CHOCOLATE DE ALTA QUALIDADE SERÁ PRODUZIDO NA ALEMANHA COM CACAU NATIVO DO PURUS
ENGENHARIA FLORESTAL DA UFAC VAI PESQUISAR O MANEJO COMUNITÁRIO DO CACAU NATIVO DO PURUS
O projeto denominado “MANEJO COMUNITÁRIO DO CACAU NATIVO NA VÁRZEA DO MÉDIO RIO PURUS – AM”, uma iniciativa da Engenharia Florestal da UFAC, sob a coordenação dos Professores Ecio Rodrigues e Nei Braga, foi avaliado de maneira positiva pelo CNPq e receberá recursos da ordem de R$200.000,00 para sua execução.
Inserido no Edital 36/2007, que conta com recursos oriundos dos Ministérios da Ciência e Tecnologia, do Desenvolvimento Agrário e do Desenvolvimento Social, a pesquisa e extensão florestal voltada às soluções dos problemas tecnológicos que envolvem o manejo comunitário do cacau nativo nas várzeas amazônicas, a serem realizadas pela UFAC, é fruto de uma parceria única.
Além da UFAC fazem parte do projeto a Cooperativa Agroextrativista do Mapiá e Médio Purus - COOPERAR; Comissão Executiva do Plano da Lavoura Cacaueira – CEPLAC; Universidade Estadual Paulista – UNESP; Instituto de Desenvolvimento Agropecuário e Florestal Sustentável do Estado do Amazonas - IDAM; Bremer HACHEZ Chocolade GmbH & CoKG, Bremen da Alemanha; Agência de Cooperação Técnica Alemã - GTZ; Faculdade de Ciência Florestal da Universidade de Freiburg, Alemanha e o Instituto Floresta Tropical (Regenwald-Institut e.V.), Freiburg, Alemanha.
Uma parceria única por evolver duas universidades brasileiras (UFAC e Unesp) uma das universidades mais tradicionais de engenharia florestal no mundo, de Freiburg, uma empresa compradora de cacau para produção de chocolates finos, uma cooperativa de manejadores de cacau nativo da Amazônia e, por fim, duas instituições renomadas de pesquisa extensão florestal com o cacau (Idam e Ceplac).
Com objetivos claros e bem dimensionados o projeto aprovado pela Engenharia Florestal da UFAC pretende: a) promover a melhoria das condições de vida dos agricultores familiares do médio Rio Purus, por meio de extensão tecnológica inovadora para o manejo florestal de uso múltiplo com foco no cacaueiro nativo da Amazônia; b) avaliar o potencial produtivo e a dispersão do cacaueiro nativo e espécies associadas na área de atuação da COOPERAR, de modo a subsidiar o planejamento de produção de cacau da Cooperativa, bem como orientar ações de extensão do projeto; c) disseminar o manejo florestal de uso múltiplo, com foco no cacaueiro nativo, para agricultores familiares do médio Rio Purus, por meio de extensão tecnológica inovadora; d) avaliar a sustentabilidade econômica, social e ambiental do manejo do cacau nativo; e, e) disseminar junto a instituições de ensino superior, pesquisa, assistência técnica e extensão da Amazônia os conhecimentos gerados pelo projeto.
Para convencer os peritos responsáveis pela concorrida seleção nacional do edital, os engenheiros florestais da UFAC, em conjunto com os demais parceiros, alegaram existir razões de ordem técnica, social, econômica e ecológica que justificariam a execução do projeto. Felizmente convenceram.
Justificativa técnica:
Parece existir uma lacuna intransponível para os procedimentos e inovações tecnológicas destinados a viabilizar a produção comercial de produtos florestais em ambiente natural. O manejo florestal, mesmo aquele destinado à produção de madeiras, um produto de elevada importância comercial e que foi objeto de estudos vários nos últimos 50 anos, ainda encontra sérios gargalos a serem superados.
Com relação ao cacau nativo não é diferente, pois o nível de investimento realizado no estudo da domesticação e dos cultivos é assustadoramente superior ao investimento na análise de suas relações no interior do ecossistema florestal.
Na medida em que ocorre uma mudança de atitude e de postura dos agentes econômicos inseridos no mercado do chocolate, fazendo com que voltem sua atenção para o cacau nativo de várzea, a lacuna em geração de pesquisas e tecnologias surge como um empecilho perigoso.
A Amazônia possui o recurso florestal, no caso o cacau, com ampla ocorrência na várzea dos rios, possui uma população com habilidade para manejá-lo e, no entanto, não possui tecnologia de manejo florestal apropriada para manter níveis de produção permanentes e assim honrar contratos de fornecimento.
Essa lacuna tecnológica o presente projeto irá sanar. O cacau será introduzido no sistema tecnológico do manejo florestal de uso múltiplo, uma tecnologia concebida e formulada especificamente para o ecossistema florestal da Amazônia, no decorrer da década de 1990, sobretudo no próprio Acre.
Justificativa social:
Na área de atuação do presente projeto, estima-se que habitam cerca de 600 famílias de agricultores familiares, que basicamente exercem atividades de subsistência, possuem baixo nível de organização social e recebem pouco auxílio de políticas públicas, vivendo praticamente isoladas. Dessas 600 famílias, cerca de 200 já iniciaram o extrativismo do cacau nativo e estão em processo de filiação à COOPERAR. Além da região de influência da Cooperativa, os ribeirinhos da Amazônia, em zonas de ocorrência do cacau, são estimados em mais de 500 mil pessoas.
Desde o início da atividade extrativa do cacau na região do médio Purus, em 2006, diversas melhorias sociais têm sido levadas a comunidades da região, em função da organização social dos produtores e da articulação de diversas parcerias institucionais pela COOPERAR. Como exemplo, algumas comunidades já foram beneficiadas com a implantação de estrutura para fermentação, secagem e armazenamento de amêndoas/grãos e muitas comunidades serão beneficiadas com a implantação de geradores de energia, com a regularização fundiária, com a oferta e melhoria dos serviços de educação e saúde, medidas que vêm sendo articuladas pela Cooperativa com apoio da GTZ.
A COOPERAR foi fundada por um grupo de 20 extrativistas da região do médio Rio Purus, em 2003. Sua finalidade básica é promover atividades produtivas sustentáveis, que conciliem a geração de trabalho e renda com a conservação da floresta, bem como viabilizar o consumo de bens de primeira necessidade para a população ribeirinha da região do médio Rio Purus, nos municípios de Boca do Acre e Pauini - AM.
Justificativa econômica:
Em 2005, a COOPERAR iniciou os contatos com uma empresa alemã de chocolates finos, a HACHEZ, e, mediante projeto apresentado à empresa, firmou acordo para iniciar a exportação do cacau nativo, sendo que todos os recursos necessários para investimento e capital de giro seriam adiantados pela HACHEZ e posteriormente restituídos pela COOPERAR, mediante abatimento no lucro da exportação do cacau.
Em 2006, no âmbito desse acordo, a COOPERAR beneficiou e exportou para a Alemanha cerca de 9 toneladas de cacau nativo, beneficiando diretamente 20 comunidades ribeirinhas e 115 extrativistas. A qualidade do cacau foi aprovada pela HACHEZ, que encomendou 30 toneladas de cacau nativo para 2007. Para tanto, a HACHEZ financiou a implantação da estrutura de beneficiamento de cacau da COOPERAR, que inclui 3 unidades com capacidade para cerca de 20 toneladas de cacau por ano cada uma, sendo 1 unidade em Boca do Acre, 1 na comunidade Santo Elias e 1 na comunidade Canacuri (ambas as comunidades no município de Pauini - AM).
Em 2007, a safra do cacau foi a pior dos últimos 20 anos na região do médio Purus, o que inviabilizou o beneficiamento da quantidade demandada pela HACHEZ. Como a maior parte dos cacaueiros nativos praticamente não deu frutos nesse ano, a COOPERAR só conseguiu produzir cerca de 2 toneladas de cacau. Por outro lado, estendeu seu raio de ação para cerca de 60 comunidades ribeirinhas e aproximadamente 200 extrativistas, que estão em processo de associação à Cooperativa.
Justificativa ecológica:
Há vários anos, o município de Boca do Acre detém o maior rebanho bovino de corte do Estado do Amazonas, totalizando cerca de 292 mil cabeças de gado em 2005 (IDAM), o que tem provocado significativa perda da cobertura florestal na região, na proporção de 1 hectare desmatado por cabeça de gado (totalizando cerca de 290 mil hectares de pastos).
O crescimento da bovinocultura em Boca do Acre é da ordem de 10% ao ano. Alguns latifundiários chegam a desmatar individualmente mais de 1.000 ha por ano. Já no município de Pauini, a bovinocultura é menos expressiva, com cerca de 7 mil cabeças de gado e 7 mil ha de pastos. Entretanto, também crescendo à taxa de aproximadamente 10% a.a.
Na região abrangida por este projeto, a principal atividade econômica das famílias é a pesca e a agricultura de subsistência, praticada nas praias do Rio Purus, bem como em roçados que têm gerado desmatamento médio de 0,5 ha por família (agricultura de corte e queima).
A manutenção do estoque florestal, tanto do cacaueiro nativo quanto de outras espécies florestais importantes para a cultura e economia dos extrativistas do médio Purus, somente será assegurada caso a atividade extrativista seja economicamente mais atrativa do que as alternativas insustentáveis, sobretudo a pecuária.
Com secas extremas nunca observadas e, de outra banda, com alagações igualmente atípicas, o Purus em desequilíbrio é o resultado do processo de antropização e desmatamento realizado na área de influência do projeto. Os produtores sabem disso e, mais ainda, que a atividade do manejo florestal comunitário do cacau e de outras espécies se configura em alternativa imprescindível para frear esse processo de ocupação que destrói o ecossistema florestal.