Interromper, de maneira brusca, os mais de sessenta anos de apoio estatal com fartura de terra com florestas e capital fornecidos ao modelo de desenvolvimento da pecuária extensiva seria suicídio eleitoral.

Um período de transição planejado em direção ao novo modelo chamado de Saída pela Floresta se mostrava inevitável e urgente.

Com etapas bem definidas, o processo de transição dependia da aprovação de uma legislação condizente com a promoção do PIB Florestal, da publicação de atos normativos para adequar a gestão pública, da redefinição da missão e visão de futuro da estrutura organizacional e, finalmente, do investimento na geração de eletricidade por meio da queima de biomassa florestal.

Nada disso aconteceu!

Mais grave ainda, após sua transformação em Projeto Florestania, toda produção teórica e os conceitos que deram sustentação ao modelo de desenvolvimento Saída pela Floresta, que naquela ocasião se encontrava em franca expansão, foi paralisada sem que os manuais para seu gerenciamento governamental fossem pensados, discutidos, elaborados e publicados.

Nunca é demais repetir que o modelo da pecuária extensiva, no início do século atual, recebia, como ainda recebe atualmente, total atenção da política pública que, afora a pressão social devido aos sustos com as taxas anuais de desmatamento, publicadas pelo reconhecido Inpe, passeava em céu de brigadeiro sem qualquer obstáculo ou oposição.

Aprovar a legislação de subsídio da borracha não foi suficiente para dar partida ao processo de transição, tampouco a criação ou alteração do nome de uma ou outra secretaria de governo e menos ainda a criação de algum órgão da administração indireta como o Instituto de Mudanças Climáticas.

Olhando com a sabedoria que o distanciamento no tempo permite, pode-se afirmar, sem medo de errar, que faltou vontade dos líderes políticos enquanto sobraram receios de derrota eleitoral.

Passados cinco mandatos do mesmo governo pouco foi realizado no sentido de fornecer arrancada ao modelo previsto pelo Projeto Florestania, nos moldes do que vinha sendo discutido por centenas, talvez milhares, de especialistas estudiosos do campo do desenvolvimento regional durante a mobilização científica que defendeu a Saída pela Floresta.

Dentre tantas lacunas faltou, sem dúvida, um órgão líder para o processo de transição que concebesse e coordenasse as ações, com poder de gerenciamento reconhecido pelo poder dos líderes políticos.

Depois de responder as três primeiras de cinco questões antes, a quarta pergunta poderia ser expressa, mais ou menos, da seguinte maneira:

4 – Quais órgãos da administração direta e indireta do governo estadual deveriam ter liderado o processo de transição em direção ao desmatamento zero proposto nas eleições pelo Projeto Florestania?

Assumindo que a prioridade deveria ter sido a aprovação de um conjunto de legislação voltada à promoção do PIB Florestal, a reforma administrativa que foi submetida à apreciação do parlamento estadual deveria ter incluindo a definição de um ou mais órgãos com a responsabilidade de rever a missão e visão de futuro das secretarias e das outras instituições de governo de modo a conduzir o processo de transição em direção ao desenvolvimento proposto nas eleições pelo Projeto Florestania.

Poderia ter sido a Fundação de Tecnologia, Funtac, por exemplo, que possui técnicos qualificados e tradição institucional para a inovação, desde que com determinação garantida por Lei.

Na ausência de coordenação técnica e política, os ideais e pressupostos previstos na Saída pela Floresta se perdeu de modo geral com uma ou outra iniciativa isolada de alguma equipe de técnicos como ocorreu na própria Funtac.

Como não foi elaborada a legislação do processo de transição e não havia um líder técnico e político, o apoio estatal à pecuária extensiva não saiu do lugar.

Desde que o segundo ciclo econômico da borracha foi dado por encerrado e as políticas de promoção da extração da Hevea, incluindo sua mais importante agência de fomento a Sudhevea e agente de crédito o Basa, foram sepultadas que os elevados recursos públicos destinados ao desenvolvimento regional no Acre migraram para subsidiar a pecuária extensiva.

A partir da década de 1960, com alguns breves momentos em que a gritaria pública pelo abandono do seringal tradicional e do produtor seringueiro à própria sorte arrancou um pouco de investimento para a borracha, a pecuária extensiva recebeu tudo que precisava: muito capital, fartura de terra com floresta e alguma força de trabalho.

Para colocar em prática o modelo de expansão produtiva que tornou hegemônica a pecuária extensiva, que atualmente ocupa quase 100% das terras com logística favorável na margem dos principais rios (Juruá, Purus e Acre) e rodovias (BR364 e 317) em que o desmatamento em algumas localidades extrapolou o limite legal imposto pelo Código Florestal de 2012, foi organizado um forte arcabouço institucional estatal.   

Nas mais de seis décadas de investimento e de consolidação, tanto os governos municipais quanto os estaduais, de qualquer partido político (na época nem existia a classificação rasteira atual de esquerda ou direita), criaram instituições e contrataram muitos servidores para apoiar o desenvolvimento proporcionado pelo modelo da pecuária extensiva.

Todas, sem exceção, as Secretarias de Governo no Acre, de maneira direta ou indireta, entendem, concordam e se dedicam ao fortalecimento da pecuária extensiva, quer atue na Educação, Saúde ou, claro, na produção rural.

Mesmo no interior dos órgãos com missão explícita no monitoramento ambiental, em um emaranhado institucional que inclui secretarias de município e do governo estadual de meio ambiente e órgãos como o Imac, batalhão florestal e escritório local do Ibama, a pecuária extensiva é tratada com parcimônia por ser considerada referência para a economia do Acre.

Passar de um Estado da pecuária extensiva com mais de sessenta anos de institucionalização, para o Estado da Saída pela Floresta, exigia um período de transição que teria duração indefinida com chance real de fracasso.

E foi o que aconteceu!

Depois de responder as duas primeiras de cinco questões antes, a terceira pergunta que surge poderia ser resumida e expressa, mais ou menos, da seguinte maneira:

Pergunta 3 – Como instituir um sistema de transição do modelo baseado na pecuária extensiva para o da Saída pela Floresta, conseguindo alterações profundas de missão, valores e visão de futuro, em um conjunto expressivo de instituições governamentais?

Na verdade o desafio imposto é que mesmo se uma legislação específica destinada a fornecer perenidade ao Projeto Florestania tivesse sido aprovada, o que não aconteceu, o processo de transição nas instituições seria, por óbvio, bastante traumático. No final das contas internalizar na gestão pública estadual mecanismos administrativos para superar o extenso período dedicado à consolidação da pecuária extensiva como modelo de desenvolvimento se mostrou tarefa bem mais complexa que o fácil discurso eleitoral. Deveria estar claro a todos os envolvidos na execução do modelo de desenvolvimento alternativo, com desmatamento zero, que a arquitetura organizacional das instituições de governo existente era composta por órgãos demandados pelo antigo modelo de desenvolvimento ancorado na pecuária extensiva e que a Saída pela Floresta necessitaria de um novo arranjo institucional. Infelizmente, na ausência de estudos aprofundados sobre quais órgãos poderiam ser criados ou aqueles a serem extintos o Florestania se limitou a alterar, com forte viés populista, nome e designações em secretarias e órgãos que continuaram, de certa maneira e com raras exceções, realizando o mesmo rotineiro trabalho de suporte ao modelo baseado no desmatamento que se pretendia superar. Talvez, somente talvez, a criação do Instituto de Mudanças Climáticas tivesse a intenção de iniciar o processo de transição para a Saída pela Floresta, se assim foi o fracasso do IMC não poderia ser mais evidente. 

Nada mais revelador quando em 2014, em sua continuidade o mesmo governo com quase os mesmos gestores retomou o apoio explícito à pecuária extensiva.

Em excelente artigo publicado no jornal Estadão, no dia 28 de abril último, Paulo Freire Mello, agrônomo com doutorado e trajetória reconhecida no estudo do setor rural nacional faz duas contundentes afirmações: a reforma agrária foi concluída em 2012 e podemos encerrar as atividades do Incra.

Ambas as conclusões são verdadeiras e comprovadas em robustas estatísticas compulsadas tanto pelo autor quanto por um conjunto expressivo de especialistas, incluindo, o igualmente reconhecido, Xico Graziano no artigo “O Incra deveria ser extinto” publicado no jornal eletrônico Poder360 em 12/05/2026.

Com relação a primeira conclusão de que a reforma agrária brasileira foi concluída em 2012, Paulo Freire Mello defende que nos moldes e para os objetivos definidos na legislação agrária nacional não há terra e tampouco produtores para novos assentamentos rurais.

Com recordes de assentamentos obtidos durante o governo FHC, desde a década de 1990 a quantidade de produtores rurais assentados anualmente vem diminuindo de maneira regular.

Considerar uma data para o encerramento da reforma agrária, no caso 2012, assume importância crucial para que o país planeje a atuação da política de incentivo à produção rural em um novo e promissor cenário.

Melhor, o autor, afirma que o modelo de campesinato adorado por pesquisadores e estudiosos marxistas, que não conseguem se livrar de um retrógrado pensamento de esquerda já bem superado mundo afora, esgotou, não existe mais.

Isto é, a despeito dos marxistas chamarem de agronegocinho, numa referência preconceituosa à maneira como alguns pequenos e médios produtores rurais se adequam ao novo cenário, o fato é que o ator social campesino, vem desaparecendo nas estatísticas todos os anos.

Mas não é pelo encerramento oficial da reforma agrária, segundo as estatísticas em 2012, que o Incra deveria ser extinto, embora seja uma justificativa mais que suficiente.

A razão da extinção do Incra é bem mais grave.

Com uma clareza e sensibilidade exemplar Paulo Freire Mello argumenta, com conhecimento de causa, o seguinte:

“Para entender por que o Incra não entrega resultados, examine-se a visível ineficiência de sua burocracia, decorrente de razões que a sociologia já demonstrou sobejamente e que envolvem uma associação de hiperpolitização, personalismo, retraimento e ritualismo.”

         Das quatro razões apontadas pelo autor para o fracasso e a demanda pela extinção do Incra a hiperpolitização chama atenção.

Afinal, é mais do que conhecido por todos os engenheiros florestais e agrônomos, para não ficar somente nos economistas e sociólogos, que o Incra vem sendo, ao longo dos últimos 30 anos, aparelhado por partidos de esquerda que ainda pensam que a revolução em direção ao socialismo ou comunismo virá do meio rural, algo que caducou faz tempo.

Mais adiante o autor explica com mais clareza ainda o fracasso institucional do Incra, assim:

“Instalou-se no órgão um melancólico pacto de mediocridade. Ou seja, dirigentes vinculados a organizações políticas garantem a paz interna ao ignorarem metas de produtividade, enquanto a burocracia aceita a ingerência em troca de sua passiva acomodação. O produtor rural que solicita seu título de terra enfrenta um labirinto processual, mas as ações priorizadas pelos atores políticos recebem atenção célere. Um exemplo se refere à impressionante soma de R$ 2,3 bilhões gastos em centenas de parcerias com entes externos, somente entre 2008 e 2018, cujos resultados pouco contribuíram para o desempenho da missão do Incra (demonstrados no livro do autor, Lógicas de ação no serviço público: uma análise plural do Incra).”

         Não será no governo de agora, mas em um futuro cada vez mais próximo a extinção do Incra permitirá, finalmente, encerrar a reforma agrária no Brasil!    

Os grandes eventos ocorridos no Acre durante a última década do século passado, em especial no período posterior à criação das duas primeiras Reservas Extrativistas brasileiras nos vales dos rios Acre e Juruá, demonstraram a importância para o país e para o mundo do modelo de desenvolvimento, grosso modo, chamado de Saída pela Floresta.

Não havia dúvida para a imensa maioria dos participantes e eram muitos, talvez milhares, que ao se apresentar como alternativa à pecuária extensiva, sempre associada aos objetivos do desmatamento, a proposta da Saída pela Floresta com seu desmatamento zero poderia atrair investimentos, estatal e particular, em montante jamais almejado pela criação de boi solto no pasto.

E foi o que aconteceu!

Após ser transformado em plataforma eleitoral e logo depois no Programa Florestania, todas as três grandes agências de financiamento ao desenvolvimento regional (BNDES, BID e Banco Mundial) liberaram empréstimos e doações em um volume excepcional para bancar um conjunto variado de projetos que tinham como eixo o modelo da Saída pela Floresta.        

Mesmo assim, ou a despeito desse potencial expressivo para captação de recursos financeiros, nacional e internacional, para ser executado o Projeto Florestania se esqueceu de um ponto chave para sua viabilidade institucional.

Poucos dos envolvidos, sempre assumindo atribulações de uma e outra eleição, se dedicaram a internalizar preceitos e os protocolos para sua execução na gestão administrativa estadual, o que se mostrou um grande equívoco e, talvez, uma das principais causas de seu prematuro esquecimento.

Faltou preparar, por exemplo, o conjunto de Leis a ser submetido à apreciação dos Deputados para posterior aprovação pelo parlamento estadual, também não foram publicadas as instruções normativas pelas Secretarias de Estado, tampouco as orientações a serem enviadas à Funtac, Emater, Idaf e algumas outras instituições da administração indireta de maneira a fazer com que o Projeto Florestania sobrevivesse no interior da gestão governamental aos mandatos de um ou outro partido político de ocasião.

Depois de responder a primeira de cinco questões no artigo anterior, a segunda pergunta que surge poderia ser resumida e expressa, mais ou menos, da seguinte maneira:

Pergunta 2 – Qual marco legal seria o mais indicado para fornecer perenidade administrativa junto à estrutura de governo para execução, todos os anos, das rotinas previstas no Projeto Florestania?

Logo de início, ainda no limiar do século atual, o Projeto Florestania foi reduzido a algumas poucas normas com destaque para a legislação sobre subsídio à produção de borracha, que limitou o Projeto Florestania aos interesses legítimos e imediatos dos seringueiros, em um equivoco sem precedentes uma vez que a promoção pela via do subsídio à produção de borracha nativa, não forneceu e não fornecerá no futuro, competitividade aos seringais nativos e plantados do Acre frente a borracha natural cultivada em São Paulo. Pior, a euforia com a Lei da Borracha contaminou o processo de aprovação pelos parlamentares estaduais de uma legislação condizente com a transformação do Florestania em Projeto de Estado, tais quais as políticas duradouras para educação, saúde e de incentivo à produção rural, com ações rotineiras que deviam acontecer todos os anos, independente desse ou daquele governo de momento.

No frigir dos ovos a legislação sobre florestas foi igualmente reduzida ao funcionamento de um Sistema Estadual de Áreas Naturais Protegidas que deixou de lado a relevância do PIB florestal como principal referência econômica para uma real Saída pela Floresta em todo território do Acre.          

Conceber o marco legal do Projeto Florestania era para poucos e uma coisa é certa, todos que alternaram cargos por 20 anos não entenderam sua importância.

Em seu decisivo momento, durante as duas primeiras das cinco eleições consecutivas vencidas pelos líderes políticos do Projeto Florestania, algumas perguntas consideradas elementares para um modelo de desenvolvimento no Acre deveriam, mas não foram, respondidas.

Mais grave ainda é que ao se esquivar de responder o Projeto Florestania deixou, por um lado, um vazio teórico que dificulta seu detalhamento por economistas, engenheiros e outros estudiosos que poderiam dar continuidade à importante discussão sobre estratégias de desenvolvimento no Acre.

E bem mais grave, por outro lado, a falta de respostas deixou a sensação de que tudo não passou de discurso de palanque, no mais acintoso estelionato eleitoral visto na história política recente do Acre.   

Tudo isso, claro, até a constrangedora derrocada eleitoral em 2018. 

Depois de muito analisar e de maneira um tanto prematura foi possível elaborar pelo menos cinco perguntas que, grosso modo, deveriam ser respondidas pelos líderes políticos que se vincularam ao Projeto Florestania e receberam, por quase vinte anos, quantidade expressiva de votos.

Respostas que deveriam vir também do conjunto de pesquisadores, acadêmicos e técnicos que participaram da equipe de gestores durante cinco mandatos governamentais ininterruptos fornecendo uma contribuição significativa para colocar em prática o Projeto Florestania.

Na condição de um modelo alternativo de produção rural com desmatamento zero no Acre, o Projeto Florestania parece ter exigido demais das instituições de governo que, a despeito da alteração em um ou outro nome de alguma Secretaria de Estado, não conseguiu fornecer a continuidade e perenidade administrativa que o Projeto Florestania requeria.

Dentre as cinco, a primeira questão que surgiu como um imperativo inadiável e ao mesmo tempo um dos maiores desafios (de intelecto, de expertise e de articulação política) para ser respondida, pode ser resumida, mais ou menos, assim:

1 – De que modo o modelo produtivo ancorado na biodiversidade florestal e gestado pelas organizações do terceiro setor, sintetizado na expressão Saída pela Floresta, poderia ser transformado em Projeto de Governo?

Exceto pelos documentos de projetos de investimento para captação de recursos (elaborados quase sempre por especialistas com carreira em alguma instituição de pesquisa ou do terceiro setor e, o mais importante, com reputação reconhecida pelas agências de financiamento), aprovados pelos três principais bancos financiadores (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social-BNDES, Banco Mundial-Bird e Banco Interamericano-BID), o Projeto Florestania jamais foi detalhado em manuais operativos ou em análises econômicas estruturais para ser instituído e executado como Projeto de Governo.

Ao contrário. Muitas páginas foram escritas para demonstrar que o Projeto Florestania esbanjava apoio popular, contando com envolvimento da sociedade civil e sempre na defesa de uma forte mobilização cultural em torno do que se chamou de “cidadania da floresta” e, com bem menos motivação, como Projeto de Governo para o desmatamento zero no Acre.

Isto é, gerar riqueza ou elevar o PIB florestal estadual não entrou no radar a despeito de os líderes políticos do Projeto Florestania assumirem a redução do desmatamento como propósito, em todas as campanhas eleitorais mesmo cientes de que o desmatamento zero só poderia ser alcançado a partir da adoção do modelo de desenvolvimento ancorado na Saída pela Floresta.

         As evidencias mostram que o objetivo não era mesmo fazer do Projeto Florestania um modelo de desenvolvimento no Acre? Tem mais perguntas por vir.

Restaram ainda alguns poucos órfãos que insistem na defesa da comprovada tese da Saída pela Floresta enquanto modelo de desenvolvimento para gerar e suportar o PIB do Acre, em níveis de emprego e renda bem superior ao atualmente obtido pela pecuária extensiva.

Não há, contudo, liderança política com coragem e discernimento suficientes para assumir o modelo preconizado pelo Projeto Florestania como alternativa à pecuária extensiva no Acre.

Acontece que ao ser transformado em um Projeto de Governo, que marcou uma época de vinte anos, de 1999 e 2018, o Projeto Florestania deixou de saldo a irrecuperável contaminação eleitoral da promissora tese da Saída pela Floresta para o desenvolvimento do Acre.

Sem expoentes na academia, nas ciências e nas artes, sem líderes na política, o Projeto Florestania agora impede que a imprescindível discussão sobre a existência de alternativa econômica à pecuária extensiva seja retomada nos moldes dos profundos debates ocorridos desde a segunda metade da década de 1980.  

Contaminação perigosa, por suposto, tendo em vista que o período eleitoral, dentre outros objetivos, deveria ser o momento para que os candidatos e os partidos políticos apresentassem sua plataforma ou ideia sobre os dois modelos de desenvolvimento possíveis para o futuro no Acre.

E não fica só nisso. O resultado visível da contaminação eleitoral não se resume na ausência de pressão pela academia, imprensa e a sociedade em geral, aos candidatos sobre os limites e alcances de cada modelo de desenvolvimento para o Acre.

Bem mais complexo, parece até impossível, seria discutir e quiçá compreender o conceito que forneceu sustentação teórica ao modelo de desenvolvimento da Saída pela Floresta e os argumentos científicos que justificam os limites reais para a expansão da pecuária extensiva.

Para ajudar a entender, vamos lá.

Mesmo após superar a barreira de cinco milhões de cabeças em 2025, o plantel de bovinos, vivos e abatidos todos os anos, não é suficiente para gerar o emprego e a riqueza no meio rural, que os mais de 800 mil acreanos necessitam.

Considerando que a base da economia estadual, diante da existência de uma indústria incipiente e nenhuma perspectiva de crescimento a partir dos produtos saídos da pecuária extensiva, a economia de todos os municípios, inclusive de Rio Branco com seu robusto setor terciário, continua há mais de 50 anos dependente dos repasses federais constitucionais e dos recursos discricionários que são liberados por meio das necessárias articulações políticas.

Nunca é demais lembrar. A busca de alternativa ao modelo da pecuária extensiva se mostra urgente devido ao limite imposto ao desmatamento.

Hoje, pelas regras atuais dispostas no Código Florestal aprovado em 2012 e com constitucionalidade total reconhecida pelo Supremo Tribunal Federal em 2018, não há escapatória ou jeitinho para ampliação do desmatamento para além dos 20% da área da propriedade particular.

Em poucos casos, somente em situações bem especiais, o desmatamento na propriedade particular pode chegar a 50%. O que importa, todavia, é que nas localidades com maior plantel bovino o limite para se desmatar chegou há alguns anos.

Acreditar em afrouxamento do Código Florestal, para ampliar a área de pastagem e, assim, possibilitar ganhos de escala no plantel de bovinos no Acre é viver meio fora da realidade, daqui e lá de fora.

Os limites para pecuária extensiva manter a riqueza anual que o Acre necessita são visíveis e insuperáveis, o que fazer? Só existe um rumo: a Saída pela Floresta!

Recentemente aprovada pela Comissão Nacional de Vegetação Nativa, ou Conaveg, uma coletiva instancia administrativa de decisão sobre o Plano Nacional de Recuperação da Vegetação Nativa, a Regeneração Natural Assistida pode ser a chave que faltava.

Acontece que os custos para reflorestar uma área em que o solo foi desgastado pelo mais de trinta anos de uso contínuo para pecuária extensiva, costuma afastar investidores devido, em especial, ao volume inicial de dinheiro requerido e o longo prazo de retorno ou recuperação do capital.

Quando o reflorestamento se enquadra no padrão conservacionista, no qual as espécies florestais que vão surgir ou serem cultivadas no processo de resgate da floresta que existia antes da criação do boi solto no pasto, o desanimo dos investidores aumenta de maneira exponencial.

Cultivar florestas, ou reflorestar, um hectare com árvores de elevado valor comercial, como o eucaliptos por exemplo, mas pode ser com mogno também, exige disposição do investidor para apostar no retorno financeiro futuro, em 5 ou até 40 anos, respectivamente.

Contudo o retorno mais tarde que cedo virá, o que é bem diferente do reflorestamento conservacionista, em que a espécies florestal, ou melhor, os produtos florestais, como a madeira por exemplo, não é o propósito do investimento que buscará receitas no incipiente mercado de carbono, por exemplo.

Não há dúvida de que os custos de um e de outro não deveriam ser semelhantes e é aí que entra a Regeneração Natural Assistida, um termo trazido da área médica para demonstrar que conduzir a regeneração natural, sem dúvida, será mais vantajoso.

Vantajoso para o solo, para a sociedade, para a biodiversidade da região e, nesse caso o mais importante, melhor para a redução de custos do empreendimento e, ao final, atração do necessário capital privado.

A mudança pode parecer simples mas a regeneração natural representa uma alteração profunda de paradigma, como gostam de falar os economistas.

No fundo, ao invés de selecionar determinada espécie florestal que possua interesse comercial reconhecido, na RNA a área a ser reflorestada, ou a ser submetida à regeneração natural, deverá ser cercada, isolada dos animais e o processo precisa ser monitorado regularmente.

Isto é, sempre haverá um técnico para acompanhar de perto o caminhar do processo de regeneração, daí vem o termo médico “assistida”, com a obrigação de retirar as espécies invasoras, selecionar e privilegiar os indivíduos das espécies florestais que faziam parte da estrutura original da floresta.

Os engenheiros florestais, profissionais que estão bem mais familiarizados com esse procedimento, afinal a RNA nada mais é que a aplicação da tecnologia de manejo florestal de florestas nativas de forma bem específica, não tem dúvida acerca do potencial da RNA.

Pesquisas atualizadas dão conta de uma redução de mais de 70% dos custos por hectare, em comparação com o reflorestamento tradicional, aquele que envolve a produção de mudas, plantio e replantio.

Levando em conta nosso compromisso no Acordo de Paris, de recuperar 12 milhões de hectares de pasto degradado, a RNA pode ser a chave que faltava.

Com uma contaminação que parece não ter antídoto a captura da tese sobre a saída pela floresta, enquanto modelo econômico capaz de promover e sustentar o desenvolvimento no Acre, no Projeto Florestania, ainda em 1999, se mostrou um erro estratégico dos mais terríveis.

Ao ser contaminado pela política eleitoral, o modelo econômico da saída pela floresta passou a ter cara e endereço, como se fizesse parte de um pacote fracassado de um ou outro grupo político.

Mas, não era nada disso!

É bem provável que, atualmente, somente alguns poucos órfãos, como no caso do incansável autor, ainda continuem pensando, em seu cotidiano, nas evidências que demonstram a superioridade da alternativa de desenvolvimento baseada na biodiversidade florestal quando comparada á expansão do desmatamento para consolidação da pecuária extensiva no Acre.

Ainda na segunda metade da década de 1980, muitos técnicos experientes que atuavam na Embrapa, Funtac e em um variado grupo de organizações não governamentais, alertavam sobre os limites econômicos da pecuária extensiva para elevar e manter o PIB do Acre.

Naquele momento, restou claro para os envolvidos com as análises econômicas e os impactos ambientais e sociais, que deveria existir alternativa à pecuária extensiva, sempre intensiva em desmatamento para ganho de escala devido, em especial, a uma estagnada produtividade média de meio boi por hectare.

Com forte dependência de uma política pública contínua e que resistisse às mudanças de governo, algo sempre muito difícil, os especialistas acreditavam ser possível colocar em prática no Acre o que chamavam de saída pela floresta.

Uma frase ou código para resumir um novo modelo de desenvolvimento que trouxesse riqueza sem desmatamento e, o melhor, garantindo a conservação da biodiversidade florestal, esse sim um recurso regional único e de competitividade garantida, com perdão do trocadilho, pela própria natureza.

Resumindo, um monopólio regional que, por graças divina, apresenta variações na biodiversidade e hidrografia estaduais que permitem, inclusive, diferenciação produtiva para o Pará, Amazonas, Rondônia e Acre, por exemplo.

E mais. Um modelo de desenvolvimento econômico e de produção rural bem diferente do atual, que tem na proteína animal, de bovinos, claro, sua principal referencia e ocupação hegemônica nas áreas com logística considerada privilegiada, na mata ciliar dos grandes rios e com acesso pelas principais rodovias pavimentadas.

Ocorre que uma vez que o gado pode ser criado em qualquer lugar desse imenso e maravilhoso país, em todo lugar haverá condições iguais ou, o que acontece na maioria das vezes devido às condições climáticas amazônicas, melhores para o boi pastar solto no pasto que aqui.

Na pecuária extensiva não existe empecilho técnico agronômico, sendo a produtividade entre as localidades um indicador pouco considerado na aprovação dos projetos do FNO geridos pelo Basa, devido à elevada viabilidade econômica de curto prazo e em decorrência do baixo valor marginal da terra coberta por florestas, da baixíssima geração de emprego e pouco investimento.

Mas, as condições propícias à ampliação da pecuária extensiva possui prazo para acabar, enquanto que, por outro lado, a saída pela floresta, ao se concentrar na oferta de produtos e serviços com monopólios amazônicos, e alguns ofertados somente pelo Acre mesmo, possui potencial comprovado pelos cientistas para um futuro ainda por ser totalmente revelado.

Ao se beneficiar da limitada, contudo expressiva, produção acadêmica, quase que na totalidade publicada antes da virada do século, sobre a alternativa para ocupação produtiva representada na saída pela floresta, o Projeto Florestania trouxe a política eleitoral para dentro do desenvolvimento econômico do Acre.

Contaminação que urge terminar com urgência, tanto por afastar muitos técnicos naquela época quanto por hoje atrair somente os órfãos do Florestania.

A constrangedora derrocada eleitoral, em 2018, do grupo político que se beneficiou dos ideais do Projeto Florestania, foi tamanha que de lá prá cá ninguém se aventurou a questionar o perigoso modelo de economia representado pela pecuária extensiva.

Entretanto, deixar os ideais do Projeto Florestania esquecido para sempre pode ser um equívoco imperdoável para entender o passado e se preparar para o futuro dos ciclos econômicos no Acre. Isto é, o debate é inevitável.

É bem provável que tenha sobrado alguns poucos órfãos, como no caso desse incansável autor, que ainda se arriscam na defesa da saída pela floresta como única, é única mesmo, alternativa para o desenvolvimento econômico do Acre.

No todo não existe mais de cinco especialistas, órfãos do Florestania, que ainda continuam pensando em seu cotidiano nas evidencias que demonstram a superioridade do modelo de desenvolvimento baseado na biodiversidade florestal quando comparada á expansão e consolidação da pecuária extensiva no Acre.

Na verdade, a constatação sobre os limites da pecuária extensiva e do potencial da biodiversidade florestal foi ressaltada com bastante produção técnica e científica publicada nas duas décadas finais do século passado, bem antes de 1999, ano em que o Projeto Florestania foi alçado à condição de Projeto de Governo.

Reunidas na tese da saída pela floresta essas publicações se voltaram à compreensão dos ciclos econômicos no Acre, em especial os ciclos florestais das drogas do sertão, da borracha e da madeira, para conceber um modelo de desenvolvimento conservacionista e alternativo ao desmatamento necessário à expansão da pecuária extensiva.

Naquela época, bem diferente dos não mais que cinco órfãos de agora, um contingente expressivo de pesquisadores e técnicos de excelente formação atuavam na Funtac, Embrapa e num variado leque de organizações do terceiro setor detalhando com rigor a vocação produtiva natural representada pela saída pela floresta diante da realidade agronômica e florestal do Acre.

Embora pareça distante ou perdido no tempo, somente para fornecer uma ideia mais clara daquele momento histórico e sua importância para o desenvolvimento estadual, foi ainda em 1990 que foram criadas no Acre as duas primeiras unidades de conservação da Amazônia chamadas de Reserva Extrativista.

Não por acaso a denominação Reserva Extrativista possui forte razão técnica o que permitiria, a partir da aplicação de alguns indicadores precisos, enquadrar ou caracterizar uma determinada área coberta por floresta nesse tipo especial de regularização fundiária.

Tendo por primeira condição a existência de uma extensa área ainda coberta por floresta nativa, seria possível manter a biodiversidade florestal como reserva estratégica para o futuro.

Ao tempo em que uma vez comprovada a primeira condição de reserva o modo extrativista de produção, depois de reconhecido sucesso na geração de riqueza durante os ciclos econômicos da extração de borracha e da coleta de castanha-da-Amazônia, possibilitaria a obtenção de renda conservando a reserva estratégica de biodiversidade florestal.

Um conceito complexo e que avançou graças a publicação de muitas pesquisas oriundas do esforço de um considerável contingente de especialistas e, por suposto, grande mobilização social em especial após o sacrifício de uma liderança sindical cultuada mundo afora, Chico Mendes.

A despeito de incorporar o arcabouço teórico produzido por uma equipe enorme de profissionais com bastante domínio sobre o conceito da saída pela floresta, o Projeto Florestania deixou de formar seus próprios pesquisadores e estudiosos com especialização em política pública de modo a se viabilizar enquanto Projeto de Governo e quiçá de Estado.

Afinal, não seria com não mais que cinco órfãos que o Florestania motivaria a academia, cientistas e técnicos em sua formulação para o futuro.

Tal como quase tudo do que acontece em geral na Amazônia e em particular no Acre, o Florestania, um Projeto de Governo que orientou a gestão pública no Acre durante as duas primeiras décadas desse século, caiu no esquecimento sem deixar referencia teórica nem seguidores.

Todavia, como sempre também há esperança.

Talvez tenha sobrado alguns poucos órfãos, como no caso do incansável autor, que ainda se arriscam na defesa da saída pela floresta como única, é única mesmo, alternativa para o desenvolvimento econômico do Acre.

Entretanto, é bem provável que não haja mais de cinco especialistas, órfãos do Florestania, que ainda produzem evidencias acerca da superioridade do modelo econômico de desenvolvimento baseado na biodiversidade florestal quando comparada á expansão e consolidação da pecuária extensiva no Acre, a despeito de todos se ressentirem da reduzida produção teórica.

Ocorre que a grande maioria das pesquisas, que incluem dissertações de mestrado e teses de doutorado, confrontando os dois modelos de ocupação produtiva (biodiversidade florestal X pecuária extensiva) foi publicada em um período bem específico, no final do século passado, e trataram de temas igualmente específicos, a criação de unidades de conservação, por exemplo.

Em uma análise um tanto rápida não é difícil perceber que mais de 80% das publicações com avaliações comparativas sobre os impactos econômicos e ambientais entre os dois modelos de desenvolvimento datam do período que vai de 1985 até o final da década seguinte, com alguns raros e excepcionais estudos publicados na virada do século.

O que importa é que, novamente em sua imensa maioria, os estudos e relatórios técnicos foram realizados com incontestável apoio do Ministério do Meio Ambiente, que, sobretudo durante os dois governos FHC, não poupou esforço e vontade para aportar recursos financeiros de maneira a demonstrar a cabal diferença na dimensão dos estragos causados nos ecossistemas, em especial devido ao desmatamento das florestas e alteração da vazão dos rios, pela pecuária extensiva e, por outro lado, o potencial conservacionista da saída pela floresta.

Foi nesse período que várias instituições estatais, incluindo a reconhecida Embrapa, em conjunto com expressivo número de organizações não governamentais, conceberam procedimentos técnicos para o que se denominou de manejo florestal de uso múltiplo.

Tratava-se em rápida síntese, da possibilidade de extrair da biodiversidade florestal uma variada cesta de produtos, madeira nobre das árvores inclusive, que adicionados à prestação de serviços ecológicos, relacionados em especial a oferta de água e ao mercado de carbono, forneceriam renda total mais elevada e de forma permanente que o limitado ganho por hectare obtido com a perigosa prática da pecuária extensiva.

Não à toa, outro importante legado do Acre para a discussão sobre o modelo de desenvolvimento amazônico mais adequado a sua realidade ecossistêmica, ou, no dizer dos economistas, de melhor vantagem comparativa, também surgiu e ganhou força nesse mesmo período.

O conceito de Reserva Extrativista foi detalhado em diversas publicações possuindo um acervo notável de produção teórica (acadêmica, de pesquisas cientificas e relatórios técnicos) que, de maneira direta ou indireta, foi capturado pelo Projeto Florestania como se uma coisa tivesse ligação direta com a outra.

Por óbvio que não!

Uma coisa é uma demanda vinda da sociedade, ser transformada em política pública ao prover regularização fundiária para as colocações de muitos produtores extrativistas, outra coisa, bem diferente, seria transformar a saída pela floresta, que tinha na Reserva Extrativista sua principal referência teórica, em Projeto de Governo com perspectiva de se tornar de Estado.

Um tema que, infelizmente, carece de produção teórica e, ao que parece e tudo indica, perdeu seu momento histórico, mas que, em contrapartida, jamais deverá ser esquecido pelos acreanos, dada sua importância nem tanto pelo passado, mas para o futuro do Acre.

Não pode por isso mesmo, ser deixado aos cuidados dos não mais que cinco órfãos do Florestania no Acre.

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