
Assumindo que a prioridade deveria ter sido a aprovação de um conjunto de legislação voltada à promoção do PIB Florestal, a reforma administrativa que foi submetida à apreciação do parlamento estadual deveria ter incluindo a definição de um ou mais órgãos com a responsabilidade de rever a missão e visão de futuro das secretarias e das outras instituições de governo de modo a conduzir o processo de transição em direção ao desenvolvimento proposto nas eleições pelo Projeto Florestania.
Poderia ter sido a Fundação de Tecnologia, Funtac, por exemplo, que possui técnicos qualificados e tradição institucional para a inovação, desde que com determinação garantida por Lei.
Na ausência de coordenação técnica e política, os ideais e pressupostos previstos na Saída pela Floresta se perdeu de modo geral com uma ou outra iniciativa isolada de alguma equipe de técnicos como ocorreu na própria Funtac.
Como não foi elaborada a legislação do processo de transição e não havia um líder técnico e político, o apoio estatal à pecuária extensiva não saiu do lugar.