Há vinte anos o autor desse texto defendia, durante o doutorado no Centro de Desenvolvimento Sustentável da Universidade Nacional de Brasília, tese sobre o que chamou de saída pela floresta para a economia e o desenvolvimento da Amazônia em geral e do Acre em particular.
De maneira bem resumida, o estudo detalhado e publicado em quase mil páginas discutiu, na primeira parte, um extenso rol de bibliografia, com mais de trezentas citações, sobre o fracasso do modelo de ocupação produtiva ancorado na expansão da pecuária extensiva.
Planejada para servir de suporte no meio rural, ou no setor primário, para a indústria extrativa da mineração e a industrialização forçada pelo polo industrial e Zona Franca de Manaus, a criação extensiva de gado apresentaria relação custo-benefício deficitária e prejuízos incalculáveis para a sociedade.
Demonstraria assim, com certa facilidade e fartura de exemplos que a pecuária extensiva se viabilizava na Amazônia exclusivamente por meio de três variáveis complementares: oferta anual e permanente de crédito estatal por mais de sessenta anos, adoção de tecnologia de baixa produtividade e primitiva com o plantel animal solto no pasto e, o mais grave, terras baratas.
Com poucas variações o modelo de desenvolvimento do século passado foi replicado em toda região, levando a criação extensiva da gado a ocupar áreas nobres em relação à logística, sempre localizadas na beira das rodovias federais e na mata ciliar de todos os rios.
Somente para exemplificar, levantamentos realizados no trecho do Rio Purus entre as cidades de Sena Madureira e Manuel Urbano não deixam dúvidas sobre a total substituição da mata ciliar em propriedades de médio e grande porte com mais de 1.000 hectares de cultivo de capim em pasto de qualidade comprovada.
Contudo, se de um lado a tecnologia primitiva da criação extensiva e do capital farto não enxergam limites, de outro lado a necessidade de permanente de expansão em terras baratas chamou atenção para o efeito nefasto do desmatamento.
Ocorre que por ser uma atividade econômica com competitividade bastante reduzida, uma vez que perde em ganhos de produtividade para o cultivo de cana-de-açúcar e de plantio de eucalipto, por exemplo, (como se comprova na realidade do cluster florestal de Três Lagoas no Mato Grosso do Sul), a pecuária extensiva depende do desmatamento para conseguir os imprescindíveis ganhos de escala.
Até chegar na segunda parte da tese, onde o autor defende a estruturação de um Cluster do Ecossistema na Amazônia para prover o esperado crescimento econômico condicionado ao desmatamento zero da região.
Na COP30 o desmatamento zero será defendido por 100% dos 198 países associados à Organização das Nações Unidas, ONU, mas nenhum apresentará alguma proposta de política pública diferente da fiscalização.
Deixar bem claro na COP30, que o desmatamento zero inclui o combate ao desmatamento ilegal mantendo o oneroso aparato de fiscalização estatal que tanto pesa no orçamento publico e o enfrentamento ao desmatamento legalizado pelo Código Florestal.
Um desafio enorme para a COP30 posto que há clara dificuldade aos países para aceitar a existência do desmatamento legalizado e maior ainda em acreditar que o estímulo a atividades produtivas mais rentáveis que a pecuária extensiva pode resolver.
Afinal, como é possível alcançar o desmatamento zero explorando a floresta com tecnologia para gerar mais renda que a pecuária extensiva?