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Fim do Florestania no Acre: Projeto priorizou acreanismo e não PIB

Ecio Rodrigues & Aurisa Paiva, 18/01/2026

Atualizado pelo autor a partir do resultado da eleição municipal de 2024.

O Projeto de Governo, em conjunto com a Capacidade de Governo e a Governabilidade compõe o tripé que, segundo o economista chileno Carlos Matus, quando funcionam em equilíbrio fazem o sucesso de um mandato de governo, quando não, o fracasso.

Considerado ousado e inovador o Projeto de Governo Florestania, concebido por organizações da sociedade civil na segunda metade da década de 1980 e, em tese, iniciado de forma efetiva no Acre em 1999, deveria ter estabelecido as bases para um desenvolvimento econômico duradouro, sustentado na biodiversidade florestal e que mostrasse os caminhos para o futuro, mas não foi o que aconteceu.

Após sucessivas vitórias o fracasso surgiu a partir de 2018, com perdas eleitorais expressivas e, de certa maneira, difíceis de explicar segundo os pressupostos da ciência política.

Derrotas sucessivas nas eleições de 2018, 2020, 2022 e 2024, não deixam dúvida, existe tamanha rejeição que parece importar mais ao eleitorado acreano torcer pelos candidatos que perdem e não para os que são eleitos.

Rejeição que começa nos partidos políticos que se autodenominam de esquerda, passa pelas lideranças políticas que se elegeram no período entre 1999 e 2018, chegando, infelizmente, ao próprio Projeto Florestania.

Em contrapartida o modelo de desenvolvimento baseado na pecuária extensiva, considerado falido nos idos da década de 1980, foi reapresentado ao eleitor com a moldura enganosa do reconhecido sucesso nacional do agronegócio praticado nas regiões sul, sudeste e centro-oeste.

Na verdade, como um setor produtivo de expressiva importância para a riqueza brasileira, o moderno agronegócio do centro e sul do país que é executado com altíssima tecnologia e que encanta o mundo, por óbvio, em nada se assemelha à pecuária extensiva de baixa produtividade, tecnologia rudimentar e alto impacto ambiental, segundo o modelo implantado há mais de 50 anos no Acre.

Há ainda um fato grave que limita e confunde qualquer explicação sobre a rejeição eleitoral quase que generalizada demonstrada nos últimos quatro pleitos eleitorais: foi no auge do Projeto Florestania que ocorreu o boom da pecuária extensiva no Acre.

Não fosse a existência de estatísticas robustas demonstrando o crescimento surpreendente e vertiginoso da pecuária extensiva a partir de 2007, seria difícil crer que os números se referem ao período de vigência do Projeto Florestania.

Mas, isso mesmo, foi em 2007 que teve início o boom da pecuária extensiva, que tornou essa atividade produtiva hegemônica em toda região.

Ao alcançar um novo e elevado patamar de abates, quantidade de cabeças no rebanho e na composição do PIB estadual, a pecuária extensiva passou a crescer a uma taxa anual média de 6%, de maneira ininterrupta ao longo dos últimos 20 anos.

Concluindo com muito cuidado, tudo indica que com razoável dose de hipocrisia, foram as mesmas lideranças políticas que adotaram o marketing eleitoral do Projeto Florestania, que proporcionaram o boom da pecuária extensiva que, por sua vez, serviu de base ao Projeto Agronegócio que venceu as últimas quatro eleições e substituiu o derrotado, desde 2018, Projeto Florestania.

Todavia, tudo poderia ter sido diferente.

A história econômica e social do Acre seria outra se a saída econômica pela floresta, tal qual o pressuposto do Projeto Florestania gestado na sociedade civil antes de ser transformado em marketing do governo estadual, fosse de fato prioridade para a política pública.

Ao fim e ao cabo pouco se avançou além da construção das tímidas usinas de borracha e castanha-da-Amazônia, do subsídio para extração de látex e de reduzidas iniciativas para estruturar um polo moveleiro, de modo que o peso dos produtos florestais na composição da riqueza estadual se manteve estagnado.

Sempre preocupados com a próxima eleição e considerando que o eleitor não distinguia, com clareza, o impacto da difícil decisão entre Florestania versus Pecuária Extensiva em seu cotidiano e para o futuro do Acre, o investimento em uma economia florestal e de baixo carbono ficou sempre em segundo plano.

Com forte viés nacionalista e populista, os líderes políticos do Florestania levaram ao extremo o imaginário de um Acre revolucionário que lutou para ser brasileiro deixando de lado a ampliação do PIB com base no desmatamento zero.

Embora do ponto de vista simbólico a árvore estilizada usada como logomarca para representar o ideário envolto no Projeto Florestania tenha obtido um sucesso imediato e grandioso, alterar a realidade econômica se mostrou um desafio bem mais duro que o reconhecido simbolismo.

Transformada em timbre de papel oficial, em placa de obras e broche, a árvore que alguns acharam se tratar de castanheira (Bertholletia excelsa) foi estampada na lapela de ternos de políticos de um leque eclético de partidos e, inclusive, de servidores públicos no Acre e em Brasília.

Aqui cabe uma breve curiosidade.

A árvore de castanheira possui área de dispersão até o Rio Purus, com maior ocorrência no vale do Rio Acre e com poucos espécimes chegando ao município de Sena Madureira e nunca passando dali na direção de Feijó, Tarauacá, Mâncio Lima e Cruzeiro do Sul.

Outra curiosidade.

A extensa área de dispersão da castanheira coincide com os municípios acreanos onde a pecuária extensiva é predominante. Ao desmatar para criar boi o produtor condena a castanheira à extinção uma vez que a árvore, por razões ecológicas, não sobrevive sem a floresta ao redor.

Voltando ao Florestania, ninguém pensou no dilema econômico da dicotomia Castanheira versus Gado, na condição de exemplo concreto para o embate entre Florestania versus Pecuária Extensiva.

Afinal, onde se cria gado não se produz castanha da mesma forma que ao adotar o modelo do Florestania a pecuária extensiva teria que deixar de ser apoiada com os recursos públicos da política pública destinada ao desenvolvimento do Acre.

No fundo todos acreditaram, de pronto, que o neologismo Florestania como slogan e uma árvore como logotipo seriam suficientes para sugerir uma guinada em direção ao novo modelo de desenvolvimento, de baixo carbono, sustentável e ancorado na biodiversidade florestal.

E ficou nisso mesmo. Sem investir, por exemplo, na geração de energia elétrica com madeira e no mercado de carbono, o PIB florestal ficou estagnado e tudo não passou de mero simbolismo.

Pior, o desmatamento se manteve em taxas elevadas uma vez que a criação extensiva de gado recebeu as novas terras legalizadas após a aprovação do Zoneamento Ecológico-Econômico.

Com renovado ciclo de fartura de terras com florestas, a pecuária continuou recebendo mais de 90% do crédito rural do FNO e do Pronaf, geridos pelo Basa, para desmatar, nos moldes da década de 1970, a despeito dos sinais evidentes de colapso para a sustentabilidade ecológica da região.

Resumindo, o Projeto Florestania em seu nascedouro e nos primeiros anos se preocupou em resgatar a força da identidade regional dos acreanos e não em recuperar a economia estadual por meio da exploração comercial e sustentável da biodiversidade florestal.

Acreanismo se tornou a palavra de ordem em uma gestão governamental que perdeu, com o tempo, sustentação no potencial econômico representado pela floresta em pé.

Hoje, em 2025, parece não haver dúvida de que o resgate cultural da identidade acreana se mostrou bem mais simples que a execução de uma complexa política pública no teor exigido para destravar o crescimento econômico e melhorar o IDH no Acre.

Enquanto isso, a defesa da riqueza existente na biodiversidade florestal como eixo para o futuro do Acre foi cada vez menos defendida pelos líderes políticos do Projeto Florestania.

Mas isso é outro artigo. 

Oscar 2026 continuará premiando o politicamente correto

15/03/2026

Talvez, pela tendência de queda de audiência em um ambiente de transformações competitivas profundas, sobretudo com o surgimento e consolidação  de Netflix, Prime, HBO e assim por diante, é que o apelo ao politicamente correto ganhou espaço que parece não ter mais volta.

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Fim do Florestania no Acre: Aliciamento eleitoral não evitou derrocada

08/03/2026

Não eram poucos técnicos, estavam bem qualificados e dariam conta da transformação produtiva do Acre em direção à produção explorada na biodiversidade florestal. Mas algo não aconteceu!

Faltaram algumas coisas, todavia, a principal lacuna foi a ausência de determinação política.

Os líderes políticos, eleitos governador e prefeito, bem cedo, deixaram a equipe técnica e as instituições à deriva, a partir do momento que entenderam que a pecuária extensiva estaria excluída da prescrição técnica e científica predominante na estratégia da saída pela floresta e, logo depois, na execução do Projeto Florestania.

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Fim do Florestania no Acre: Com ZEE a Governabilidade foi capturada pelo agronegócio da pecuária extensiva     

01/03/2026

Em síntese, mesmo que em um primeiro momento a Capacidade de Governo para concretizar o Projeto Florestania deu ênfase na valorização da biodiversidade florestal como principal ativo econômico acreano, o ZEE concretizou o contrário.

Aquela suposta determinação inicial por um progresso a ser alcançado por meio de uma economia de baixo carbono, ancorada na biodiversidade florestal e com desmatamento zero, que havia sido estimulada e impingida pelos contratos de financiamento com a tríade BNDES, Banco Mundial e Banco Interamericano, sucumbiu a partir da aprovação do ZEE.

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Fim do Florestania no Acre: Bancos apoiaram a “saída pela floresta”

22/02/2026

Durante o sucesso eleitoral, que durou até 2018, impossível deixar de reconhecer o empenho do Banco Mundial, BNDES e Banco Interamericano, que emprestaram parte e doaram outra parcela expressiva do dinheiro empregado na execução da Política Estadual de Florestas e das diretrizes do Zoneamento Ecológico-Econômico do Acre.

Em nenhum momento nesse período e mesmo depois com as sucessivas vitórias eleitorais do Projeto Agronegócio os três bancos se arriscaram a associar sua marca com o desmatamento ilegal e o legalizado, ao financiar a criação de boi solto no pasto.

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Fim do Florestania no Acre: Técnicos, ONGs e Capacidade de Governo     

15/02/2026

Antes de se chamar Florestania e ser alçado à condição de Projeto de Governo em 1999, um conjunto de seis organizações não governamentais, ou do terceiro setor, ou ainda organizações da sociedade civil, para usar uma denominação menos preconceituosa, discutiram e detalharam vários pontos do que chamavam de saída pela floresta.

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Fim do Florestania no Acre: Gestores e técnicos despreparados     

08/02/2026

Lançando mão do exemplo mais evidente e de simples constatação, tanto a política florestal iniciada em 2001 quanto o Sistema Estadual de Áreas Naturais Protegidas, considerados pilares para o Projeto Florestania, requeriam gestores com perfil e competência para conseguir ampliar a pequena participação da biodiversidade florestal na riqueza ou PIB acreano.

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Fim do Florestania no Acre: Equipe técnica sem Capacidade de Governo

01/02/2026

Todo profissional envolvido com setor produtivo entende as dificuldades para selecionar, treinar e fazer funcionar uma equipe de profissionais com especializações diversas em uma indústria, num supermercado, numa escola e até mesmo numa padaria.

Agora imaginem conseguir reunir vários peritos, alguns estreantes no serviço público com o propósito de, no curto prazo, consolidar uma Capacidade de Governo para atender cobranças imediatas por educação e saúde, enquanto colocava em pratica um rol de demandas novas, inventadas para viabilizar o Projeto Florestania.

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Fim do Florestania no Acre: Projeto de Governo não convenceu

25/01/2026

Logo nos primeiros quatro de uma hegemonia que durou 20 anos, poucos insatisfeitos com a generalização do Florestania foram convencidos de que o detalhamento da estratégia de desenvolvimento viria com o Zoneamento Econômico e Ecológico, ZEE.

O que também, como se verá, não aconteceu.

Muito pelo contrário. De fato, com a aprovação da Lei 1.904 em 2007, que instituiu o ZEE no Acre, o agronegócio da pecuária extensiva recebeu significativa e bem localizada área de terras cobertas com florestas, em especial ao longo das rodovias BR 364 e 317, para sua ampliação por meio do desmatamento, agora legalizado pelo ZEE.

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Fim do Florestania no Acre: Projeto de Governo sem objetivo claro

11/01/2026

Sendo a primeira eleição municipal após a derrocada em 2018 do grupo político que concebeu o Projeto de Governo Florestania, o retorno da pecuária extensiva enquanto identidade produtiva estadual foi uma decisão eleitoral, de certa maneira, bastante óbvia.

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Fim do Florestania no Acre: Razões para o fracasso

04/01/2026

Desde o sucesso eleitoral em 1999, que o Projeto Florestania, um neologismo criado para sintetizar um conceito abstrato de cidadania associado ao crescimento econômico ancorado na biodiversidade florestal, venceu todas sucessivas eleições até chegar ao fracasso nos pleitos de 2018, 2020, 2022 e agora em 2024 de forma, no mínimo, constrangedora.

Encontrar as razões para o sucesso eleitoral por vinte anos e os seguidos fracassos pelos últimos oito do Projeto Florestania, não é tarefa fácil.

Mas uma coisa é certa. Os resultados eleitorais mostram que existe forte rejeição aos líderes políticos, mesmo quando tentam se afastar dos ideais do Projeto Florestania, com o agravante de que a defesa, por todos os candidatos a cargos majoritários, do Projeto Agronegócio da pecuária extensiva desnudou a ausência de rumo para o desenvolvimento do Acre dos grupos políticos de direita, de centro e de esquerda.

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