Atualizado pelo autor a partir do resultado da eleição municipal de 2024.
A despeito de ainda pouco caracterizado pelos estudiosos o ano de 2007 pode ser considerado um marco na história econômica da pecuária extensiva no Acre.
Foi nesse momento em que o número de abates e do rebanho saltou para um patamar muito superior e, a partir daí, cresceu em torno de 6,5% ao ano, de maneira ininterrupta até 2025 com promissora tendência de crescimento.
Difícil explicar o que, de fato, aconteceu, mas no conjunto de eventos que propiciaram o boom da pecuária extensiva jamais poderá faltar a aprovação da lei estadual que instituiu o Zoneamento Ecológico-Econômico, ou ZEE, em 2007.
Instigante, por outro lado, pensar que o Projeto Florestania que elevou a estratégia de desenvolvimento conhecida por saída pela floresta, concebida por algumas organizações desde o final da década de 1980, à condição de Projeto de Governo estava em plena execução, justamente com o propósito de substituir a estagnada economia arrastada pela pecuária extensiva desde 1970.
Algo deu, definitivamente, errado na experiência do Projeto Florestania no Acre e as razões até agora não foram explicitadas com clareza.
Conforme discutido nos oito artigos anteriores faltou liderança política para conduzir o Projeto Florestania com a determinação requerida, o que dificultou sua interpretação e deixou à deriva a equipe técnica, reduzida diga-se, responsável por sua condução na rotina da gestão publica estadual.
Determinados a vencer, a qualquer custo, os processos eleitorais, os governadores e prefeitos eleitos sob o imaginário de futuro trazido pelo Projeto Florestania, defendiam que não poderiam perder o apoio político, jamais conquistado diga-se, dos comerciantes e produtores rurais envolvidos com a pecuária extensiva.
Por sinal, nos enfrentamentos entre os setores produtivos a pecuária extensiva venceu a disputa travada nas definições técnicas e políticas do ZEE, recebendo de prêmio uma quantidade expressiva de terras com florestas, legalizadas para serem desmatadas com total segurança jurídica.
Com logística privilegiada, os mais de dois milhões de hectares de terras com florestas, distribuídas ao longo das rodovias BR 364 e 317, foram incorporadas na expansão do rebanho de gado que chegou a cinco milhões de cabeças em 2024, após aprovação da Lei do ZEE em 2007.
Pode-se afirmar, sem medo de errar, que a partir da transformação do ZEE em lei estadual fornecendo a necessária segurança jurídica ao desmatamento, a Governabilidade foi capturada pela pecuária extensiva sem, contudo, que os produtores fornecessem, em contrapartida, o esperado apoio eleitoral.
Para aqueles pouco familiarizados, Governabilidade é um dos vértices do Triângulo de Governo teorizado pelo economista chileno Carlos Matus na década de 1970, para analisar o sucesso ou fracasso de um mandato de governo.
Somada ao Projeto de Governo, que define a estratégia de desenvolvimento de longo prazo e à Capacidade de Governo, que define a estrutura institucional e de técnicos disponíveis para executar o projeto, a Governabilidade fornece o lastro social e a estabilidade para superar a, sempre ativa, oposição política.
Juntos e avançando de maneira equilibrada formam os pilares considerados cruciais para que um governo consiga atender as demandas imediatas da população enquanto direciona o desenvolvimento estratégico para uma agenda alternativa.
Até seu ocaso em 2018, a hegemonia política que venceu cinco eleições consecutivas e perdurou por 20 anos, mostrou uma força eleitoral e consequente Governabilidade sem precedentes na história política do Acre.
Pode ser, por outro lado, que a inquestionável Governabilidade do período 1999-2018, tenha garantido as vitórias eleitorais a despeito de o Projeto Florestania ter perdido a ênfase no modelo de desenvolvimento ancorado na biodiversidade florestal.
Ou, melhor ainda, pode ser que ao favorecer, de forma explicita ou subliminar, a pecuária extensiva o Florestania tenha esquecido seu propósito enquanto ganhava apoio popular e maior Governabilidade.
De outra banda, as constrangedoras derrotas eleitorais em 2018, 2020, 2022 e 2024, sugerem que aos poucos a vantagem eleitoral do Florestania representada pelo futuro com desmatamento zero, perdeu espaço para a promessa de um agronegócio mecanizado, nos moldes que transformou a vida dos vizinhos rondonienses.
Rondônia, por óbvio, na esmagadora vitória eleitoral de 2018 passou a ser um horizonte a ser perseguido pelos acreanos e não uma estratégia de desenvolvimento impossível para o Acre, mesmo sendo do ponto de vista agronômico e técnico, de verdade, impossível mesmo.
Assumindo que o ZEE de Rondônia promoveu a ampliação de um agronegócio tecnificado, de elevada produtividade e quase 100% mecanizado, pareceu aos acreanos que ao aprovar o ZEE do Acre, o caminho inexorável da redenção econômica e do progresso estaria trilhado, tal qual o vizinho.
Nada disso aconteceu e não acontecerá jamais! Acre não é Rondônia!
Com impedimentos intransponíveis à mecanização e outras fragilidades em relação ao solo, precipitação e trabalhadores, a estratégia de desenvolvimento de Rondônia não passará de Acrelândia e Plácido de Castro.
Resumindo, em mais de 80% do território acreano predomina um relevo acidentado, repleto de ladeira que impede a mecanização, automação e, finalmente, uma produtividade competitiva.
Por aqui restará sempre e somente a estagnação trazida pela pecuária extensiva, realizada com baixa produtividade e alto impacto ambiental decorrente da dependência do permanente desmatamento anual, sem falar na concentração de riqueza, ou seja, indesejável por todos os aspectos para a sociedade.
Sendo assim, a pergunta que não quer calar se refere a quais razões levaram os líderes políticos que se elegeram várias vezes sob o manto do Florestania a aceitar, apoiar e fornecer as terras com florestas para consolidação da pecuária extensiva quando da aprovação do ZEE?
Ocorre que e difícil estabelecer, com precisão, a data em que o Projeto Florestania deixou de priorizar a saída pela floresta visando o resultado eleitoral, entretanto, a aprovação da Lei 1.904 que instituiu o ZEE, em julho de 2007, representa marco histórico indiscutível.
Além disso, as quatro últimas constrangedoras derrotas eleitorais deveriam ter deixado claro para os, hoje esquecidos, líderes políticos de outrora que a ausência de um projeto de desenvolvimento do Acre alternativo à pecuária extensiva, como foi o Projeto Florestania, contribuiu de maneira decisiva para o fracasso eleitoral ressaltando o fim da carreira política de todos.
Concluindo, ninguém parece ter se dado conta de que as robustas evidências mostram que não haverá vitória eleitoral sobre a pecuária extensiva sem a defesa incontestável do Projeto Florestania e da utopia do desmatamento zero!
Poucos entendem que ao destinar porção considerável de terras, repita-se, com logística favorecida pela localização ao longo das rodovias para a pecuária extensiva o ZEE, aprovado com amplo apoio dos políticos reunidos no que se chamou de Frente Popular, fez a estratégia de desenvolvimento para o Acre retroceder à década de 1970.
Em síntese, mesmo que em um primeiro momento a Capacidade de Governo para concretizar o Projeto Florestania deu ênfase na valorização da biodiversidade florestal como principal ativo econômico acreano, o ZEE concretizou o contrário.
Aquela suposta determinação inicial por um progresso a ser alcançado por meio de uma economia de baixo carbono, ancorada na biodiversidade florestal e com desmatamento zero, que havia sido estimulada e impingida pelos contratos de financiamento com a tríade BNDES, Banco Mundial e Banco Interamericano, sucumbiu a partir da aprovação do ZEE.
Relembrando, conforme detalhado no artigo oitavo dessa série de dez, a justificativa do aumento do PIB com desmatamento zero por meio da conservação da biodiversidade florestal foi determinante para aprovar os projetos e captar os recursos financeiros que vieram da tríade (Bird, BID e BNDES), jamais a criação extensiva de boi.
Nunca é demais repetir que com o ZEE, após sua providencial transformação em legislação, o governo estadual determinou que tipo de atividade produtiva seria implantada em cada local, ou zona, do território acreano.
Assim, de pronto o ZEE forneceu legalidade para desmatar uma quantidade considerável de terras florestais localizadas no que se chamou de Zona I, consideradas propicias para o agronegócio da criação extensiva de gado e plantio de cana-de-açúcar.
Daí em diante, aumentar o desmatamento anual para criar o gado solto no pasto, com o ZEE, passou a ser justificável do ponto de vista técnico, legal e, por suposto, político.
No entanto, a paulatina debandada de todos os que se elegeram na defesa do Projeto Florestania e, por consequência, priorizando a biodiversidade florestal como estratégia de desenvolvimento, bem como os mais de 30 anos de estagnação econômica que a pecuária não consegue superar, não tardariam a enfraquecer a Governabilidade abrindo a janela para as sucessivas derrotas eleitorais.
Resta esperar que o efeito nefasto do favorecimento do ZEE à pecuária extensiva seja percebido pela sociedade, com a publicação das medições, pelo conceituado Inpe, das inevitáveis e permanentes taxas anuais de desmatamento no Acre.
Somente para ilustrar, no ano anterior à perda de Governabilidade e ao consequente fracasso eleitoral de 2018, estudos demonstravam que metade da área de mata ciliar do rio Acre, em uma faixa de 100 metros de largura, estava degradada pela pecuária extensiva, comprometendo o equilíbrio hidrológico com risco de ocorrência de secas e alagações.
Sem Capacidade de Governo para trazer o Projeto Florestania de volta à saída pela floresta, a Governabilidade tentou, sem sucesso, aliciar os pecuaristas.
Mas isso é outro artigo.
Atualizado pelo autor a partir do resultado da eleição municipal de 2024.
Com sucesso extraordinário, o Projeto de Governo do Agronegócio, que se esforça para colocar a pecuária extensiva, nos moldes primitivos praticados no Acre no mesmo nível das commodities produzidas com alta tecnologia nas demais regiões do país, venceu as eleições de 2018, 2020, 2022 e 2024.
Aos derrotados, não sobrou muita coisa.
De maneira constrangedora o eleitor do Acre rejeitou nos quatro últimos pleitos e com visível determinação, todos os candidatos que, de maneira direta ou indireta, tiveram vinculo com o Projeto de Governo alternativo à pecuária extensiva, o Projeto Florestania.
Muitos questionam a viabilidade objetiva de uma estratégia de desenvolvimento para o Acre baseada na biodiversidade florestal, um questionamento mais que legítimo e que não significa partir para a defesa de uma economia baseada na pecuária extensiva.
Com empecilhos diagnosticados às tantas e por várias instituições, a geração de renda por meio da exploração técnica e comercial do potencial florestal da região apresenta gargalos históricos e até então insuperáveis.
Em contrapartida, todos reconhecem que não há justificativa, econômica ou política, para a continuidade do desmatamento anual requerido na substituição das árvores pelo capim que alimenta o rebanho solto no pasto, segundo o procedimento adotado na pecuária extensiva.
Assumindo ser, no mínimo, irresponsável concordar e defender o desmatamento, diversas agencias de financiamento do desenvolvimento regional se prontificaram e, de certo modo, atestaram a viabilidade econômica, técnica, social e ecológica da saída pela floresta.
Concebida e elaborada por um conjunto de organizações do terceiro setor no Acre a partir do final da década de 1980, a possibilidade de um desenvolvimento baseado na exploração técnica e comercial da biodiversidade florestal, denominada de saída pela floresta, se transformou em Projeto Florestania, ainda em 1999.
Três Bancos, com reconhecido histórico de sucesso no financiamento do desenvolvimento mundo afora, apostaram sua reputação ao prover consideráveis recursos financeiros, demandados pelo Projeto Florestania.
Durante o sucesso eleitoral, que durou até 2018, impossível deixar de reconhecer o empenho do Banco Mundial, BNDES e Banco Interamericano, que emprestaram parte e doaram outra parcela expressiva do dinheiro empregado na execução da Política Estadual de Florestas e das diretrizes do Zoneamento Ecológico-Econômico do Acre.
Em nenhum momento nesse período e mesmo depois com as sucessivas vitórias eleitorais do Projeto Agronegócio os três bancos se arriscaram a associar sua marca com o desmatamento ilegal e o legalizado, ao financiar a criação de boi solto no pasto.
Sem muito esforço é possível concluir que o Projeto Agronegócio não conta hoje e não contará no futuro com o suporte do financiamento de agencias internacionais, especializadas nas estratégias de desenvolvimento regional em todo o planeta.
Surge nesse ponto a pergunta inescapável: Os Bancos financiaram o Florestania ao comprovar a viabilidade técnica e econômica da saída pela floresta, o que de fato aconteceu, ou, temeram o risco de ver sua reputação vinculada ao desmatamento demandado pela pecuária extensiva?
Por outro lado, ha uma segunda questão inescapável: Sem o providencial financiamento dos Bancos o sucesso eleitoral do Florestania aguentaria os 20 anos conseguidos?
Finalmente, ainda uma terceira pergunta: Os agentes financeiros, bem lá no fundo da alma, sabiam da indiferença que os lideres políticos nutriam em relação ao Florestania?
Na verdade dos fatos o Florestania como estratégia de desenvolvimento apropriada para o futuro do Acre com desmatamento zero, não chegou a ser priorizado pela Capacidade de Governo enquanto era festejado em palanques eleitorais.
Pode ser, por conseguinte, que os governadores e prefeitos eleitos sob o manto do Florestania e que receberam a aprovação dos Bancos em financiamentos consideráveis, fossem negligentes quanto à saída pela floresta, preocupados que estavam com seu próprio futuro.
Pode ser que os Bancos, por seu turno, se interessassem por testar a viabilidade do Projeto Florestania, como propaganda de uma agenda verde que por ventura defendiam, mesmo reconhecendo as insuperáveis barreiras econômicas e a eterna incapacidade dos líderes políticos para levar o Projeto Florestania muito adiante.
O fato é que para explicar as causas do sucesso ininterrupto por 20 anos do Projeto Florestania seguido da derrota para o Projeto Agronegócio nos últimos oito, o envolvimento dos Bancos de desenvolvimento, que deram e negaram, respectivamente, suporte técnico e financeiro, se mostra revelador.
Usando a tese do Triangulo de Governo, concebida na década de 1970 pelo chileno Carlos Matus, para analisar a guinada política ocorrida no Acre em 2018, percebe-se que o vértice da Capacidade de Governo, da Governabilidade e do Projeto de Governo não caminhou segundo o equilíbrio desejado.
Acontece que, como analisado nos sete artigos anteriores, o Projeto Florestania optou pela generalidade sendo omisso em decidir entre o apoio ao agronegócio da pecuária extensiva ou ao uso econômico da biodiversidade florestal como referência para a estratégia de desenvolvimento.
Sem contar com a orientação e determinação dos líderes políticos que conquistaram cinco sucessivos mandatos eleitorais, o embate biodiversidade versus pecuária no Projeto Florestania foi vencido no momento da execução segundo o pensamento de cada equipe de técnicos que atuava em órgãos distintos.
No conhecido salve-se quem puder, em um primeiro momento a maior parte dos especialistas atuou de modo a promover a força econômica da biodiversidade florestal e após o primeiro mandato, de uma hegemonia que durou 20 anos, descambou para o apoio à criação extensiva de boi.
Por sinal, quando chegou em 2018 e nos seis anos depois em 2024, a equipe técnica que fornecia Capacidade de Governo ao Projeto Florestania deixou tanto de questionar a estagnada economia trazida pela pecuária extensiva quanto a defender a saída pela floresta.
Desculpe leitor, mas cabe aqui uma última pergunta inevitável.
Se a equipe técnica que conduziu a Capacidade de Governo dos primeiros anos, mesmo com visível timidez, pendeu para o modelo de desenvolvimento da biodiversidade florestal almejando o desmatamento zero, qual a razão para voltar as atenções para o agronegócio da pecuária extensiva no período posterior a 2006?
Diante de tal complexidade, a resposta exige uma avaliação mais detalhada com relação ao perfil dos especialistas que conduziram a Capacidade de Governo entre 1999 e 2018, o que foge ao escopo desse tipo de artigo.
Há, contudo, duas variáveis de peso considerável nessa análise: a aprovação do Zoneamento Econômico-Ecológico, ZEE, e os necessários empréstimos bancários demandados para pavimentar ruas e construir a infraestrutura requerida pelo desenvolvimento econômico do Acre.
Deixando a discussão sobre o ZEE para mais tarde, conseguir captar os recursos junto ao competitivo sistema financeiro, em que organizações do porte do Banco Mundial (BIRD), BNDES e Banco Interamericano (BID) recebem centenas de projetos todos os anos, requereram do governo do Acre metas rígidas e verificáveis para o propósito do desmatamento zero.
Vários foram os apoios financeiros, reembolsáveis e a fundo perdido, emprestados e doados respectivamente, captados entre 1999 e 2001, por meio de projetos considerados inovadores pelos analistas de crédito dos bancos.
Desnecessário reiterar que em todos os projetos elaborados nesse período a sustentabilidade e o respeito ao meio ambiente, traduzidos como redução do desmatamento era a peça-chave para aprovação.
Não à toa, todas as notas de rodapé das propostas traziam a máxima de um desenvolvimento viável para economia, com desmatamento zero ou equilibrado do ponto de vista ecológico e socialmente justo.
Por óbvio, a marca com o diferencial ecológico alcançado pelo Acre em sua histórica defesa da floresta, em que figuram líderes sindicais como Chico Mendes, convenceu os agentes financeiros a destinarem expressivas quantias ao setor primário do Acre.
BNDES, BIRD e BID, os três maiores financiadores do desenvolvimento no Acre, apostaram na saída econômica pela biodiversidade florestal se tornando fiel da balança para que a Capacidade de Governo perseguisse esse rumo.
Políticas públicas aprovadas na fase inicial do Projeto Florestania incluíram a construção da indústria de pisos, da Natex, de algumas usinas de borracha e de Castanha-da-Amazônia, além do polo moveleiro e aprovação de quase 20 mil hectares de manejo florestal comunitário.
Sempre com apoio financeiro da tríade BNDES, BIRD e BID.
Pode-se afirmar, sem medo de errar, que o argumento da exploração econômica da biodiversidade florestal, ou da saída pela floresta, foi o que diferenciou o Acre e atraiu esse seleto grupo de investidores.
Improvável, no mínimo, que a tríade arriscasse sua reputação financiando uma atividade econômica que, de maneira direta ou sinuosa, destruísse a floresta.
Porém, após aprovação da Lei do ZEE a influência da tríade se reduziu e a equivocada racionalidade eleitoral levou a Capacidade de Governo para o agronegócio do boi solto no pasto.
Mas isso é outro artigo!
Atualizado pelo autor a partir do resultado da eleição municipal de 2024.
Em uma série de dez artigos, publicados nesse espaço, vem sendo discutido a importância do Projeto Florestania para a estratégia de desenvolvimento adotada no Acre, tanto em seu período de sucesso eleitoral (1999-2018) quanto em relação aos os últimos constrangedores fracassos.
Desde 2019 o governo e a prefeitura da capital, Rio Branco, investem parcela considerável do orçamento público no apoio ao Projeto de Governo do Agronegócio, com foco na expansão e consolidação da pecuária extensiva.
Em tese, fazendo contraditório à pecuária extensiva, o Projeto de Governo Florestania, foi derrotado de maneira esmagadora, com nenhuma chance de segundo turno nas eleições, nos pleitos de 2018, 2020, 2022 e 2024.
Poucos foram, a bem da verdade, os defensores do Florestania em todos os quatro expressivos fracassos eleitorais o que sugere a existência de uma rejeição impregnada nos políticos que, de maneira direta ou não, ainda são identificados com o Florestania, embora façam de tudo para evitar o assunto.
Entretanto, se de um lado o marketing do Florestania foi usado de maneira corriqueira enquanto trouxe benefícios eleitorais até 2018, na prática, constata-se que os vinte anos ininterruptos de governo do mesmo partido político, a contar de 1999, deixou de priorizar a saída pela floresta preconizada pelo Florestania.
Não à toa, a pecuária extensiva jamais deixou de ser financiada com recursos vultosos oriundos do orçamento estadual, gerido pelo governo do Acre, com um visível boom do ciclo econômico da pecuária extensiva registrado em 2007, quando o abate e o rebanho de gado se elevaram a outro nível de participação no PIB acreano.
Concluir que, a despeito do sucesso enquanto marketing eleitoral, o Projeto Florestania não recebeu da Capacidade de Governo o suporte demandado para sua real implantação, pode sugerir que os líderes políticos priorizavam as reeleições em detrimento do futuro do desenvolvimento almejado para o Acre, o que, por conseguinte, ajuda a entender a reincidente e elevada rejeição eleitoral.
Talvez o cinismo e hipocrisia em vender uma potencial e comprovada economia ancorada na biodiversidade florestal, tema de deverá ser retomado com força durante a COP30 em Belém do Pará, enquanto direcionava a Capacidade de Governo no apoio à ampliação da pecuária extensiva nas florestas legalizada pelo Zoneamento Ecológico Econômico, explique a rejeição e desilusão do eleitorado.
Somente para lembrar, pela teoria do Triangulo de Governo elaborada pelo economista chileno Carlos Matus ainda na década de 1970, enquanto o Projeto de Governo estabelece um rumo e a Governabilidade fornece estabilidade política, a Capacidade de Governo se refere a estrutura operacional que cria condições para realizar obras e investimentos, estatais e privados.
Juntos formam o tripé, ou triangulo, que uma vez conduzidos de maneira equilibrada e de acordo com os pesos e contrapesos de uma democracia moderna acarretam o sucesso de um mandato, do contrário, o fracasso.
Como analisado nos seis artigos anteriores o Projeto Florestania enfatizou o resgate de valores culturais de um acreanismo adormecido, sem decidir por apoiar o Projeto Agronegócio da pecuária extensiva ou o Florestania da exploração técnica e comercial da biodiversidade florestal enquanto estratégia de desenvolvimento econômico para o Acre.
Ao decidir pela generalização inclusiva, onde todos e tudo era possível, cabia o pecuarista e o extrativista, os líderes políticos do Florestania transferiram o conflito entre os dois modelos de ocupação produtiva para a rotina diária dos gestores responsáveis pela Capacidade de Governo.
Isto é, com pouca ou nenhuma orientação política superior, que deveria vir dos governadores e prefeitos eleitos, ficou ao encargo da equipe técnica as decisões de rotina, que no cotidiano favorecem a saída pela floresta ou a pecuária extensiva, pendendo para um e outro lado dos modelos.
Há, contudo, um registro histórico que não jamais estará perdido.
Antes de se chamar Florestania e ser alçado à condição de Projeto de Governo em 1999, um conjunto de seis organizações não governamentais, ou do terceiro setor, ou ainda organizações da sociedade civil, para usar uma denominação menos preconceituosa, discutiram e detalharam vários pontos do que chamavam de saída pela floresta.
Muitos devem recordar que nos idos de 1988, quase dez anos antes do Projeto Florestania, com apoio técnico imprescindível do extinto Centro de Trabalhadores da Amazônia, CTA, as organizações do Acre garantiram a regularização de mais de dois milhões de hectares de florestas, a serem conservadas no formato fundiário de Reservas Extrativistas, ou Resex.
Não à toa a invenção da Resex e a concepção da tecnologia do manejo florestal comunitário são dois reconhecidos legados do Acre para a Amazônia.
Em síntese, dentro da Resex a agricultura de subsistência e a pecuária extensiva não podem ser realizadas para ganhar dinheiro ou com interesse comercial.
A geração de renda na Resex vem, exclusivamente, da exploração técnica e sustentável da biodiversidade florestal, o que, por conseguinte, impede que o desmatamento presente fora da Resex, em seu entorno, se alastre para dentro.
Dessa maneira, com quase metade do território do Acre destinado para Unidades de Conservação, por força da legislação fundiária federal, a comercialização de produtos extraídos da biodiversidade florestal existente na Resex, traria o desenvolvimento econômico estadual que deixaria de depender do nefasto desmatamento exigido pela pecuária extensiva.
Do ponto de vista político, as organizações atuantes no Acre, desde o final da década de 1980, depositaram irrestrito apoio à ampliação da regularização fundiária de terras com florestas para que a conservação da biodiversidade florestal funcionasse como contraponto à criação extensiva de boi, atraindo investimento público, privado e da cooperação internacional.
Naquela época, em 1988, com esforço visionário, se antecipava o que o mercado voluntário, regulado e jurisdicional de carbono poderá fazer acontecer, em 2025.
Mais que apoio político, um pequeno conjunto de técnicos qualificado pelas organizações migrou para a estrutura de governo, na vã expectativa de que em cargos de direção poderiam investir a Capacidade de Governo para colocar em prática o Projeto Florestania, reduzindo de maneira paulatina o apoio recebido pela pecuária extensiva.
No início até que deu certo.
Nos primeiros cinco anos de uma hegemonia que durou 20, o Projeto Florestania incentivou algumas importantes atividades vinculadas ao uso comercial da biodiversidade florestal.
Em 2001, por exemplo, foi aprovada a Lei 1.426 que instituiu a Política Estadual de Florestas, o que proporcionou a criação da Secretaria Executiva de Floresta e Extrativismo, de início subordinada a Secretaria de Produção e no ano seguinte transformada em Secretaria Estadual de Floresta.
Foi nesse período também que se construiu a fábrica de pisos de Xapuri, que a despeito dos graves e insuperáveis problemas de gestão, era uma indústria automatizada voltada para produção de tacos, fornecendo o necessário alto valor agregado à madeira produzida no manejo florestal comunitário praticado na Resex.
Ainda em Xapuri se instalou a Natex, com repetidos graves problemas de gestão, mas que era uma fábrica de preservativos masculinos, de última geração, que seria abastecida com o látex nativo extraído nas colocações de seringa dos extrativistas que vivem no alto Rio Acre.
Finalmente, foi fundamental o papel dos profissionais que tinham trabalhado antes com a estratégia de desenvolvimento visionária da saída pela floresta, em organizações do terceiro setor, de modo a fortalecer a Capacidade de Governo, preenchendo a lacuna de compreensão e interpretação do Projeto Florestania.
Por sinal, foi com base na experiência adquirida por esses técnicos que tornou possível aprovar os três grandes projetos de financiamentos bancários, considerados decisivos para o modelo de desenvolvimento do Acre segundo os ideais do Florestania, baseado na saída pela floresta.
Mas, isso é outro artigo.
Atualizado pelo autor a partir do resultado da eleição municipal de 2024.
Segundo a teoria do Triangulo de Governo, elaborada pelo economista chileno Carlos Matus na década de 1970, os gestores e técnicos compõem a Capacidade de Governo que em conjunto com o Projeto de Governo e a Governabilidade formam o tripé de sustentação de um mandato.
Quando o tripé de sustentação funciona em equilíbrio, o mandato pode conseguir ter sucesso quando não, fracassa e o governante, vez ou outra, sai pela porta dos fundos do palácio.
No caso do fracasso do Projeto Florestania, analisado aqui e em outros nove artigos semelhantes publicados nesse espaço, a reduzida quantidade e qualificação dos gestores e equipe técnica comprometeu a Capacidade de Governo, que deveria criar as condições propícias ao progresso econômico com desmatamento zero.
Para quem acabou de chegar o Acre, em todo seu território, não possui as vantagens comparativas de seu vizinho Rondônia que esbanja potencial mineral, possui força hidroelétrica de sobra e terras planas férteis 100% mecanizáveis de dar inveja, tudo de acordo com o cenário desejado pelo agronegócio muito tecnificado que gera, fora daqui, a metade da riqueza nacional.
Nada disso, o Acre possui somente a vantagem comparativa de em quase 80% do território ainda existir biomassa florestal com índice de biodiversidade aferido e superior às formações florestais dos vizinhos.
Todavia, transformar a única vantagem comparativa em produtos que possam ser explorados com técnica e comercializados de maneira permanente e na quantidade requerida para gerar a riqueza que a sociedade necessita foi o que motivou um conjunto de organizações a conceber o que chamaram de saída pela floresta.
Após ser alçada à prioridade de governo a saída pela floresta se transformou em Projeto Florestania, o que levou as organizações que vinham executando uma série de ações, desde o final da década de 1980, a disponibilizar sua equipe técnica para diversos órgãos de governo em 1999.
De pronto se percebeu que o número de profissionais era menos de 10% da demanda para tornar a Capacidade de Governo coerente com o desafio imposto pelo Projeto Florestania.
Além de não atentar para a importância de uma equipe bem maior e mais especializada, os governadores e prefeitos eleitos sob os ideais do Florestania esqueceram de que o combate ao desmatamento era ponto inegociável para aquela nova estratégia de desenvolvimento.
Pelo contrário, as taxas de desmatamento, com algumas flutuações para baixo graças ao esforço do governo federal, segui a tendência de elevação em especial após o boom da pecuária extensiva no Acre a partir de 2007.
Talvez esteja aí, a informação que evidencia com razoável precisão a pouca, ou quase nenhuma, capacidade técnica existente para colocar o Projeto Florestania em prática.
A elevação da pecuária extensiva para um nível superior de participação no PIB estadual teve início a partir de 2007 até chegar em 2025, predominante em todo território do Acre, na beira das rodovias e na mata ciliar dos rios, com um expressivo rebanho de mais de cinco milhões de cabeças.
Talvez, com algumas boas doses de cinismo, a intensão dos líderes políticos fosse essa mesmo, a de repetir o slogan do Projeto Florestania no período eleitoral enquanto, de fato, acreditava na estratégia de desenvolvimento baseada na pecuária extensiva.
No ponto alto da hipocrisia política os líderes, provavelmente, consideraram que a sociedade acreana conviveria e aceitaria, em prol da riqueza trazida pela criação de gado, uma destruição florestal anual na casa dos 500 Km2, conforme observada no período entre 1999 e 2018.
Mas a conta eleitoral chegou e os fracassos constrangedores em 2018, 2020, 2022 e 2024, podem significar que o cinismo e hipocrisia podem ter moldado uma rejeição eleitoral com duração ainda indefinida.
Seria injusto, por óbvio, deixar de registrar os poucos profissionais que se mantiveram leais aos pressupostos do Projeto Florestania, a despeito de serem rotulados de traidores por um ou outro partido político que se denomina de esquerda.
Organizações voltadas ao monitoramento e pesquisas sobre as alternativas produtivas com desmatamento zero, se tornaram os poucos polos de uma saída pela floresta cada vez mais inexistente.
Alguns podem arguir que a falta de uma equipe técnica compatível com a demanda apresentada não tenha sido intencional e sim fruto da extrema ausência de especialistas com o perfil, quase inexistente no mercado, que era requerido.
Embora se reconheça a dificuldade do governo para selecionar e contratar profissionais experientes em projetos de desenvolvimento para o Acre, os líderes políticos do Projeto Florestania não demonstraram estatura para compreender e, o mais grave, tentar vencer esse desafio.
Resumindo, o complexo desafio da transformação produtiva em direção ao aproveitamento do potencial representado pela biodiversidade florestal se mostrou grande demais para o número e a experiência acumulada pelos especialistas disponíveis na estrutura de governo dos quatro mandatos.
Como afirmam os produtores criar boi é fácil, agora, manejar a floresta é muito complicado.
Aqueles que estão familiarizados com a realidade rural amazônica e sobretudo no Acre devem concordar que tirar a produção rural de mais de 40 anos de atraso tecnológico, em que predominam a criação de boi e o plantio de subsistência de arroz, feijão, milho e macaxeira, não é tarefa das mais simples.
Empreitada, contudo, piorada em demasia quando a alternativa ao primitivo modelo de corte-e-queima, única diga-se, reside na exploração de um rol de produtos que existem na biodiversidade florestal, mas que, devido a muitas razões, apresentam uma insuperável falha de mercado.
Ao mesmo tempo em que os produtos florestais possuem reconhecido valor econômico estratégico, para o futuro, a biodiversidade florestal não consegue ser comercializada com preço atrativo hoje, no presente.
Alguns produtos mais outros menos, porém a falha de mercado é uma realidade que persiste desde o final do século passado e somente poderá ser superada com ajuda incondicional e permanente de uma política pública que resista ao tempo. Pelos próximos 20 anos, por exemplo.
Para contextualizar pode-se afirmar que em uma métrica de sustentabilidade as diversas alternativas produtivas para ocupação do solo no Acre variam do menor nível e elevado risco ecológico, representado pelo desmatamento para plantio de capim, até o de maior sustentabilidade e risco ecológico zero representado pela Estação Ecológica do rio Acre, onde é proibido mexer na floresta.
Em outras palavras, assumindo que não há menor chance de convivência desses dois modelos funcionarem, ao mesmo tempo, na terra com e sem desmatamento, a economia no setor primário acreano se concentra em dois grandes grupos: exploração técnica e comercial da biodiversidade florestal versus destruição da biodiversidade florestal.
Dominar, compreender e concordar com essa máxima deveria ser uma condição para os especialistas entrarem na equipe responsável pela execução do Projeto Florestania. Mas, infelizmente, não foi nada disso.
Lançando mão do exemplo mais evidente e de simples constatação, tanto a política florestal iniciada em 2001 quanto o Sistema Estadual de Áreas Naturais Protegidas, considerados pilares para o Projeto Florestania, requeriam gestores com perfil e competência para conseguir ampliar a pequena participação da biodiversidade florestal na riqueza ou PIB acreano.
Finalmente, experiências de gestão pública bem-sucedidas demonstram que a competência para gerenciar e o domínio de especialidades em áreas prioritárias ao Projeto de Governo, são condições essenciais para evitar o colapso.
Mesmo que num primeiro momento o Projeto Florestania reuniu uma modesta, porém promissora equipe, os resultados mostram que no andar da carroça o profissional qualificado ou gestor ideal cedeu o lugar para o assessor pessoal e ao cabo eleitoral.
Sempre fiel ao partido político e muito preocupado com a próxima eleição, o assessor resguardava o futuro do político, sem se importar com o fracasso do Projeto Florestania.
Mas isso é outro artigo.
Atualizado pelo autor a partir do resultado da eleição municipal de 2024.
Capacidade de Governo é um dos vértices do Triangulo de Governo, que somado ao Projeto de Governo e à Governabilidade formam o tripé de sustentação de uma administração, em um país, estado ou cidade, por um ou mais mandatos.
Para o economista chileno Carlos Matus, mentor da teoria do Triangulo de Governo na década de 1970, quando o tripé funciona, o Presidente, Governador ou Prefeito, respectivamente, terá sucesso, quando não, fracassará.
Nesse contexto, pesquisar os detalhes dos últimos 30 anos da história política do Acre, tendo por referência a teoria do Triangulo de Governo, contribui na compreensão das causas para que o período de transformação produtiva, observado, sobretudo no início da década de 2000, desse lugar ao retorno do modelo de ocupação produtiva baseado na pecuária extensiva.
Ocorre que diante da subjetividade e generalização que contamina as declarações dos líderes políticos, caberia à equipe técnica que foi incorporada ao conjunto do funcionalismo público por meio de terceirização e nomeação para cargo de gerenciamento, conduzir o desafio de viabilizar o Florestania.
Resumindo, compor, com servidores públicos, cargos comissionados e profissionais terceirizados uma equipe com competência e dedicação para colocar em prática o Projeto de Governo demonstrou ser tarefa bem mais complexa do que se imagina.
A experiência única do Projeto Florestania, vivenciada durante 20 anos pelos acreanos (de 1999 a 2018), a despeito de seu estudo ter sido até hoje negligenciado pelos historiadores, engenheiros florestais, economistas e cientistas políticos, representa excelente fonte de análise ao mostrar com clareza o momento inicial, do sucesso eleitoral em 1998, e o final, do fracasso no pleito em 2018.
Fracasso eleitoral que, por sinal, se repetiu, de forma um tanto constrangedora, nos pleitos seguintes em 2020, 2022 e 2024.
Talvez pela falta de objetividade em relação aos pressupostos do Projeto Florestania (discutido no segundo artigo da série de 10), ou pela distorção entre a narrativa pautada no acreanismo e não na economia (artigo terceiro), ou ainda em decorrência do baixo convencimento dos envolvidos acerca da viabilidade de longo prazo da saída pela floresta (artigo quarto), o fato é que os múltiplos fracassos eleitorais confirmam a existência de uma rejeição perigosa e impossível de ser contextualizada.
Seria pouco inteligente buscar um ou vários culpados para assumir a responsabilidade pela rejeição eleitoral, da mesma forma que não pode existir dúvidas acerca de sua existência e, o mais grave, em um nível nunca antes observado entre os políticos do Acre.
Parece haver um oculto sentimento de traição em relação ao que a população foi levada a imaginar, para o futuro do Acre, com o Projeto Florestania e o que foi efetivamente entregue pelos líderes políticos que receberam, por muito tempo, a confiança do eleitor.
No fim das contas faltou discernimento aos prefeitos e governadores eleitos sob o manto do Projeto Florestania, para entender que a estratégia de desenvolvimento baseada na saída pela floresta, gestada por diversas organizações a partir do final da década de 1980, dependia de três condições elementares para se viabilizar.
A primeira condição era o prazo de sedimentação do Florestania.
Com ampliação paulatina e permanente da participação da biodiversidade florestal na geração da riqueza estadual no longo prazo, quem sabe a partir de 2030 (prazo estabelecido no Acordo de Paris), o Acre poderia alcançar o desmatamento zero mantendo o crescimento do IDH.
De maior impacto político a segunda condição diz respeito à negação da pecuária extensiva.
Por óbvio não significaria perseguir o pecuarista, pequeno ou grande, mas sim, em instituir mecanismos para reduzir, ano após ano, o robusto subsídio do orçamento do governo, recebido há mais de 30 anos pela criação do boi solto no pasto.
O prazo do desmatamento zero a ser alcançado em 2030 contribuiria para estimular o processo de transição produtiva no Acre, em direção à estratégia de desenvolvimento baseada na saída pela floresta.
Menos complexa, a terceira condição se refere à reunião de profissionais de alto nível e sem lealdade a qualquer partido político.
Convictos e crentes de que o Florestania é a única estratégia de desenvolvimento possível para a vocação natural do Acre, um conjunto de, no mínimo 40, especialistas nas mais diversas formações deveria ser distribuído nos mais de 20 órgãos de governo para executar, com alguma chance de sucesso, as ações de estímulo à saída pela floresta.
Motivados e, mais que tudo, peritos em suas respectivas especialidades os profissionais seriam nomeados gestores em diversas áreas e submetidos a uma coordenação institucional forte o suficiente para orientar a Capacidade de Governo em prol dos objetivos do Projeto Florestania.
Contudo, não há dúvida atualmente e a experiência comprovou que a operacionalização do Projeto Florestania não dependia somente da capacidade dos técnicos que atuavam nos órgãos públicos.
Sua complexidade exigia suporte incondicional dos líderes políticos, de maneira a adequar a expectativa que cada ator social e agente econômico cultivava em relação, de um lado, aos custos e, de outro lado, aos benefícios eleitorais da adoção do rumo estabelecido pelo Florestania.
Explicando melhor.
Tendo em vista que todo território acreano no primórdio da ocupação econômica se encontrava 100% coberto por floresta, não precisa pensar muito para entender que defender a pecuária extensiva, ou de qualquer outra opção produtiva para substituir a floresta, também significa aceitar o inevitável desmatamento.
Como todos estão cansados de saber, não há meias palavras, almoço grátis ou criação de boi solto no pasto no Acre sem destruição da biodiversidade florestal.
Assim, em que pese a omissão do Projeto Florestania em decidir por um ou outro caminho, posto que, como afirmado antes, os líderes políticos adotaram por regra abraçar a estratégia de desenvolvimento da saída pela floresta sem, contudo, desapontar os pecuaristas, a Capacidade de Governo pendeu para um e outro lado, conforme o pensamento majoritário em cada instituição e de cada gestor.
À deriva, sem orientação política superior os gestores e a equipe técnica executavam tarefas à gandaia, às vezes sob demanda e com rumo ou estratégia inteiramente desconhecida.
Entretanto havia uma realidade objetiva, como gostam os sociólogos, que os envolvidos no Florestania, de maneira discreta ou às claras sabiam ser crucial.
Afinal, existe razoável consenso científico de que a exploração da biodiversidade florestal superaria, no longo prazo, a estagnação econômica trazida pela estratégia de desenvolvimento baseada na pecuária extensiva. Uma estagnação que se arrastava desde a década de 1960 até o novo século, no período posterior ao ano 2000.
Em síntese, ninguém poderia negar que foi a biodiversidade florestal, uma vocação produtiva natural do Acre, que deu origem ao Projeto Florestania gestado por organizações da sociedade civil e não a necessidade de se fazer o contraponto ao agronegócio, com a baixíssima produtividade da pecuária extensiva, desde então desacreditado.
Concluindo, a condução de um processo técnico e político na dimensão exigida pelo Projeto Florestania, demandaria contratar profissionais com qualificação e experiência para conduzir a transição de uma economia baseada no boi solto no pasto, estagnada há mais de 30 anos, para uma nova economia de baixo carbono e desmatamento zero ancorada na biodiversidade florestal.
Todo profissional envolvido com setor produtivo entende as dificuldades para selecionar, treinar e fazer funcionar uma equipe de profissionais com especializações diversas em uma indústria, num supermercado, numa escola e até mesmo numa padaria.
Agora imaginem conseguir reunir vários peritos, alguns estreantes no serviço público com o propósito de, no curto prazo, consolidar uma Capacidade de Governo para atender cobranças imediatas por educação e saúde, enquanto colocava em pratica um rol de demandas novas, inventadas para viabilizar o Projeto Florestania.
Entretanto e infelizmente, os líderes políticos se beneficiaram do bônus eleitoral disseminado no imaginário do acreano pelo Florestania, sem nunca compreender, de fato, seu significado.
Como de resto, em 2018 a conta chegou e uma rejeição, que parece não ter fim no longo prazo, colocou todos os políticos antes identificados, mesmo que numa ínfima vinculação, com o Florestania em um canto escuro de um órgão público qualquer com a carreira política tendendo à extinção.
Mas isso é outro artigo.
Atualizado pelo autor a partir do resultado da eleição municipal de 2024.
Dos três vértices definidos pela teoria do Triangulo de Governo concebida pelo economista chileno Carlos Matus na década de 1970, o Projeto de Governo estabelece o rumo para engajar a sociedade e as forças políticas em uma estratégia de desenvolvimento em uma região específica.
Entretanto antes de e para ser alçada à condição de Projeto de Governo a estratégia precisa ser identificada, detalhada e traduzida de modo a se fazer compreensiva a todas as pessoas envolvidas.
Com recursos minerais limitados, ou quase inexistentes, e pouca ou nenhuma disponibilidade para aproveitamento de energia hidrológica e eólica, a história econômica do Acre mostra duas estratégias de desenvolvimento que se alternam, com poucos preocupantes avanços, ao longo do tempo.
Se, de início, o ciclo econômico da borracha e outros produtos oriundos da floresta, que durou até 1911, apresentaram estatísticas que reforçam uma estratégia de desenvolvimento ancorada na biodiversidade florestal, logo depois e atualmente, a riqueza trazida pela criação de gado consolida uma estratégia de desenvolvimento ancorada na pecuária extensiva.
Com alguns lapsos de importância, como durante e logo após a segunda guerra mundial, a produção da borracha nativa amazônica com destaque para o Acre, vez ou outra elevou sua participação na geração da riqueza estadual.
Entretanto, a produtividade muito superior dos monocultivos de seringueira em relação ao seringal nativo, fez com que São Paulo se tornasse o maior produtor nacional e desde 1993 a extração de látex nas florestas do Acre caminhou, sem nenhuma recuperação, para a extinção comercial.
Enquanto isso a pecuária extensiva ocupava áreas com as florestas dos antigos seringais até que o desmatamento explosivo chamasse atenção de todos, ganhando a manchetes do Jornal Nacional durante a década de 1970 e até meados da seguinte.
Embora a extração de madeira contaminasse o fraco raciocínio jornalístico o desmatamento sempre esteve associado, sem exceção e em qualquer momento histórico, à criação extensiva de gado.
Pressentindo a falência de uma estratégia ou modelo de desenvolvimento fadada ao fracasso por trazer benefícios reduzidos ante o elevado custo social e ambiental do desmatamento, diversas organizações da sociedade civil no Acre conceberam, do final da década de 1980 ao final da década de 1990, o que chamaram de saída pela floresta.
Com a denominação de Projeto Florestania a saída pela floresta ganhou as simpatias de um conjunto de lideranças políticas e foi alçado à condição de Projeto de Governo em sucessivas e esmagadoras vitórias eleitorais no período que vai de 1999 a 2018.
Com a justificativa simplificada de se contrapor ao desmatamento ao tempo em que se omitia no confronto à pecuária extensiva, presente não só na grande, mas também majoritariamente realizada na pequena produção rural, o agora Projeto Florestania de governo encantou a sociedade acreana.
Encantou mas, de fato, não convenceu!
Os constrangedores fracassos eleitorais dos políticos associados ao Projeto Florestania nos pleitos de 2018, 2020, 2022 e 2024, confirmam um fracasso com difícil explicação segundo as teorias no campo da ciência política.
Injusto, no mínimo, impingir ao Projeto Florestania os altos níveis de rejeição eleitoral carimbada nos políticos que se beneficiaram dos ideais preconizados pela saída pela floresta e o desmatamento zero até 2018.
Seria sensato, inclusive, afirmar que em um hipotético plebiscito a sociedade no Acre afirmasse SIM à saída pela floresta e NÃO ao desmatamento exigido para criar o boi solto no pasto.
Desistindo de achar uma explicação objetiva, restaria apelar ao sentimento de traição presente no inconsciente coletivo dos acreanos em relação aos políticos que prometeram uma saída pela floresta, com o Projeto Florestania, e entregaram o mesmo desmatamento, sempre exigido pela pecuária extensiva.
Como afirmam alguns, se à mentira se mostra a verdade, à injustiça se supera com direitos humanos, à pobreza se contrapõe com crescimento econômico, à traição resta responder com rejeição.
Embora seja muito necessária, a exclusão do Projeto Florestania do sentimento de rejeição que assola os políticos, que se denominam de esquerda, derrotados de forma constrangedora nos últimos quatro embates eleitorais não é tarefa simples e, uma certeza, pode levar muito tempo, outros vinte anos, talvez.
E o caminho começa por compreender as razões que fizeram com que o Projeto Florestania encantasse a todos, como um romantizado rico futuro harmônico, e não convencesse como estratégia de desenvolvimento econômico e para o desmatamento zero no Acre.
Considerado inovador e ousado o Projeto Florestania conseguiu angariar apoio esmagador de lideranças políticas no Acre e em Brasília, o que possibilitou a captação considerável de recursos orçamentários do governo federal em volumes impossíveis de serem repetidos.
Contando com farta sustentação política local e abundante fonte de financiamento por meio de convênios em Brasília (indo além do Fundo de Participação do Estado, FPE), esperava-se que o Projeto Florestania consolidasse uma nova dinâmica econômica no Acre, elevando o PIB a um patamar superior sem ampliar o desmatamento e, o melhor, de maneira duradoura.
Mas, infelizmente, não foi o que aconteceu e a economia se manteve estagnada nos níveis alcançados pela pecuária extensiva no século passado.
Sem surpresa positiva, o otimismo iniciado em 1999 cedeu ao desagrado e a fatura eleitoral foi cobrada em 2018 e continuou sendo até 2024.
Resumindo, os péssimos indicadores para economia acreana foram usados para explicitar o fracasso do Projeto Florestania, que, por sua vez, contribuiu para ressuscitar o antigo agronegócio da criação de boi solto no pasto, como se fosse alternativa estratégica para o desenvolvimento do Acre.
Um paradoxo acreano com certeza!
Uma série de contradições e alguns equívocos de interpretação fizeram com que a maioria das pessoas deixasse de enxergar o óbvio. Faltou ao Florestania senso de objetividade suficiente para priorizar a exploração da biodiversidade florestal enquanto modelo econômico de desenvolvimento.
Fazendo opção pela generalização, os líderes políticos responsáveis pela concepção da estratégia de desenvolvimento defendida no Florestania, não se deram conta de que a transformação produtiva prescrita na saída pela floresta, em direção a biodiversidade florestal, dependia de determinação política para excluir, por exemplo, o crédito estatal do Basa para a pecuária extensiva.
Enfim, não bastou aprovar a Lei 1.426 em dezembro de 2001, que instituiu a Política Estadual de Florestas para que o Florestania estimulasse uma estrutura de suporte ao desenvolvimento em que a energia elétrica nas cidades com menos de 50 mil habitantes poderia ser gerada em caldeiras movidas à queima de madeira e sobras de biomassa florestal.
Fácil imaginar o salto econômico fornecido pelo Florestania com a criação de emprego e renda através da rentável indústria de oferta de eletricidade a ser mantida com o manejo de área bem reduzida da biodiversidade florestal.
O segmento industrial de energia limpa prevê a substituição do motor movido a óleo diesel pela queima de biomassa em caldeiras, por isso sua participação na matriz de eletricidade encontra-se em franca expansão país afora.
E mais, reduzir a participação do petróleo na geração de energia permite acesso o novíssimo mercado jurisdicional de carbono.
Porém, o receio de perder votos pesou e os líderes políticos fizeram a sociedade acreditar que o Projeto Florestania incentivaria a saída econômica pela biodiversidade florestal e pelo gado, em que pese a impossibilidade científica para se produzir em um solo com e sem floresta, respectivamente.
Logo nos primeiros quatro de uma hegemonia que durou 20 anos, poucos insatisfeitos com a generalização do Florestania foram convencidos de que o detalhamento da estratégia de desenvolvimento viria com o Zoneamento Econômico e Ecológico, ZEE.
O que também, como se verá, não aconteceu.
Muito pelo contrário. De fato, com a aprovação da Lei 1.904 em 2007, que instituiu o ZEE no Acre, o agronegócio da pecuária extensiva recebeu significativa e bem localizada área de terras cobertas com florestas, em especial ao longo das rodovias BR 364 e 317, para sua ampliação por meio do desmatamento, agora legalizado pelo ZEE.
Foi a partir daí que as contradições do Projeto Florestania evidenciaram o risco do seu fracasso enquanto estratégia de desenvolvimento.
As consequências do pseudomodelo não tardariam a chegar. Seus defensores perderam tempo precioso tentando justificar as elevadas taxas de desmatamento, enquanto os líderes políticos do Florestania, por mais contraditório que possa parecer, recebiam queixas de perseguição aos produtores que desmatavam.
Enfim, deixando de fortalecer a vocação florestal do Acre ao mesmo tempo em que apoiava os pecuaristas às sombras, o Projeto Florestania se escudou no ZEE que deveria conciliar o impossível: criar mais boi sem destruir mais floresta.
Por isso, ao vislumbrar o fracasso em 2018, com a consagração eleitoral do Projeto de Governo do agronegócio que ressuscitou a falida pecuária extensiva, ninguém ousou defender o legado do Projeto Florestania.
Entretanto resta arguir até quando o Projeto Agronegócio sobreviverá ao paradoxo de plantar capim onde havia floresta sem aumentar o desmatamento!
É só esperar.
Atualizado pelo autor a partir do resultado da eleição municipal de 2024.
O Projeto de Governo, em conjunto com a Capacidade de Governo e a Governabilidade compõe o tripé que, segundo o economista chileno Carlos Matus, quando funcionam em equilíbrio fazem o sucesso de um mandato de governo, quando não, o fracasso.
Considerado ousado e inovador o Projeto de Governo Florestania, concebido por organizações da sociedade civil na segunda metade da década de 1980 e, em tese, iniciado de forma efetiva no Acre em 1999, deveria ter estabelecido as bases para um desenvolvimento econômico duradouro, sustentado na biodiversidade florestal e que mostrasse os caminhos para o futuro, mas não foi o que aconteceu.
Após sucessivas vitórias o fracasso surgiu a partir de 2018, com perdas eleitorais expressivas e, de certa maneira, difíceis de explicar segundo os pressupostos da ciência política.
Derrotas sucessivas nas eleições de 2018, 2020, 2022 e 2024, não deixam dúvida, existe tamanha rejeição que parece importar mais ao eleitorado acreano torcer pelos candidatos que perdem e não para os que são eleitos.
Rejeição que começa nos partidos políticos que se autodenominam de esquerda, passa pelas lideranças políticas que se elegeram no período entre 1999 e 2018, chegando, infelizmente, ao próprio Projeto Florestania.
Em contrapartida o modelo de desenvolvimento baseado na pecuária extensiva, considerado falido nos idos da década de 1980, foi reapresentado ao eleitor com a moldura enganosa do reconhecido sucesso nacional do agronegócio praticado nas regiões sul, sudeste e centro-oeste.
Na verdade, como um setor produtivo de expressiva importância para a riqueza brasileira, o moderno agronegócio do centro e sul do país que é executado com altíssima tecnologia e que encanta o mundo, por óbvio, em nada se assemelha à pecuária extensiva de baixa produtividade, tecnologia rudimentar e alto impacto ambiental, segundo o modelo implantado há mais de 50 anos no Acre.
Há ainda um fato grave que limita e confunde qualquer explicação sobre a rejeição eleitoral quase que generalizada demonstrada nos últimos quatro pleitos eleitorais: foi no auge do Projeto Florestania que ocorreu o boom da pecuária extensiva no Acre.
Não fosse a existência de estatísticas robustas demonstrando o crescimento surpreendente e vertiginoso da pecuária extensiva a partir de 2007, seria difícil crer que os números se referem ao período de vigência do Projeto Florestania.
Mas, isso mesmo, foi em 2007 que teve início o boom da pecuária extensiva, que tornou essa atividade produtiva hegemônica em toda região.
Ao alcançar um novo e elevado patamar de abates, quantidade de cabeças no rebanho e na composição do PIB estadual, a pecuária extensiva passou a crescer a uma taxa anual média de 6%, de maneira ininterrupta ao longo dos últimos 20 anos.
Concluindo com muito cuidado, tudo indica que com razoável dose de hipocrisia, foram as mesmas lideranças políticas que adotaram o marketing eleitoral do Projeto Florestania, que proporcionaram o boom da pecuária extensiva que, por sua vez, serviu de base ao Projeto Agronegócio que venceu as últimas quatro eleições e substituiu o derrotado, desde 2018, Projeto Florestania.
Todavia, tudo poderia ter sido diferente.
A história econômica e social do Acre seria outra se a saída econômica pela floresta, tal qual o pressuposto do Projeto Florestania gestado na sociedade civil antes de ser transformado em marketing do governo estadual, fosse de fato prioridade para a política pública.
Ao fim e ao cabo pouco se avançou além da construção das tímidas usinas de borracha e castanha-da-Amazônia, do subsídio para extração de látex e de reduzidas iniciativas para estruturar um polo moveleiro, de modo que o peso dos produtos florestais na composição da riqueza estadual se manteve estagnado.
Sempre preocupados com a próxima eleição e considerando que o eleitor não distinguia, com clareza, o impacto da difícil decisão entre Florestania versus Pecuária Extensiva em seu cotidiano e para o futuro do Acre, o investimento em uma economia florestal e de baixo carbono ficou sempre em segundo plano.
Com forte viés nacionalista e populista, os líderes políticos do Florestania levaram ao extremo o imaginário de um Acre revolucionário que lutou para ser brasileiro deixando de lado a ampliação do PIB com base no desmatamento zero.
Embora do ponto de vista simbólico a árvore estilizada usada como logomarca para representar o ideário envolto no Projeto Florestania tenha obtido um sucesso imediato e grandioso, alterar a realidade econômica se mostrou um desafio bem mais duro que o reconhecido simbolismo.
Transformada em timbre de papel oficial, em placa de obras e broche, a árvore que alguns acharam se tratar de castanheira (Bertholletia excelsa) foi estampada na lapela de ternos de políticos de um leque eclético de partidos e, inclusive, de servidores públicos no Acre e em Brasília.
Aqui cabe uma breve curiosidade.
A árvore de castanheira possui área de dispersão até o Rio Purus, com maior ocorrência no vale do Rio Acre e com poucos espécimes chegando ao município de Sena Madureira e nunca passando dali na direção de Feijó, Tarauacá, Mâncio Lima e Cruzeiro do Sul.
Outra curiosidade.
A extensa área de dispersão da castanheira coincide com os municípios acreanos onde a pecuária extensiva é predominante. Ao desmatar para criar boi o produtor condena a castanheira à extinção uma vez que a árvore, por razões ecológicas, não sobrevive sem a floresta ao redor.
Voltando ao Florestania, ninguém pensou no dilema econômico da dicotomia Castanheira versus Gado, na condição de exemplo concreto para o embate entre Florestania versus Pecuária Extensiva.
Afinal, onde se cria gado não se produz castanha da mesma forma que ao adotar o modelo do Florestania a pecuária extensiva teria que deixar de ser apoiada com os recursos públicos da política pública destinada ao desenvolvimento do Acre.
No fundo todos acreditaram, de pronto, que o neologismo Florestania como slogan e uma árvore como logotipo seriam suficientes para sugerir uma guinada em direção ao novo modelo de desenvolvimento, de baixo carbono, sustentável e ancorado na biodiversidade florestal.
E ficou nisso mesmo. Sem investir, por exemplo, na geração de energia elétrica com madeira e no mercado de carbono, o PIB florestal ficou estagnado e tudo não passou de mero simbolismo.
Pior, o desmatamento se manteve em taxas elevadas uma vez que a criação extensiva de gado recebeu as novas terras legalizadas após a aprovação do Zoneamento Ecológico-Econômico.
Com renovado ciclo de fartura de terras com florestas, a pecuária continuou recebendo mais de 90% do crédito rural do FNO e do Pronaf, geridos pelo Basa, para desmatar, nos moldes da década de 1970, a despeito dos sinais evidentes de colapso para a sustentabilidade ecológica da região.
Resumindo, o Projeto Florestania em seu nascedouro e nos primeiros anos se preocupou em resgatar a força da identidade regional dos acreanos e não em recuperar a economia estadual por meio da exploração comercial e sustentável da biodiversidade florestal.
Acreanismo se tornou a palavra de ordem em uma gestão governamental que perdeu, com o tempo, sustentação no potencial econômico representado pela floresta em pé.
Hoje, em 2025, parece não haver dúvida de que o resgate cultural da identidade acreana se mostrou bem mais simples que a execução de uma complexa política pública no teor exigido para destravar o crescimento econômico e melhorar o IDH no Acre.
Enquanto isso, a defesa da riqueza existente na biodiversidade florestal como eixo para o futuro do Acre foi cada vez menos defendida pelos líderes políticos do Projeto Florestania.
Mas isso é outro artigo.
Atualizado pelo autor a partir do resultado da eleição municipal de 2024.
Considerado um dos principais vértices da teoria do Triangulo de Governo elaborada, ainda na década de 1970, pelo economista chileno Carlos Matus, o Projeto de Governo funciona como aglutinador de atores sociais e agentes econômicos em torno de um alicerce e de uma estratégia para organizar uma identidade produtiva estadual de longo prazo.
Isto é, na condição de primeiro vértice do triangulo o Projeto de Governo expressa um modelo de ocupação e de crescimento para a economia estadual que os governantes atuais e os que vierem depois devem consolidar para evitar descontinuidade e garantir o desenvolvimento gradual, mas permanente da região.
Uma condição essencial ao Projeto de Governo é que seja explícito o suficiente para responder perguntas consideradas chave, o que o Projeto Florestania, definitivamente, escorregou de fazer.
Por outro lado, repetindo à exaustão o slogan “Produzir para empregar” um político experiente com passagem e derrotas em várias eleições conquistou a prefeitura de Rio Branco exaltando um Projeto de Governo que tinha na pecuária extensiva sua maior expressão.
Sendo a primeira eleição municipal após a derrocada em 2018 do grupo político que concebeu o Projeto de Governo Florestania, o retorno da pecuária extensiva enquanto identidade produtiva estadual foi uma decisão eleitoral, de certa maneira, bastante óbvia.
A despeito de conter diversas contradições e após ter sido testada e reprovada desde a década de 1970 do século passado, a criação de boi solto no pasto sempre contou com forte aparato estatal de financiamento embora apresente retorno econômico com grandeza questionável para garantir, após 2030, ou nos próximos 20 anos, o desenvolvimento estadual.
Nunca é demais lembrar que o marco temporal representado pelo ano de 2030 possui significado importante para o Acre em particular e para a Amazônia em geral por delimitar o prazo final estabelecido no Acordo de Paris, assinado em 2015, a partir do qual a meta do desmatamento zero deveria ser alcançada.
Com bem menos ênfase na agenda política do produzir para empregar, mas repetindo a defesa do agronegócio da pecuária extensiva como rumo para a economia estadual, a reeleição do atual mandatário da capital do Acre em 2024 não deixou de surpreender por muitas razões.
Duas hipóteses podem ajudar a entender a contundente vitória e merecem destaque.
A primeira que, com 93,5% da população vivendo em área urbana (segundo censo do IBGE de 2022) e se consolidando com a maior taxa de urbanização do Acre, bem acima da média estadual de 74,4%, Rio Branco possui gargalos insuperáveis, por exemplo, na oferta de água potável e tratamento de esgoto.
Contudo, enquanto o saneamento precário não aflige a população em seu cotidiano o caos se estabelece no enfrentamento diário de um transito com vias congestionadas e que demanda intervenção mínima para tapar buraco.
Nesse cenário a atenção do eleitor, tal qual o que acontece em toda cidade de médio porte, se voltou para a construção de um elevado de sentido único, uma obra simplória e aquém da demanda, que a despeito de não ser planejada ajudou a colocar o candidato de volta ao processo eleitoral.
Não custa relembrar que tudo aconteceu quase que por acaso e a gestão municipal tinha avaliação baixa e o candidato, em dezembro de 2023, havia sido excluído do partido político que o elegera e parecia sem chance nas pesquisas eleitorais.
Já a segunda hipótese é um pouco mais complexa por sugerir a permanência de uma rejeição entranhada, como se diz por aqui, ao grupo político que deixou o poder estadual e na capital depois de 2018.
Parece existir uma indisposição forte do eleitor acreano para com as lideranças políticas que ocuparam cargos no período entre 1999-2018. Rejeição que, de maneira inevitável, deságua no Projeto Florestania e nos partidos políticos que se proclamam de esquerda.
Apesar de negada pelos partidos políticos a eleição de 2024 evidenciou com clareza o sucesso da estratégia vitoriosa da reeleição que centrou foco em não deixar o eleitor esquecer que o opositor e segundo colocado, até então com a vitória confirmada por todos os institutos de pesquisa eleitoral, era o mesmo que estava vinculado ao grupo deposto em 2018.
Pouco se discutiu acerca do embate entre Florestania versus Pecuária Extensiva, entretanto tudo indica que o Projeto Florestania, embora possua tanta importância para o futuro do Acre quanto o agronegócio da criação extensiva de boi, recebeu porção considerável da rejeição eleitoral às lideranças ditas de esquerda.
Não por culpa e responsabilidade do eleitor que, em mais de 99% das vezes, acerta em sua decisão. Mas sim, em decorrência de um alto nível de incoerência de movimenta os políticos de todos os partidos sempre cegos quando em busca de votos.
Como explicar, por exemplo, o boom produtivo da pecuária no Acre ter ocorrido em 2007, ou a partir daí, durante e em plena execução da proposta do Projeto Florestania?
Certo grau de hipocrisia presente nas lideranças políticas ligadas ao Projeto Florestania, dispostas a tudo para vencer eleições, inclusive conquistar o impossível apoio dos pecuaristas, ajuda a entender, mas não satisfaz de todo a curiosidade.
Por sinal, falta no cenário político estadual atualmente proposta de identidade produtiva que se contraponha ao agronegócio da pecuária extensiva em que pese a comprovada dificuldade dessa atividade produtiva em gerar e manter riqueza de maneira permanente no Acre.
No frigir dos ovos, os vencedores não precisaram se ater no debate sobre identidade produtiva e não se esforçaram para defender a pecuária extensiva tal como nas eleições anteriores, diante da total ausência de candidatos corajosos a ponto de recuperar a discussão sobre o Projeto de Governo Florestania.
Acontece que quando foi concebido por organizações da sociedade civil, desde o final da década de 1980, o Projeto Florestania traduziu uma ideia de futuro almejado para a sociedade acreana, no qual seria possível obter crescimento econômico com elevação do IDH, sem que com isso se comprometesse a sustentabilidade ecológica no Acre.
Todavia, convenhamos, essa ideia força também é vendida, com bem mais clareza, pelo insustentável agronegócio da pecuária extensiva.
Nem precisa muita familiaridade com essa terminologia para perceber que nesse nível de generalização não há qualquer novidade. Claro que o Florestania deveria ir além dessa vulgarização e ser mais específico, porém como diz o adágio popular “é no detalhe que mora o diabo”.
Quando demonstrou inegável força eleitoral, na eleição de 1998, e durante os primeiros quatros anos de uma hegemonia política que duraria vinte, era possível pressentir fraturas no Projeto Florestania que, com todo risco que a sintetização acarreta, podem ser reunidas em três perguntas:
1 – Qual o limite de desmatamento seria permitido aos pecuaristas, para imprescindível ampliação anual da criação extensiva de gado, até que a consequente destruição da floresta sacrificasse a sustentabilidade ecológica de todo Acre?
2 – Qual a participação ideal no PIB da industrialização de toras de madeira exploradas com tecnologia de manejo florestal na composição do PIB estadual, gerando emprego e renda de maneira permanente todos os anos e mantendo a floresta em pé? e, o mais importante,
3 – De que maneira o potencial econômico da biodiversidade florestal poderia ser inserido na bioeconomia e comercializado com o auspicioso propósito de se tornar, no olhar de quem enxerga de fora, a marca da identidade produtiva do Acre e, no olhar de quem vê de dentro, um dos principais componentes da riqueza dos acreanos?
Porém e infelizmente, responder a essas três perguntas, como se percebeu logo no primeiro mandato, nunca foi e não é prioridade para os líderes políticos identificados com o Projeto Florestania.
Pelo contrário, ao enxergar que a sustentabilidade ecológica preconizada pelo Projeto Florestania dependia da imposição de rigorosos limites à ampliação do desmatamento e ao consequente crescimento do plantel de gado existente na pequena e grande propriedade, ninguém topou o risco de perder o suposto poder político dos pecuaristas.
Não à toa, em várias propriedades dos oito municípios localizados no vale do Rio Acre, região onde se encontra maior potencial para o agronegócio do gado no Acre, o limite legal para desmatamento havia sido ultrapassado bem antes, ainda em meados da década de 1990.
Explicando melhor, o Projeto Florestania se mostrou viável do ponto de vista eleitoral em 1999, graças à decadência econômica ocasionada pela pecuária extensiva e à exposição na imprensa da tragédia representada pelas recorrentes taxas anuais de desmatamento.
Capitaneado por uma nova geração de lideranças, uns poucos com carisma reconhecido pelo eleitor, o Projeto Florestania impregnou o imaginário dos acreanos com uma equação fácil de entender.
De um lado as caras novas na política e de outro a expectativa de progresso com um crescimento econômico duradouro, valorizando a tradição dos seringais e com desmatamento zero, foi o oásis prometido pelo Projeto Florestania.
Contudo, acendendo uma vela para um e para o outro, tentando agradar aqueles que defendiam o manejo da fauna silvestre, da copaíba, das sementes e de outros produtos da biodiversidade florestal, sem, contudo, desagradar os que preferiam o necessário desmatamento da pecuária extensiva, os líderes do Projeto Florestania se perderam em suas próprias contradições.
Mas isso, já é outro artigo.
Atualizado pelo autor a partir do resultado da eleição municipal de 2024.
Para aqueles que esperavam uma diminuição da rejeição ou até mesmo alguma possível recuperação eleitoral do grupo político que governou o Acre por 20 anos, no período entre 1999 a 2018, nas eleições municipais de 2024 a decepção foi arrasadora.
Ao reeleger o atual prefeito, ainda no primeiro turno com uma margem considerável de quase 55% dos votos, o eleitor de Rio Branco fez com que o segundo colocado, herdeiro político do período em que o sucesso do Projeto de Governo denominado de Florestania não tinha adversário, amargasse sua segunda derrota eleitoral acachapante, como gostam de gritar analistas locais pouco iniciados em ciência política.
Aos que esqueceram alguma parte dessa história, o resumo pode ser mais ou menos assim.
Desde o sucesso eleitoral em 1999, que o Projeto Florestania, um neologismo criado para sintetizar um conceito abstrato de cidadania associado ao crescimento econômico ancorado na biodiversidade florestal, venceu todas sucessivas eleições até chegar ao fracasso nos pleitos de 2018, 2020, 2022 e agora em 2024 de forma, no mínimo, constrangedora.
Encontrar as razões para o sucesso eleitoral por vinte anos e os seguidos fracassos pelos últimos oito do Projeto Florestania, não é tarefa fácil. Por isso existe considerável lacuna na publicação de estudos no campo da ciência política que esteja sustentado por base estatística robusta.
Ou que seja capaz de fornecer elementos confiáveis para ajudar a entender o período mais interessante e instigante da história política recente do Acre, iniciado com o fim do nefasto período de ditadura militar.
Ocorre que embora exista um conjunto de fatores a influenciar vitórias e derrotas eleitorais, que vai do carisma e atuação do candidato, passando pelo tamanho e abrangência do grupo de apoio até chegar ao atendimento das duas exigências elementares sem as quais não há candidatura (quantidade adequada de dinheiro e perícia do marqueteiro), o produto de fato, que deve orientar toda propaganda eleitoral e que será submetido ao crivo do eleitor, sempre será um idealizado Projeto de Governo.
Fornecendo identidade estadual e assegurando viabilidade técnica e econômica para ser implantado, o Projeto de Governo levará até as pessoas o imaginário de um futuro diferente, que mudará sua vida e a de todos para melhor.
Por sinal, embora tenha escapado aos analistas de plantão, vale citar um fato curioso observado nas quatro últimas eleições, ocorridas a partir de 2018, em que o Projeto de Governo que defende uma impossível pecuária extensiva sustentável não encontrou opositores, sendo defendido por todo postulante a cargo majoritário, do governador aos senadores e prefeitos.
De imediato e a despeito da surpresa, todos aqueles que se esforçam para entender a política local deveriam se questionar, mesmo que de forma resumida, sobre o que acontecerá com o futuro do desenvolvimento no Acre em decorrência da adoção de um ou de outro Projeto de Governo.
Com um adendo importante.
A pecuária extensiva é inviável do ponto de vista ambiental e ecológico, uma vez que o capim imprescindível ao pastoreio do gado não cresce na sombra, embaixo das árvores, o que transforma o desmatamento, ou melhor, a retirada das árvores e de suas sombras, condição indispensável para ganhos de escala e viabilidade econômica.
Por sinal nunca é demais repetir. Toda e qualquer atividade produtiva no meio rural amazônico que depende de desmatamento para ocupar o lugar da floresta contraria princípios básicos de sustentabilidade reconhecidos em todo planeta.
Todavia, ninguém se preocupou em opor Florestania versus Pecuária extensiva como identidade produtiva a ser perseguida pela sociedade acreana para auferir e distribuir riqueza de maneira permanente, com aquela condição inegociável: jamais aumentar o desmatamento.
Contudo, voltando às últimas eleições, parece que de um momento para outro, no amanhecer do dia seguinte, sem que exista alguma justificativa inteligente, plausível e verificável por estatísticas, do nada, todos os políticos passaram à defesa do Projeto Agronegócio enquanto que, por outro lado, o Projeto Florestania perdeu seus defensores de maneira irreversível e ao que tudo indica, para o resto da enfadonha história politica e econômica do Acre.
Uma explicação, frágil diga-se, para o apoio incondicional ao agronegócio por 100% dos candidatos a cargo majoritário sugere que, em uma vã tentativa de escapar do isolamento e de uma previsível derrocada eleitoral, os políticos e gestores por várias razões rejeitados, esperavam transferir o desgaste político para o Projeto Florestania, que, em tese, estaria mais vinculado a certas lideranças que a outras e, sobretudo, distante de uma rejeição geral aos partidos políticos ditos de esquerda.
Enquanto isso a crescente rejeição aos políticos que ocupavam cargos importantes, intensificada em especial a partir do boom da pecuária no Acre em 2007, se misturou com a negação do Projeto Florestania enquanto modelo econômico mais adequado para a realidade ecológica do território do Acre.
Os resultados mostraram que a rejeição àqueles líderes políticos foi bem maior do que o significado eleitoral do Projeto Florestania, com o agravante de que a defesa do Agronegócio da pecuária extensiva desnudou a total falta de proposta e ausência de rumo para o desenvolvimento do Acre dos grupos políticos de direita, de centro e de esquerda na disputa eleitoral.
Não à toa, desde 2007 as estatísticas da pecuária extensiva no Acre mostram o impressionante e ininterrupto crescimento do plantel de gado que ultrapassou cinco milhões de animais em 2024.
Note-se que, por mais inusitado que possa parecer, o boom da pecuária extensiva no Acre aconteceu durante e a partir do terceiro mandato do grupo político que obteve inquestionável sucesso eleitoral na defesa do Projeto Florestania enquanto identidade produtiva estadual alternativa à pecuária extensiva.
Como assim?
Uma conclusão simples e resumida deixa claro que, de maneira explícita ou não a pecuária extensiva contou com apoio dos defensores do Projeto Florestania na tentativa de estancar uma crescente rejeição no terceiro mandato (2007-2010) e que chegou ao pico durante o quinto e derradeiro mandato entre 2015-2018.
Afinal, se todos os políticos se igualaram na única proposta de futuro para a economia no Acre e sendo que a hegemônica pecuária extensiva se mostra, desde a década de 1970, incapaz de suportar o desenvolvimento o que continua pesando na decisão do eleitor é a rejeição.
Ou, como no dito popular: importa mais quem pegou a Balsa e não quem entrou no Palácio.
Uma rejeição eleitoral, nunca é demais repetir, jamais observada na história política do Acre, que, por sinal, está repleta de casos incríveis de políticos com sucesso eleitoral estrondoso que, sabe-se lá por quais razões, foram esquecidos em uma amarga e eterna rejeição.
E que continua.
No caso da eleição de 2024 para prefeito, o esquecimento e paulatino apagamento dos ideais do Projeto Florestania não foi suficiente para reverter indisposição do eleitor com os seus antigos defensores.
Há ainda um fato novo a se verificar. Além do apoio à pecuária extensiva o segundo colocado decidiu, por óbvio pensando reverter o nível de rejeição, mudar seu grupo político de apoio, na expectativa de que um novo partido político seria suficiente para fornecer uma nova e mais competitiva perspectiva eleitoral, o que não aconteceu.
Como afirma nosso antigo manual de política não existe afastamento mais ou menos quando se trata de rejeição aos políticos.
Mudar de partido político parece ter sido pouco para o candidato derrotado se mostrar como uma alternativa eleitoral renovada e distante dos antigos aliados, alguns poucos ainda identificados com as ideias do Projeto Florestania.
É possível, contudo, que o maior erro tenha sido manter coligações com os partidos e o grupo político autodenominado de esquerda.
Ao se orgulhar de que o desligamento do antigo partido político teria se realizado sem desavenças, o candidato derrotado fez crescer em igual proporção sua proximidade com os políticos rejeitados o que facilitou a estratégia do candidato reeleito centrada em não deixar o eleitor esquecer-se do vínculo do adversário com uma suposta ideologia socialista e comunista.
Enfim, negar o Projeto Florestania sem colocar nada no lugar tem feito com que os candidatos desde 2018 se nivelem pela mesmice de propostas em relação a uma identidade produtiva estadual e um modelo de economia baseada no impossível: uma pecuária extensiva que não depende do desmatamento.
Por outro lado o Projeto Florestania, embora hegemônico por quase 20 anos sob a justificativa de maior viabilidade econômica, sustentabilidade ecológica e adequação à cultura produtiva do extrativismo florestal, foi esquecido em um canto qualquer.
Entretanto, deixando uma pergunta bem inconveniente:
Teria a sociedade no Acre abandonado a expectativa de uma economia estadual moderna, baseada na biodiversidade florestal como única alternativa para o desmatamento zero e se voltado para a antiga e ultrapassada pecuária extensiva que mantem o desenvolvimento do Acre estagnado desde a década de 1970?
Para o período que cobre os primeiros dezoito anos desse século a resposta seria um grande NÃO. Da mesma forma que para o período após 2018 um grande SIM.
Finalmente, desde o início de sua implantação, o Projeto Florestania, em que pese a enorme popularidade, no Acre e em Brasília, conseguida com farto investimento em publicidade governamental, se mostrava carente de objetividade o que, todos haverão de convir, tornaria qualquer tentativa de definição pouco precisa.
Acontece que ao incluir aspectos culturais, econômicos, sociais, ecológicos e políticos o neologismo Florestania não conseguiu escapar à costumeira e perigosa generalização que, como mostra farta literatura em ciência política, pode proporcionar algum sucesso eleitoral, mas, em contrapartida, fracassará na concertação do pacto social para garantir sua continuidade e, o mais importante, um futuro diferente para a população do Acre.
Por sinal, analisando com o devido distanciamento, tudo indica que o propósito da equipe que concebeu o neologismo Florestania foi o de agregar todas as correntes de pensamento existentes no Acre, de modo a firmar uma frente eleitoral para manter o comando do governo estadual para sempre.
Como afirma a ciência política o Projeto Florestania foi antes de tudo um Projeto de Poder.
Partindo dessa diretriz, na qual todos os modelos de economia estadual são aceitáveis ao contribuir para conquista do governo, se reduziria o risco da perda de apoio político.
Da mesma maneira que tornar mais claro, objetivo e específico o conceito de Florestania acarretaria, de outra banda, a exclusão de um ou outro ator social ou agente econômico, o que aumentaria em igual proporção o risco de uma derrota eleitoral.
E perder eleições, pode desculpar, era inadmissível para os líderes políticos do Projeto Florestania.
Assim, a generalização tornou possível manter por um bom tempo uma frente ampla, que abarcou todos os espectros políticos incluindo partidos de esquerda, de centro e de direita.
Ninguém ficou fora do bônus eleitoral. O Projeto Florestania escancarou a porta para aliciar todos e olha que foram muitos, com a condição de não contestar seus líderes políticos.
E deu certo.
É inegável que em certo momento da história política do Acre, a sociedade formou uma maioria de eleitores, aglutinados em torno de líderes políticos jovens que inspiravam as pessoas com a novidade trazida pelo Florestania.
Naquele momento histórico parecia que nada poderia dar errado, mas deu!
Claro que se trata de uma discussão deveras complexa e para ajudar a entender esse período único da incipiente política no Acre, nada mais prudente que resgatar um pouco dos clássicos.
Dentre os vários estudos especializados na análise de processo político e de governo, consagrados em extensa literatura, a teoria sobre Planejamento Estratégico Situacional, elaborada pelo economista chileno Carlos Matus ainda na década de 1970, pode elucidar alguns pontos importantes para entender o sucesso e fracasso do Projeto Florestania de governo no Acre.
Com a experiência adquirida na assessoria de Salvador Allende, que governou o Chile de 1970 a 1974, Matus concebeu o que denominou de Triangulo de Governo, um conjunto de três sistemas considerados determinantes para que uma nova força política conseguisse satisfazer as demandas de curto prazo da população ao mesmo tempo em que criava bases econômicas para uma identidade produtiva estadual sustentável e de longo prazo.
Matus defendia que sem prevalência ou importância diferenciada, cada vértice deveria ser analisado em separado desde que, contudo, caminhassem juntos de modo a manter o equilíbrio.
Resumindo, o inevitável fracasso do governo ocorreria se apenas um dos três vértices deixasse de funcionar.
Assim, Matus definiu o Triangulo de Governo composto da seguinte forma:
Projeto de Governo – Delimita um rumo ou uma identidade produtiva e ideia força que aglutina os atores sociais e agentes econômicos em torno de um modelo para o desenvolvimento permanente da região no longo prazo, ultrapassando por óbvio o horizonte temporal de quatro anos de mandato;
Capacidade de Governo – Representa o somatório da infraestrutura existente nos órgãos de governo incluindo a equipe técnica disponível e com competência suficiente para tornar realidade o Projeto de Governo, considerando ano após ano a demanda imediata e futura da sociedade; e, finalmente,
Governabilidade – Reúne as forças políticas e eleitorais cujas características e concepções ideológicas permitem solidificar o compromisso com o Projeto de Governo, fornecendo o lastro social requerido para evitar ruptura, retrocesso e, o mais grave, descontinuidade.
Em sua célebre obra “Adeus Senhor Presidente”, Matus faz uma analogia ao contar a história de um político que sai, pela porta dos fundos, da vida pública sendo para sempre esquecido após fracassar no seu mandato.
Desiludido, enquanto recebe o adeus melancólico de assessores próximos, o político revisa suas decisões enquanto exerceu a presidência para entender as razões da péssima avaliação de seu governo.
Para os que leram o livro um alerta: qualquer semelhança com a realidade política do Acre no pós-2018 não será mera coincidência.
Esse é o desafio iniciado aqui e em outros nove artigos.
Ajudar a compreender a raiz do problema que acarretou o fracasso do Florestania, um projeto político, de poder e eleitoral que pareceu, até 2018, sólido e invencível.
Claro que algumas pedras dessa barragem, com perdão do duplo sentido, começaram a ruir bem antes. Encontrá-las será crucial para história política do Acre.
Apesar de os muitos desesperados continuarem aguardando pelo fim do mundo no curto prazo, três acontecimentos importantes colocaram a Amazônia no rumo da sustentabilidade em 2025.
O primeiro e mais importante deles, como não poderia ser diferente, foi a redução expressiva e por quatro períodos consecutivos na taxa anual do desmatamento, medida desde 1988 pelo conceituado Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, o Inpe.
Tudo indica que conseguimos superar de uma vez por todas a tendência de elevação, que se arrastou durante o período nefasto de 2019 a 2022 em que o governo federal teimava em brigar com o mensageiro, no caso o Inpe, e não em conter o desmatamento.
Por pouco a taxa, inclusive, não fica abaixo dos 5.000 Km2, se igualando ao simbólico ano de 2012 que apresentou a menor taxa da série histórica de estatísticas publicadas pelo Inpe, quando se destruiu uma área de 4.751 Km2 de florestas.
Conseguir uma redução desse calibre não é tarefa fácil e o governo federal merece as congratulações, a despeito de o esforço ter sido concentrado no investimento em fiscalização e no combate, por óbvio, ao desmatamento ilegal.
Um cenário bem mais alvissareiro será obtido quando se conseguir reduzir a atração de investimento representada pela pecuária extensiva praticada a partir do desmatamento da floresta existente em terra com situação fundiária legalizada.
Se por um lado a expansão da pecuária extensiva realizada sob o desmatamento ilegal pode ser contida com o aparato de fiscalização (federal, estadual e municipal), a atratividade do investimento na pecuária extensiva em terra legalizada continua sendo muito superior a qualquer outra atividade produtiva que conserva a floresta em pé em terra legalizada.
Não à toa, o fim do crédito subsidiado, via FNO e gerido pelo Basa, para a pecuária extensiva pode significar o divisor de água para chegar, um dia, ao desmatamento zero.
E não adianta. Não há plano b.
Somente o aumento da competividade da biodiversidade florestal frente à pecuária extensiva, por sinal, praticada com baixíssima produtividade, possibilitará chegar ao desmatamento zero da Amazônia.
O segundo acontecimento importante foi o sucesso da realização da COP30 em Belém do Pará.
Além de colocar o Brasil no rol das lideranças dos países para a política internacional de meio ambiente, nossos diplomatas demonstraram capacidade única de articulação e de capacidade de alcançar resultados.
Sem dúvida poderíamos ter avançado mais na meta do desmatamento zero da Amazônia, entretanto conseguimos ampliar de maneira considerável a quantidade de dinheiro a ser investido em uma transformação produtiva rumo à economia de baixo carbono.
Além disso, o país avançou de maneira significativa na estruturação do mercado de carbono, quer seja o voluntário, regulado ou jurisdicional.
Cada vez mais os governadores da Amazônia se dão conta de que o recurso obtido com o mercado jurisdicional de carbono representa mais que um importante ativo financeiro, fornece também ganho de reputação incomparável à sua administração.
Indicadores de sustentabilidade foram definidos para um rol de atividades produtivas que a partir de agora precisam ir além do discurso verde e se enquadra em um conjunto de métricas para serem consideradas sustentáveis e assim acessar o mercado de carbono.
Por fim e não menos importante, o terceiro acontecimento excepcional foi a aprovação da Lei Geral do Licenciamento Ambiental, o que poderá agilizar, por exemplo, a construção de hidrelétricas na Amazônia aumentando o estoque primordial de água e melhorando a umidade relativa em alguns locais.
Um novo horizonte se apresenta para a Amazônia a partir de 2026 e o futuro com desmatamento zero está cada vez mais próximo.