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Fim do Florestania no Acre: Bancos apoiaram a “saída pela floresta”

Ecio Rodrigues & Aurisa Paiva, 22/02/2026

Atualizado pelo autor a partir do resultado da eleição municipal de 2024.

Com sucesso extraordinário, o Projeto de Governo do Agronegócio, que se esforça para colocar a pecuária extensiva, nos moldes primitivos praticados no Acre no mesmo nível das commodities produzidas com alta tecnologia nas demais regiões do país, venceu as eleições de 2018, 2020, 2022 e 2024.

Aos derrotados, não sobrou muita coisa.

De maneira constrangedora o eleitor do Acre rejeitou nos quatro últimos pleitos e com visível determinação, todos os candidatos que, de maneira direta ou indireta, tiveram vinculo com o Projeto de Governo alternativo à pecuária extensiva, o Projeto Florestania.

Muitos questionam a viabilidade objetiva de uma estratégia de desenvolvimento para o Acre baseada na biodiversidade florestal, um questionamento mais que legítimo e que não significa partir para a defesa de uma economia baseada na pecuária extensiva.

Com empecilhos diagnosticados às tantas e por várias instituições, a geração de renda por meio da exploração técnica e comercial do potencial florestal da região apresenta gargalos históricos e até então insuperáveis.

Em contrapartida, todos reconhecem que não há justificativa, econômica ou política, para a continuidade do desmatamento anual requerido na substituição das árvores pelo capim que alimenta o rebanho solto no pasto, segundo o procedimento adotado na pecuária extensiva.

Assumindo ser, no mínimo, irresponsável concordar e defender o desmatamento, diversas agencias de financiamento do desenvolvimento regional se prontificaram e, de certo modo, atestaram a viabilidade econômica, técnica, social e ecológica da saída pela floresta.

Concebida e elaborada por um conjunto de organizações do terceiro setor no Acre a partir do final da década de 1980, a possibilidade de um desenvolvimento baseado na exploração técnica e comercial da biodiversidade florestal, denominada de saída pela floresta, se transformou em Projeto Florestania, ainda em 1999.

Três Bancos, com reconhecido histórico de sucesso no financiamento do desenvolvimento mundo afora, apostaram sua reputação ao prover consideráveis recursos financeiros, demandados pelo Projeto Florestania.

Durante o sucesso eleitoral, que durou até 2018, impossível deixar de reconhecer o empenho do Banco Mundial, BNDES e Banco Interamericano, que emprestaram parte e doaram outra parcela expressiva do dinheiro empregado na execução da Política Estadual de Florestas e das diretrizes do Zoneamento Ecológico-Econômico do Acre.

Em nenhum momento nesse período e mesmo depois com as sucessivas vitórias eleitorais do Projeto Agronegócio os três bancos se arriscaram a associar sua marca com o desmatamento ilegal e o legalizado, ao financiar a criação de boi solto no pasto.

Sem muito esforço é possível concluir que o Projeto Agronegócio não conta hoje e não contará no futuro com o suporte do financiamento de agencias internacionais, especializadas nas estratégias de desenvolvimento regional em todo o planeta.

Surge nesse ponto a pergunta inescapável: Os Bancos financiaram o Florestania ao comprovar a viabilidade técnica e econômica da saída pela floresta, o que de fato aconteceu, ou, temeram o risco de ver sua reputação vinculada ao desmatamento demandado pela pecuária extensiva?

Por outro lado, ha uma segunda questão inescapável: Sem o providencial financiamento dos Bancos o sucesso eleitoral do Florestania aguentaria os 20 anos conseguidos?

Finalmente, ainda uma terceira pergunta: Os agentes financeiros, bem lá no fundo da alma, sabiam da indiferença que os lideres políticos nutriam em relação ao Florestania?

Na verdade dos fatos o Florestania como estratégia de desenvolvimento apropriada para o futuro do Acre com desmatamento zero, não chegou a ser priorizado pela Capacidade de Governo enquanto era festejado em palanques eleitorais.

Pode ser, por conseguinte, que os governadores e prefeitos eleitos sob o manto do Florestania e que receberam a aprovação dos Bancos em financiamentos consideráveis, fossem negligentes quanto à saída pela floresta, preocupados que estavam com seu próprio futuro.

Pode ser que os Bancos, por seu turno, se interessassem por testar a viabilidade do Projeto Florestania, como propaganda de uma agenda verde que por ventura defendiam, mesmo reconhecendo as insuperáveis barreiras econômicas e a eterna incapacidade dos líderes políticos para levar o Projeto Florestania muito adiante.

O fato é que para explicar as causas do sucesso ininterrupto por 20 anos do Projeto Florestania seguido da derrota para o Projeto Agronegócio nos últimos oito, o envolvimento dos Bancos de desenvolvimento, que deram e negaram, respectivamente, suporte técnico e financeiro, se mostra revelador.

Usando a tese do Triangulo de Governo, concebida na década de 1970 pelo chileno Carlos Matus, para analisar a guinada política ocorrida no Acre em 2018, percebe-se que o vértice da Capacidade de Governo, da Governabilidade e do Projeto de Governo não caminhou segundo o equilíbrio desejado.

Acontece que, como analisado nos sete artigos anteriores, o Projeto Florestania optou pela generalidade sendo omisso em decidir entre o apoio ao agronegócio da pecuária extensiva ou ao uso econômico da biodiversidade florestal como referência para a estratégia de desenvolvimento.

Sem contar com a orientação e determinação dos líderes políticos que conquistaram cinco sucessivos mandatos eleitorais, o embate biodiversidade versus pecuária no Projeto Florestania foi vencido no momento da execução segundo o pensamento de cada equipe de técnicos que atuava em órgãos distintos.

No conhecido salve-se quem puder, em um primeiro momento a maior parte dos especialistas atuou de modo a promover a força econômica da biodiversidade florestal e após o primeiro mandato, de uma hegemonia que durou 20 anos, descambou para o apoio à criação extensiva de boi.

Por sinal, quando chegou em 2018 e nos seis anos depois em 2024, a equipe técnica que fornecia Capacidade de Governo ao Projeto Florestania deixou tanto de questionar a estagnada economia trazida pela pecuária extensiva quanto a defender a saída pela floresta.

Desculpe leitor, mas cabe aqui uma última pergunta inevitável.

Se a equipe técnica que conduziu a Capacidade de Governo dos primeiros anos, mesmo com visível timidez, pendeu para o modelo de desenvolvimento da biodiversidade florestal almejando o desmatamento zero, qual a razão para voltar as atenções para o agronegócio da pecuária extensiva no período posterior a 2006?

Diante de tal complexidade, a resposta exige uma avaliação mais detalhada com relação ao perfil dos especialistas que conduziram a Capacidade de Governo entre 1999 e 2018, o que foge ao escopo desse tipo de artigo.

Há, contudo, duas variáveis de peso considerável nessa análise: a aprovação do Zoneamento Econômico-Ecológico, ZEE, e os necessários empréstimos bancários demandados para pavimentar ruas e construir a infraestrutura requerida pelo desenvolvimento econômico do Acre.

Deixando a discussão sobre o ZEE para mais tarde, conseguir captar os recursos junto ao competitivo sistema financeiro, em que organizações do porte do Banco Mundial (BIRD), BNDES e Banco Interamericano (BID) recebem centenas de projetos todos os anos, requereram do governo do Acre metas rígidas e verificáveis para o propósito do desmatamento zero.

Vários foram os apoios financeiros, reembolsáveis e a fundo perdido, emprestados e doados respectivamente, captados entre 1999 e 2001, por meio de projetos considerados inovadores pelos analistas de crédito dos bancos.

Desnecessário reiterar que em todos os projetos elaborados nesse período a sustentabilidade e o respeito ao meio ambiente, traduzidos como redução do desmatamento era a peça-chave para aprovação.

Não à toa, todas as notas de rodapé das propostas traziam a máxima de um desenvolvimento viável para economia, com desmatamento zero ou equilibrado do ponto de vista ecológico e socialmente justo.

Por óbvio, a marca com o diferencial ecológico alcançado pelo Acre em sua histórica defesa da floresta, em que figuram líderes sindicais como Chico Mendes, convenceu os agentes financeiros a destinarem expressivas quantias ao setor primário do Acre.

BNDES, BIRD e BID, os três maiores financiadores do desenvolvimento no Acre, apostaram na saída econômica pela biodiversidade florestal se tornando fiel da balança para que a Capacidade de Governo perseguisse esse rumo.

Políticas públicas aprovadas na fase inicial do Projeto Florestania incluíram a construção da indústria de pisos, da Natex, de algumas usinas de borracha e de Castanha-da-Amazônia, além do polo moveleiro e aprovação de quase 20 mil hectares de manejo florestal comunitário.

Sempre com apoio financeiro da tríade BNDES, BIRD e BID.

Pode-se afirmar, sem medo de errar, que o argumento da exploração econômica da biodiversidade florestal, ou da saída pela floresta, foi o que diferenciou o Acre e atraiu esse seleto grupo de investidores.

Improvável, no mínimo, que a tríade arriscasse sua reputação financiando uma atividade econômica que, de maneira direta ou sinuosa, destruísse a floresta.

Porém, após aprovação da Lei do ZEE a influência da tríade se reduziu e a equivocada racionalidade eleitoral levou a Capacidade de Governo para o agronegócio do boi solto no pasto.

Mas isso é outro artigo!

Oscar 2026 continuará premiando o politicamente correto

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Fim do Florestania no Acre: Aliciamento eleitoral não evitou derrocada

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Não eram poucos técnicos, estavam bem qualificados e dariam conta da transformação produtiva do Acre em direção à produção explorada na biodiversidade florestal. Mas algo não aconteceu!

Faltaram algumas coisas, todavia, a principal lacuna foi a ausência de determinação política.

Os líderes políticos, eleitos governador e prefeito, bem cedo, deixaram a equipe técnica e as instituições à deriva, a partir do momento que entenderam que a pecuária extensiva estaria excluída da prescrição técnica e científica predominante na estratégia da saída pela floresta e, logo depois, na execução do Projeto Florestania.

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Fim do Florestania no Acre: Com ZEE a Governabilidade foi capturada pelo agronegócio da pecuária extensiva     

01/03/2026

Em síntese, mesmo que em um primeiro momento a Capacidade de Governo para concretizar o Projeto Florestania deu ênfase na valorização da biodiversidade florestal como principal ativo econômico acreano, o ZEE concretizou o contrário.

Aquela suposta determinação inicial por um progresso a ser alcançado por meio de uma economia de baixo carbono, ancorada na biodiversidade florestal e com desmatamento zero, que havia sido estimulada e impingida pelos contratos de financiamento com a tríade BNDES, Banco Mundial e Banco Interamericano, sucumbiu a partir da aprovação do ZEE.

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Fim do Florestania no Acre: Técnicos, ONGs e Capacidade de Governo     

15/02/2026

Antes de se chamar Florestania e ser alçado à condição de Projeto de Governo em 1999, um conjunto de seis organizações não governamentais, ou do terceiro setor, ou ainda organizações da sociedade civil, para usar uma denominação menos preconceituosa, discutiram e detalharam vários pontos do que chamavam de saída pela floresta.

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Fim do Florestania no Acre: Gestores e técnicos despreparados     

08/02/2026

Lançando mão do exemplo mais evidente e de simples constatação, tanto a política florestal iniciada em 2001 quanto o Sistema Estadual de Áreas Naturais Protegidas, considerados pilares para o Projeto Florestania, requeriam gestores com perfil e competência para conseguir ampliar a pequena participação da biodiversidade florestal na riqueza ou PIB acreano.

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Todo profissional envolvido com setor produtivo entende as dificuldades para selecionar, treinar e fazer funcionar uma equipe de profissionais com especializações diversas em uma indústria, num supermercado, numa escola e até mesmo numa padaria.

Agora imaginem conseguir reunir vários peritos, alguns estreantes no serviço público com o propósito de, no curto prazo, consolidar uma Capacidade de Governo para atender cobranças imediatas por educação e saúde, enquanto colocava em pratica um rol de demandas novas, inventadas para viabilizar o Projeto Florestania.

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Fim do Florestania no Acre: Projeto de Governo não convenceu

25/01/2026

Logo nos primeiros quatro de uma hegemonia que durou 20 anos, poucos insatisfeitos com a generalização do Florestania foram convencidos de que o detalhamento da estratégia de desenvolvimento viria com o Zoneamento Econômico e Ecológico, ZEE.

O que também, como se verá, não aconteceu.

Muito pelo contrário. De fato, com a aprovação da Lei 1.904 em 2007, que instituiu o ZEE no Acre, o agronegócio da pecuária extensiva recebeu significativa e bem localizada área de terras cobertas com florestas, em especial ao longo das rodovias BR 364 e 317, para sua ampliação por meio do desmatamento, agora legalizado pelo ZEE.

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Fim do Florestania no Acre: Projeto priorizou acreanismo e não PIB

18/01/2026

Considerado ousado e inovador o Projeto de Governo Florestania, concebido por organizações da sociedade civil na segunda metade da década de 1980 e, em tese, iniciado de forma efetiva no Acre em 1999, deveria ter estabelecido as bases para um desenvolvimento econômico duradouro, sustentado na biodiversidade florestal e que mostrasse os caminhos para o futuro, mas não foi o que aconteceu.

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Fim do Florestania no Acre: Projeto de Governo sem objetivo claro

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Sendo a primeira eleição municipal após a derrocada em 2018 do grupo político que concebeu o Projeto de Governo Florestania, o retorno da pecuária extensiva enquanto identidade produtiva estadual foi uma decisão eleitoral, de certa maneira, bastante óbvia.

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Fim do Florestania no Acre: Razões para o fracasso

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Desde o sucesso eleitoral em 1999, que o Projeto Florestania, um neologismo criado para sintetizar um conceito abstrato de cidadania associado ao crescimento econômico ancorado na biodiversidade florestal, venceu todas sucessivas eleições até chegar ao fracasso nos pleitos de 2018, 2020, 2022 e agora em 2024 de forma, no mínimo, constrangedora.

Encontrar as razões para o sucesso eleitoral por vinte anos e os seguidos fracassos pelos últimos oito do Projeto Florestania, não é tarefa fácil.

Mas uma coisa é certa. Os resultados eleitorais mostram que existe forte rejeição aos líderes políticos, mesmo quando tentam se afastar dos ideais do Projeto Florestania, com o agravante de que a defesa, por todos os candidatos a cargos majoritários, do Projeto Agronegócio da pecuária extensiva desnudou a ausência de rumo para o desenvolvimento do Acre dos grupos políticos de direita, de centro e de esquerda.

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